Arquivo mensais:junho 2011

Juros do cheque especial atingem máxima em 12 anos

Jornal do Brasil

Luciana Cobucci

08/06/2011

 

Os juros do cheque especial para as famílias atingiram 185,4% ao ano em maio de 2011, o maior valor desde abril de 1999, quando chegou a 193,6% ao ano, segundo divulgou nesta terça-feira o Banco Central (BC).

O montante de abril chegou a 178,1%, o maior em oito anos. Esta é a modalidade mais cara de obtenção de empréstimos, de acordo com a autoridade monetária. O valor dos juros do crédito pessoal caiu de 49,9% em abril para 49,7% em maio. A média para a aquisição de bens passou de 32,2% para 31,8%, incluindo programas de financiamento habitacional e de veículos.

A inadimplência em maio atingiu 6,4% das famílias, o maior percentual desde junho do ano passado, quando o indicador medido foi 6,5%. Já o percentual das empresas devedoras foi de 3,9% em maio, 0,2 ponto percentual maior que o medido em abril deste ano.

A taxa de juros cobrada das famílias permaneceu num patamar estável em maio ante a abril, em 46,8%. Os juros às empresas subiu 0,1 ponto percentual em maio, passando de 31% para 31,1% no mês passado.

 

Fonte: http://www.jb.com.br/economia/noticias/2011/06/28/juros-do-cheque-especial-atingem-maxima-em-12-anos/

Siderúrgicas do Pará seguem usando carvão feito com madeira irregular

Repórter Brasil

Bianca Pyl

23/06/2011

 

Cosipar, Sidepar, Margusa e Gusa Nordeste compram carvão de origem não explicada, vindo de fornos que não estão no cadastro legal das empresas, denuncia estudo do Instituto Observatório Social.

São Paulo (SP) – Grandes siderúrgicas exportadoras do pólo de Carajás, no Pará, têm utilizado carvão feito com madeira de desmatamentos irregulares para fabricar ferro gusa. O produto serve de matéria-prima a montadoras de veículos e fabricantes de eletrodomésticos, de aviões e de computadores. O autor da denúncia é o Instituto Observatório Social, que lançou o estudo “O aço da devastação” quarta-feira (22), em São Paulo.

De acordo com a pesquisa, coordenada pelo jornalista Marques Casara, da Papel Social Comunicação, Cosipar, Sidepar, Margusa e Gusa Nordeste usaram carvão de origem não explicada, vindo de fornos que não estão no cadastro legal das empresas. Há casos de siderúrgicas em que o uso do carvão ilegal sustenta mais da metade de toda a produção.

Para chegar a essa informação, o jornalista pesquisou a produção do carvão forno a forno. A metodologia utilizada foi cruzar o cálculo da capacidade máxima de produção dos fornos com o que de fato foi produzido. Para saber a quantidade de fornos, foi utilizada a lista de fornecedores de carvão que negociaram com siderúrgicas em 2010 (associadas ao Instituto Carvão Cidadão).

“Cruzamos a capacidade de produção de carvão com o total de fato produzido e obtivemos um índice de ilegalidade muito alto”, disse Casara. Segundo a pesquisa, a Sidepar, por exemplo, produziu 155% a mais do que é possível de acordo com o número de fornos declarados (2.224). Em reposta ao Observatório Social, o ICC disse que o número correto é 107% a mais.

O problema pode ser ainda mais grave porque há siderúrgicas não associadas ao ICC e que não têm nenhum monitoramento de sua cadeia produtiva. Por outro lado, também há notícias positivas. “Há exemplos de empresas que produzem de forma sustentável, provando que é possível trabalhar de forma correta, respeitando o meio ambiente”, acrescenta Casara.

Desde que foi lançada a primeira pesquisa de monitoramento, em 2004, muita coisa avançou na região – de acordo com o jornalista, sobretudo no que tange à questão trabalhista. “O enfrentamento ao trabalho escravo teve êxitos importantes, em boa parte por conta do Instituto Carvão Cidadão”. Entretanto, no aspecto ambiental não teria havido avanços. Para resolver a situação, na avaliação do Observatório Social, é necessário elaborar um monitoramento por parte do ICC que não deixe brechas aos que compram carvão ilegal.

A revista relata casos nos quais o carvão é entregue às siderúrgicas sem documento ou com o uso de documentos forjados. Revela ainda como governos municipais e o governo estadual são coniventes com crimes ambientais e trabalhistas, muitas vezes usando aparatos de Estado para acobertar ações criminosas que têm o objetivo de devastar áreas de preservação ambiental e terras indígenas.

A compra de créditos de madeira concedidos a assentamentos rurais direcionados à agricultura familiar também é artifício utilizado para burlar a legislação ambiental. “Um dos esquemas está em operação em Tucuruí. A madeira nunca sai do assentamento, mas por uma triangulação envolvendo madeireiras, empresas agropecuárias e carvoarias, os créditos também são usados para esquentar carvão para o setor siderúrgico”, revela a publicação do Observatório Social.

 

Fonte: http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=1906

Com política industrial disfarçada, Obama busca relançar setor industrial nos EUA

Alex Ribeiro
Valor Econômico
De Washington
28/06/2011

Com visitas a fábricas, um programa para formar novos operários e subsídios para criar uma indústria de baterias para carros elétricos, o presidente Barack Obama faz uma ofensiva para tentar reavivar o setor manufatureiro americano, que entrou em declínio a partir da década de 1980. Mas, para evitar ataques da oposição conservadora, o governo evita a todo custo reconhecer as suas iniciativas como uma política industrial.

O arquiteto do pacote de socorro às montadoras americanas, Ron Bloom, foi indicado para coordenar as ações do governo dentro da Casa Branca. O nome de seu cargo, porém, foi definido com muito cuidado: ele é o “assessor para política manufatureira” de Obama, não de “política industrial”.

Hoje, Obama vai a uma fábrica da Alcoa no Estado de Iowa, para fazer um discurso exaltando o papel do setor industrial como motor da economia. Na sexta, ele anunciou, em visita à cidade industrial de Pittsburgh, US$ 500 milhões em investimentos para um programa com universidades e empresas que desenvolverá tecnologias de ponta para a indústria, incluindo pesquisa de novos materiais e robôs de última geração. Para Bloom, as novas frentes de pesquisa poderão ajudar no resgate de algumas indústrias que encolheram nas últimas décadas devido à concorrência estrangeira, como produção de papel e de pneus.

Há algumas semanas, Obama lançou um programa educacional com recursos públicos destinado à formação de mão-de-obra para a indústria. Pouco antes, havia visitado a sede de uma montadora de automóveis no Estado de Ohio. O setor foi resgatado na crise econômica com um pacote de US$ 85 bilhões administrado por Bloom.

Mas a aposta mais ambiciosa do governo é criar uma indústria de energias limpas. Nos últimos dois anos, foram concedidos US$ 2,4 bilhões em subvenções para criar praticamente do zero uma indústria de baterias capaz de, espera o governo, atender a uma frota de um milhão de veículos movidos a eletricidade nos EUA até 2015. O dinheiro também faz parte do programa de estímulo criado pelo governo para tentar tirar o país da recessão. Hoje, porém, com a pressão do Partido Republicano (de oposição) para cortar o déficit público, não há espaço político para novas empreitadas do gênero.

Boa parte da opinião pública americana, principalmente economistas mais conservadores, é contra políticas industriais, associando esse tipo de iniciativa ao planejamento centralizado soviético. Argumentam que, nesse sistema, o governo escolhe vencedores e, muitas vezes, os projetos não sobrevivem depois que os subsídios expiram. Políticos e economistas conservadores, de forma geral, advogam as chamadas políticas horizontais, que beneficiam todos os setores da economia indistintamente. Uma rara exceção admitida pelos conservadores é a política industrial do Departamento de Defesa, considerada estratégica para a segurança nacional.

Em uma teleconferência organizada há alguns dias pela Casa Branca, jornalistas perguntaram se o governo estaria escolhendo vencedores com o projeto de inovação industrial anunciado em Pittsburgh. A iniciativa destina US$ 500 milhões para projetos de interesse de um grupo com poucas empresas, como a Dow Chemical e a Honeywell, embora outras companhias possam ser admitidas na iniciativa no futuro. “Não apoiamos nenhuma política industrial”, respondeu Eric Lander, co-presidente do conselho de assessores em ciência e tecnologia da Casa Branca. “Política industrial é diferente de política de inovação.” Para ele, o governo está apoiando pesquisa pura, que poderá beneficiar a economia como um todo.

Obama também procura afastar a ideia de que suas iniciativas representam uma política industrial tradicional. “Isso não é uma burocrática política industrial imposta de cima para baixo”, disse há alguns meses à bancada de seu partido Democrata, explicando o trabalho exercido por Boom na Casa Branca. “Isso é descobrir formas de coordenar empresas, universidades e governo para olhar nossas oportunidades estratégicas e fazer os investimentos, preenchendo lacunas para que possamos ser competitivos com o que a China, Alemanha e Espanha estão fazendo.”

Economistas desenvolvimentistas, por outro lado, consideram as iniciativas de Obama muito tímidas e não as reconhecem como uma genuína política industrial. “É mais simbólico”, disse ao Valor Mark Weisbrot, co-diretor do Center for Economic and Policy Research, um centro de estudos de Washington. “Não existe política industrial sem resolver a valorização cambial, o principal problema para as indústrias dos Estados Unidos.”

Muitos veem a agitada agenda industrial de Obama, que disputa a reeleição no ano que vem, como uma tentativa de colar sua imagem num dos raros setores da economia que vão bem. A produção industrial cresce há 22 meses seguidos, puxada sobretudo pelas exportações, embora tenha desacelerado em maio. A política expansionista do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) promoveu a desvalorização do dólar, tornando os produtos americanos mais competitivos.

Oportunidade

Antonio Delfim Netto

Do Valor Econômico

28/06/2011

 

Esse é um momento particularmente interessante para os economistas. A crise de 2007/09, que atingiu o sistema financeiro e interrompeu o “circuito econômico”, já custou mais de 5% do PIB mundial e deixou desempregados mais de 30 milhões de honestos trabalhadores.

Ela mostrou as limitações dos nossos conhecimentos de como funciona, de fato, o sistema econômico. Mostrou, também, a precariedade do que parecia ser uma revolução científica: a construção da economia financeira, separada da macroeconomia, feita por pequenos economistas, supostos grandes matemáticos!

O economista é um cientista social que procura entender como funciona o mundo real (e não impor-lhe o que gostaria que ele fosse). Tenta encontrar algumas regularidades e organizar histórias plausíveis sobre elas. O resultado do seu trabalho deve ajudar a lubrificar o funcionamento das instituições que levam ao desenvolvimento sustentável com justiça social.

Os economistas estão diante de um novo e excitante momento

Nem toda atividade social é de interesse da economia, mas toda atividade econômica é de interesse social. O agente econômico é um animal mais complicado do que supúnhamos: aprende com uma racionalidade limitada inserido num universo de incertezas.

O individualismo metodológico e os agentes representativos que estão na base das nossas construções teóricas são insuficientes para entender o fenômeno das redes que dominam o universo social, da tendência à imitação dos agentes e da segurança que a norma lhes dá. Eles certamente movem-se por estímulos e interesses, mas num espaço social, numa rede na qual cada um é apenas um elemento, o que condiciona as suas escolhas.

A pobre discussão que envolveu a ideia de “Estado mínimo”, por exemplo, era apenas uma ação ideologicamente motivada. Na verdade, não existe “mercado” sem um Estado capaz de garantir as condições de seu funcionamento. Numa larga medida, a forma de organização do sistema produtivo é ditada pelos que detêm o poder político e formulam a política econômica que serve aos seus interesses. A sua construção teórica e a formalização para justificá-la também são um produto ideológico.

Para entender isso, basta ver como a tomada do poder pelas finanças nos EUA levou a uma política econômica que lentamente erodiu a legislação que regulava suas atividades e fora produzida após a Grande Depressão. Muito rapidamente os “cientistas” produziram uma “ciência” que justificava a total desregulamentação da atividade financeira em nome da “eficiência” e da descoberta de “inovações” capazes de medir os “riscos”: 1929 nunca mais!

É preciso incorporar no DNA dos economistas a autonomia do político. Nas situações de conflitos irreconciliáveis, só o poder político pode arbitrar. Ainda que possamos ter sugestões interessantes sobre a flexibilidade do mercado de trabalho (o que não é muito claro do ponto de vista empírico), elas são, claramente, propostas “normativas” que produzem, inevitavelmente, “vencedores” e “perdedores”. É um pouco ridículo sugerir aos últimos que devem sacrificar-se em nome de um “valor maior” construído sobre a base teórica discutível da Teoria do Equilíbrio Geral…

A economia precisa voltar a abrigar contribuições de todos os matizes teóricos e ideológicos, porque aqui, como na biologia, só a diversidade é fértil. Essa é uma velha tradição da FEA/USP. Apenas para recordar. Nos idos de 1947, o ilustre professor Paul Hugon nos ensinava – na cadeira de economia política – que a moeda era “qualquer coisa” aceita pela sociedade com as qualidades de ser uma unidade de conta, de resgatar compromissos e capaz de ser reserva de valor. Era apenas um véu que escondia a economia real.

Ao mesmo tempo, o não menos ilustre professor Heraldo Barbuy – na cadeira de sociologia – nos “enriquecia”, inspirado em George Simmel, ao mostrar que a coisa não era tão simples! A moeda era sim produto de uma convenção social, mas tinha profunda influência no comportamento humano, como a cupidez, a avareza e a prodigalidade e exercia profunda influência sobre a economia real. A ideia de uma moeda neutra, apenas um “véu” facilitador das trocas, era uma “imbecilidade”.

Os economistas estão diante de um novo e excitante momento. Precisam aproveitar as novas oportunidades que se abrem à profissão para renovar o trabalho mais modesto de oferecer instrumentos para a boa governança dos Estados e a melhor alocação dos seus recursos. Precisam recuperar a história, a geografia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e usar mais modestamente a topologia…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Classe C ganha 39,5 milhões de pessoas, diz FGV

Gabriela Gasparin

Do G1, em São Paulo

27/06/2011

 

Do início de 2003 até maio deste ano, aumento foi de 46,57%.

Do início de 2003 até maio deste ano, 48,7 milhões de pessoas entraram nas classes A, B e C no Brasil, quase a população da Espanha, um crescimento de 47,94%, aponta pesquisa divulgada nesta segunda-feira (27) pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Somente na classe C foram 39,5 milhões de novos integrantes no período, um aumento de 46,57%. Paralelamente, 24,6 milhões de pessoas deixaram a classe E, queda de 54,18%, e 7,9 milhões, a classe D, recuo de 24,03%, o que mostra que a desigualdade no país vem caindo, afirma o professor Marcelo Cortes Neri, coordenador da pesquisa.

“Você está falando de crescimento em cima de crescimento (…). Ela [classe C] já cresceu porque a renda do brasileiro vem crescendo desde o fim de 2003, e a desigualdade vem caindo há 10 anos. Esses são fatores fundamentais para este cenário de crescimento. O terceiro fator é a estabilidade, seja a inflacionária, seja o choque de confiança que foi dado aos mercados.”

De acordo com Neri, além do crescimento da renda e da queda da desigualdade, a educação é outro fator que colabora para o aumento da classe C. “A nossa pesquisa mostra que, só pelo efeito da educação, se tudo se mantiver constante, a renda do brasileiro cresceria 2,2 pontos percentuais por ano, o que é bastante”. Ele citou ainda programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que foi importante para a classe E, e o aumento do salário mínimo, importante para a classe C.

Do total de novos integrantes das classes A, B e C, 13,3 milhões passaram a fazer parte dessas fatias sociais nos últimos 21 meses encerrados em maio, salienta o professor, o que mostra que o crescimento continua.

Crescimento do PIB versus alta da renda
A pesquisa revela ainda que a renda do brasileiro cresce em proporções maiores que o Produto Interno Bruto do país, o que diferencia o Brasil de outros países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

De 2003 a 2009, a taxa de crescimento do PIB per capita foi, em média, de 2,88% ao ano, sendo superada em 1,83 ponto percentual ao ano pela renda da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), que foi de 4,71% ao ano.

Entre as duas últimas Pnads, essa relação quase dobra, diz a pesquisa. O PIB per capita recúa 1,5% em 2009, contra um crescimento de 2,04% na renda da Pnad.

Na China e na Índia, o movimento foi oposto, disse o professor, pois o PIB cresceu mais do que as pesquisas domiciliares daqueles países.

Desigualdade
As desigualdade de renda no Brasil vem caindo desde 2001, aponta o estudo. Entre 2001 e 2009, a renda per capita dos 10% mais ricos, aumentou em 1,52% ao ano, enquanto a renda dos mais pobres cresceu a uma taxa de 6,79% ao ano. De acordo com o Neri, esse cenário é outro fator que reflete a diferença do Brasil em relação aos demais países dos Brics, onde a desigualdade, embora mais baixa, segue subindo, diz o estudo.

O estudo mostra que a cidade brasileira com mais integrantes da classe A (30,7%) é Niterói, no Rio de Janeiro. Em segundo lugar vem, vêm Florianópolis (27,7%), Vitória (26,9%), São Caetano (26,5%), Porto Alegre (25,3%), Brasília (24,3%) e Santos (24,1%).

Na outra ponta, a cidade com menos integrantes da classe A está Água Nova (RN) e Assunção do Piauí (PI), ambas com 0%, Quixaba (PE), com 0,03%, Logradouro (PB) e Venha-Ver (RN), ambas com 0,05%.

Otimismo brasileiro
De acordo com Neri, o Brasil é recordista mundial no que diz respeito à felicidade futura. Segundo pesquisa da FGV realizada com dados do Gallup World Poll, de 0 a 10, o brasileiro tem a média de 8,7 no que diz respeito à satisfação com a vida para 2014, superando todos os demais 140 países da amostra, cuja mediana é 5,6.

O professor ressalta ainda que o Brasil também se destaca nesse quesito em relação aos outros países dos Brics, no que diz respeito à felicidade futura em 2014: a África do Sul ficou na 46ª colocação, com 7,2; a China na 92ª colocação, com 6,4; a Rússia, no 119º lugar, com 6, e a Índia, na 128ª colocação, com 5,7.
Fonte: http://g1.globo.com/economia/noticia/2011/06/classe-c-ganha-395-milhoes-de-pessoas-diz-fgv.html
Para acessar a pesquisa na íntegra: http://www.fgv.br/cps/brics/

Desmatamento para plantação de soja na Amazônia cresceu 85% em 2011

Ecodebate

HC

27/06/2011

 

Desmate amazônico para plantio de soja cresceu 85% em 2011. Grão pode voltar a ser fonte de pressão sobre floresta, graças a preço mais que dobrado no mercado mundial. Moratória criada por indústria do óleo corre risco por dificuldade de monitoramento; China é o grande exportador

O desmatamento para plantação de soja na Amazônia cresceu 85% em 2011 em relação ao ano passado. Os dados são de um relatório de monitoramento que a indústria faz anualmente na região, ao qual a Folha teve acesso. Reportagem de Claudio Angelo, na Folha de S.Paulo.

Eles indicam que o grão está voltando a ser uma fonte de pressão sobre a floresta, uma situação que tende a se agravar nos próximos anos com o preço aquecido no mercado internacional, a demanda chinesa e obras de infraestrutura planejadas para facilitar o escoamento da safra.

Segundo o relatório da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), a área desmatada para a produção de soja em 375 mil hectares, monitorados em 53 municípios por satélite e avião, foi de 11.653 hectares na safra 2010/2011.

Em 2009/2010, ela era de 6.295 hectares, numa área monitorada 24% menor.

FIGURAS GEOMÉTRICAS
O número de “polígonos”, ou áreas desmatadas maiores que 25 hectares ocupadas com soja, subiu de 76 no ano passado para 147 este ano, um aumento de 93%.

Alarmadas com a situação, ONGs pedirão no mês que vem, quando o relatório será divulgado oficialmente, o endurecimento dos critérios ambientais para a soja.

MORATÓRIA
A soja tem dado trégua à Amazônia desde 2006, quando organizações ambientalistas e as principais “traders” (comercializadoras) de soja do país, representadas pela Abiove, firmaram uma moratória. Pelo acordo, as empresas se comprometeram a não comprar soja proveniente de novos desmatamentos.

A moratória tem vigorado com sucesso, aliada aos preços baixos do grão no mercado internacional.

Nos últimos dois anos, porém, o preço da soja voltou às alturas: mais que dobrou.

“Nunca esteve tão alto nos últimos 70 anos”, disse à Folha o senador Blairo Maggi (PR-MT), um dos maiores sojicultores do mundo. Animados, alguns produtores voltaram a desmatar.

Para Bernardo Pires, coordenador ambiental da Abiove, as expectativas do setor produtivo em relação ao Código Florestal também influenciaram o desmate.

“Está ficando mais difícil e mais caro monitorar o cumprimento da moratória”, disse Rafael Cruz, do Greenpeace. “O crescimento das áreas desmatadas é exponencial.”

A ONG realiza todo ano sobrevoos de áreas identificadas pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) como potenciais desmatamentos para grão, para validar os dados obtidos pelos satélites.

Segundo Cruz, neste ano o trabalho consumiu tantas horas de voo que a coisa está ficando impraticável.

Um desses sobrevoos, realizado na semana passada em Mato Grosso, flagrou áreas desmatadas ou em alto grau de degradação -matas queimadas para plantio futuro- contíguas a fazendas que estão na “lista suja” da Abiove.

Isso aumenta a quantidade de soja “suja” no mercado, misturada à soja considerada “legal”, disse Cruz.

NEGÓCIO DA CHINA
Pires afirma que os produtores que querem escapar da moratória encontram cada vez mais refúgio no mercado chinês. “A China não está preocupada com desmatamento. Chinês quer preço.”

Tanto ele quanto Cruz afirmam que o futuro da moratória só estará garantido pela adoção de mecanismos mais rígidos de controle ambiental na região afetada.

O Greenpeace e outras ONGs defendem a adoção do CAR (Cadastro Ambiental Rural) como critério mínimo para a moratória.

Pelo CAR, as fazendas declaram aos órgãos ambientais estaduais os limites de suas áreas de mata nativa por imagem de satélite -e ficam mais sujeitas a fiscalização. As “traders” têm evitado fazer essa exigência, com medo de reação dos produtores.

”O Brasil já vive a sua doença holandesa”

Jamil Chade

O Estado de S.Paulo

26/06/2011

 

Para ex-ministro, País deveria taxar exportações de commodities para reduzir o impacto na indústria nacional

ENTREVISTA – Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista e ex-ministro da Fazenda
O Brasil já vive sua “doença holandesa”. O governo sabe disso e terá de pensar em taxar as exportações de soja, minérios e outras commodities. Quem alerta é Luiz Carlos Bresser-Pereira. Em entrevista ao Estado, o ex-ministro da Fazenda no governo de José Sarney e de Reforma do Estado e Ciência e Tecnologia no governo de Fernando Henrique Cardoso, alerta que a alta no preço das commodities gerou uma situação à qual o Brasil terá de se adaptar.

Se a alta dos preços é positiva para exportadores de recursos naturais, está na hora de o governo pensar em seu impacto para a economia e principalmente para a indústria nacional. Em Genebra para reuniões na ONU, Bresser-Pereira diz que o governo está “empurrando com a barriga” o problema.

A “doença holandesa” é um termo cunhado por economistas após a experiência da Holanda com a exportação de gás natural nos anos 60. A receita que entrava acabou gerando uma valorização cambial que prejudicou o setor manufatureiro e o tornou menos competitivo no exterior. Para Bresser-Pereira, a mesma realidade já ocorre no Brasil com a exportação agrícola. Eis os principais trechos da entrevista:

Como a alta nos preços de commodities tem impactado a economia brasileira?

O Brasil já vive sua doença holandesa. Não há nenhuma dúvida disso. O governo sabe. Tanto a presidente Dilma Rousseff quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, são conscientes disso. Mas não reconhecem.

Por quê?

Porque se reconhecerem terão de tomar medidas para lidar com ela. Por enquanto, o governo tem optado em empurrar esse assunto com a barriga.

Qual seria o remédio?

Hoje, o Brasil poderia tranquilamente aplicar uma taxa sobre exportações de commodities. De uma forma disfarçada, Delfim Neto já havia feito isso no passado com o café. Na realidade, essa taxa ao café vigorou no Brasil entre 1968 e 1991. Portanto, não é algo novo. Agora, precisamos repetir isso com a soja e com os minérios. Mas, neste momento, o governo parece não estar disposto a brigar nem com a Vale nem com os produtores de soja. O que o governo precisa fazer é demonstrar para esses grupos que, diante da alta nos preços internacionais, eles não perderão com a taxa e que a economia nacional ganharia.

Há exemplo de país que adotou a taxa de exportação e conseguiu reequilibrar sua economia?

Os Emirados Árabes taxam a exportação de energia em 98%. E é com isso que conseguem criar internamente um mercado de turismo e garantir a sua indústria tecnologia de ponta.

Qual o risco de demorar para reconhecer o problema?

Existem dois riscos. O primeiro, de uma queda no crescimento, ante o recuo na exportação de industrializados. O segundo é de a economia entrar em crise. Não seria para já. Mas viria de problemas sérios na balança de pagamentos. Em ambos os casos, seriam bolhas na economia brasileira que explodiriam.

A exportação agrícola não é o único motivo da valorização cambial. Há também o ingresso de capital especulativo. O que o governo pode fazer diante disso ?

Só há uma coisa a fazer: taxar a entrada de capital.

Mas o governo já faz isso com o IOF. Ele funciona?

Sim, funciona. Mas precisa ser adotado para todos os capitais. As medidas precisam ser mais drásticas, o governo sabe disso.

Isso não espantaria capital estrangeiro do Brasil?

O Brasil não precisa desse tipo de capital internacional. Hoje, uma multinacional que decide abrir produção no País vai ao BNDES e pega empréstimo. Não precisamos mais do Banco Mundial. Há uma alta taxa de substituição da poupança nacional pela poupança externa. Elas não se somam.