Com política industrial disfarçada, Obama busca relançar setor industrial nos EUA

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Alex Ribeiro
Valor Econômico
De Washington
28/06/2011

Com visitas a fábricas, um programa para formar novos operários e subsídios para criar uma indústria de baterias para carros elétricos, o presidente Barack Obama faz uma ofensiva para tentar reavivar o setor manufatureiro americano, que entrou em declínio a partir da década de 1980. Mas, para evitar ataques da oposição conservadora, o governo evita a todo custo reconhecer as suas iniciativas como uma política industrial.

O arquiteto do pacote de socorro às montadoras americanas, Ron Bloom, foi indicado para coordenar as ações do governo dentro da Casa Branca. O nome de seu cargo, porém, foi definido com muito cuidado: ele é o “assessor para política manufatureira” de Obama, não de “política industrial”.

Hoje, Obama vai a uma fábrica da Alcoa no Estado de Iowa, para fazer um discurso exaltando o papel do setor industrial como motor da economia. Na sexta, ele anunciou, em visita à cidade industrial de Pittsburgh, US$ 500 milhões em investimentos para um programa com universidades e empresas que desenvolverá tecnologias de ponta para a indústria, incluindo pesquisa de novos materiais e robôs de última geração. Para Bloom, as novas frentes de pesquisa poderão ajudar no resgate de algumas indústrias que encolheram nas últimas décadas devido à concorrência estrangeira, como produção de papel e de pneus.

Há algumas semanas, Obama lançou um programa educacional com recursos públicos destinado à formação de mão-de-obra para a indústria. Pouco antes, havia visitado a sede de uma montadora de automóveis no Estado de Ohio. O setor foi resgatado na crise econômica com um pacote de US$ 85 bilhões administrado por Bloom.

Mas a aposta mais ambiciosa do governo é criar uma indústria de energias limpas. Nos últimos dois anos, foram concedidos US$ 2,4 bilhões em subvenções para criar praticamente do zero uma indústria de baterias capaz de, espera o governo, atender a uma frota de um milhão de veículos movidos a eletricidade nos EUA até 2015. O dinheiro também faz parte do programa de estímulo criado pelo governo para tentar tirar o país da recessão. Hoje, porém, com a pressão do Partido Republicano (de oposição) para cortar o déficit público, não há espaço político para novas empreitadas do gênero.

Boa parte da opinião pública americana, principalmente economistas mais conservadores, é contra políticas industriais, associando esse tipo de iniciativa ao planejamento centralizado soviético. Argumentam que, nesse sistema, o governo escolhe vencedores e, muitas vezes, os projetos não sobrevivem depois que os subsídios expiram. Políticos e economistas conservadores, de forma geral, advogam as chamadas políticas horizontais, que beneficiam todos os setores da economia indistintamente. Uma rara exceção admitida pelos conservadores é a política industrial do Departamento de Defesa, considerada estratégica para a segurança nacional.

Em uma teleconferência organizada há alguns dias pela Casa Branca, jornalistas perguntaram se o governo estaria escolhendo vencedores com o projeto de inovação industrial anunciado em Pittsburgh. A iniciativa destina US$ 500 milhões para projetos de interesse de um grupo com poucas empresas, como a Dow Chemical e a Honeywell, embora outras companhias possam ser admitidas na iniciativa no futuro. “Não apoiamos nenhuma política industrial”, respondeu Eric Lander, co-presidente do conselho de assessores em ciência e tecnologia da Casa Branca. “Política industrial é diferente de política de inovação.” Para ele, o governo está apoiando pesquisa pura, que poderá beneficiar a economia como um todo.

Obama também procura afastar a ideia de que suas iniciativas representam uma política industrial tradicional. “Isso não é uma burocrática política industrial imposta de cima para baixo”, disse há alguns meses à bancada de seu partido Democrata, explicando o trabalho exercido por Boom na Casa Branca. “Isso é descobrir formas de coordenar empresas, universidades e governo para olhar nossas oportunidades estratégicas e fazer os investimentos, preenchendo lacunas para que possamos ser competitivos com o que a China, Alemanha e Espanha estão fazendo.”

Economistas desenvolvimentistas, por outro lado, consideram as iniciativas de Obama muito tímidas e não as reconhecem como uma genuína política industrial. “É mais simbólico”, disse ao Valor Mark Weisbrot, co-diretor do Center for Economic and Policy Research, um centro de estudos de Washington. “Não existe política industrial sem resolver a valorização cambial, o principal problema para as indústrias dos Estados Unidos.”

Muitos veem a agitada agenda industrial de Obama, que disputa a reeleição no ano que vem, como uma tentativa de colar sua imagem num dos raros setores da economia que vão bem. A produção industrial cresce há 22 meses seguidos, puxada sobretudo pelas exportações, embora tenha desacelerado em maio. A política expansionista do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) promoveu a desvalorização do dólar, tornando os produtos americanos mais competitivos.

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