DITADURA BRANDA, UMA FALSA IDÉIA

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Brasília, 05 de Abril de 2011. Flavio Lyra

Adeptos da ditadura instalada no país em 31 de Março de 1964, que durou 21 anos, e certos órgãos da imprensa, propõem-se a impingir aos que não vivenciaram aquele período difícil da vida política do país, a idéia de que tivemos aqui um governo autoritário manso.  Para tanto, se apóiam em comparações com o número de prisioneiros, de torturados e de mortes de opositores ao governo em outros países, no mesmo período, com destaque para o Chile e Argentina. Efetivamente, nesses países os números conhecidos de mortes são assustadores, situando-se na faixa dos trinta mil, enquanto no Brasil ficaram muito aquém das aludidas cifras.

De fato, com base no número de violência explícita com resultados mortais comprovados ficamos muito aquém de nossos parceiros regionais. Porém, o indicador assinalado, não obstante sua contundência, não é de modo algum suficiente para avaliar o grau de violência geral em que incorreram tais governos. Há uma vasta gama de outros tipos de violência, de difícil computação, envolvidos na ação de governos ditatoriais, que tornam praticamente impossível chegar a um “ranking” de violência geral, comparável entre países.

A vida das pessoas não é destruída somente quando os cadáveres servem de comprovação. Há formas de violência, ligadas à opressão e à perseguição política, que geram traumas para toda a vida e, até mesmo, encurtam os anos de existência das pessoas e de seus familiares, seja por que afetam suas condições materiais de existência, seja por que produzem transtornos psíquicos.

Além dos mortos e torturados, a máquina de repressão e controle social instalada no Brasil prejudicou um número incomensurável de pessoas compreendendo desde trabalhadores que eram obrigados a aceitar calados a opressão de patrões e os efeitos perniciosos da política econômica que destruía o poder de compra de seus salários, passando pelas formas arbitrárias de prisões e achaques à dignidade humana por parte de autoridades dos diferentes escalões de governo, à proibição de ocupar postos de trabalho,  à expulsão de centros de ensino, até a proibição ao acesso à informação.

Quem não se recorda do sinistro Serviço Nacional de Informações (SNI), que começou com um órgão restrito de inteligência do governo e acabou dominando todo o cenário da vida social do país, com seus extensos tentáculos que penetraram até as estranhas da administração pública. Cada órgão público tinha na sua cúpula dirigente um prolongamento do SNI, que se encarregava do controle ideológico dos seus funcionários.

Com o passar do tempo o SNI, em estreita associação com os órgãos de inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, ao lado dos órgãos de repressão do nível estadual, passaram a realizar cada vez mais operações de combate direto aos opositores. Incluem-se nessas operações atos de terrorismo como a explosão de bombas em estabelecimentos públicos e privados. O famoso caso do Rio Centro-Centro, em 1981, que somente agora vem tendo maior divulgação, nada mais foi do que um atentado terrorista comandado por setores extremistas das Forças Armadas, destinado a impedir a retomada do processo democrático.  Foi uma ação planejada que se não tivesse falhado teria produzido centenas de mortes em um espetáculo realizado por artistas de oposição ao regime e com forte presença de jovens.

Conforme sabemos da Física a força necessária para deslocar um corpo é proporcional ao peso desse corpo. O mesmo ocorre com a força e a intensidade da energia mobilizada para combater o inimigo num confronto. No Brasil, a violência dos militares que aparece em alguns indicadores foi proporcional à resistência encontrada na sociedade, que certamente foi muito menor do que nos outros países da região.

A começar pela saída do Presidente Goulart que se recusou a adotar qualquer providência para contrarrestar a ação dos militares rebelados.  As organizações de esquerda existentes no país, mesmo depois que resolveram recorrer à luta armada, por sua fragilidade e falta de apoio popular, nunca chegaram nem de leve a representar uma ameaça ao controle do governo pelos militares.  Eis, portanto, uma explicação razoável, para que a ditadura no Brasil tenha assumido uma face branda em termos de mortes, tortura e prisão de opositores.

Episódios isolados em que ocorreram tentativas abertas de confrontar a ditadura tiveram desfecho com alto teor de violência por parte de agentes do governo, que nada ficam a dever ao ocorrido em outros países.  A diferença que torna os nossos números bem menores trata-se apenas de uma questão de extensão do fenômeno. No Brasil, os opositores que realmente representaram ameaça ou confrontaram a ditadura foram em número reduzido e muito débeis em termos organizacionais.  Entretanto, a intensidade da violência contra opositores em situações específicas foi de grau parecido entre os países, o que variou foi a extensão da resistência real ou potencial dos opositores.

Como conclusão, caberia afirmar que a aparente mansidão de nossa ditadura tem mais a ver com a baixa resistência apresentada pela sociedade em geral ao governo estabelecido.  Os episódios localizados de alta violência praticados pela ditadura servem muito bem para mostrar que se a resistência da população tivesse sido ampla e difundida poderia ter havido aqui um banho de sangue de igual proporção as do Chile e da Argentina. Os agentes da ditadura brasileira não eram, nem mais nem menos, preocupados com os direitos humanos. As ditaduras, nesse aspecto, são todas iguais, não têm respeito à dignidade humana.

 

Uma ideia sobre “DITADURA BRANDA, UMA FALSA IDÉIA

  1. Heldo Siqueira

    Concordo com tudo… Mas devo acrescentar… Não é minha especialidade, mas vamos lá…

    Primeiramente, tragédia não se mede… Qualquer tentantiva de medir o quanto uma família (ou várias) foi prejudicada pela perda de um ou outro membro é um exercício de cinismo!

    Aprendi desde cedo que não se medem atrocidades e concordo com isso… Mas alguns juizos de valor precisam ser estabelecidos…

    Uma coisa é estar em uma guerra e brigar com alguém que está querendo te matar… Outra absolutamente diferente é querer matar alguém por sua orientação filosófica. Orientação filosófica é motivo para discussão (acalourada se for o caso), mas dificilmente é justificativa para torturas, sequestro e mortes!

    Cem, cinquenta ou qualquer morte justificada pela orientação filosófica é motivo de vergonha! Ainda mais em um país que se vangloria por ser pacífico! O fato de o Chile ou a Argentina terem sido menos civilizados (ainda) que o Brasil é de uma baixeza que nem vale a discussão…

    E dai se a maioria da população queria que o Brasil fosse a favor do comunismo (nem estou discutindo se era o caso ou não)? A discussão política é para isso… Os políticos convencem o povo a mudar de orientação. Mas não matam aqueles que discordam!!! Justificar de qualquer maneira a morte de pessoas por causa de sua orientação filosófica é desonestidade e cinismo!

    Por fim, pessoalmente sou contra o comunismo, pq tenho sido feliz sob o capitalismo… Não sei se isso é um bom motivo e estou disposto a discutir… Entretanto, não acho justo que alguém resolva me matar por causa disso.

    Abraço

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