Arquivo mensais:abril 2011

Delfim e a matemática na economia

Do Valor

O pensamento mágico

Antonio Delfim Netto
19/04/2011

Tenho recebido algumas observações de economistas que respeito. Advertem-me que na minha vida profissional ativa sempre utilizei a matemática e que agora, na inatividade acadêmica, passei a “demonizá-la”. Nada mais longe da verdade. Tenho procurado chamar a atenção para o uso abusivo dessa joia do pensamento humano. Como é belo, esteticamente, um teorema bem demonstrado! O que condeno, e me incomoda, é a economia bastarda que se esconde na matemática para passar a ideia de que é “científica”. O que abomino é assistir à falta de cerimônia com que alguns economistas extraem conclusões de seus elegantes e irrelevantes modelos e as transformam em “recomendações” normativas (supostamente científicas!) para o exercício da política econômica no mundo real.

Um exemplo evidente dessa tendência é a discussão de políticas econômicas realizadas a partir da “contabilidade” do crescimento. Como é evidente, o “produto potencial” é uma variável não observável. Conhecemos inúmeros métodos diferentes de estimá-lo que produzem resultados distintos, o que não é desprezível para o custo social das políticas econômicas. Todos, não importa o grau de sofisticação (se com estatística baynesiana, filtros de toda natureza…), são apenas projeções do passado, isto é, das circunstâncias que o constituíram, dos estímulos a que foram submetidos os agentes econômicos e das contingências políticas que dominam a economia.

Economia ‘bastarda’ usa matemática para se dizer científica

O método mais pedestre e mais utilizado é o da “contabilidade” do crescimento. Neste, como é óbvio, o produto “potencial” é o limite superior de uma suposta função de produção, que tem como argumentos os fatores de produção: o trabalho (horas trabalhadas, nível de educação e de saúde do trabalhador) que pode ser estimado razoavelmente e o capital (a disponibilidade de recursos naturais, de todo o estoque do trabalho passado congelado na infraestrutura, nos equipamentos de toda sorte). Este, a rigor, é imensurável, a não ser pela somação de seus valores. Para transformar esse valor num dado físico (porque é isso que a função de produção exige) há problemas tão complexos que os economistas, sabiamente, decidiram ignorar em lugar de resolver…

As funções de produção fazem mais sentido quando referidas a uma unidade concreta de produção, onde as formas de medida são mais tratáveis. Entretanto, a agregação dessas funções para construir a função que representaria o produto potencial exige condições tão restritivas (do ponto de vista matemático) que as tornam virtualmente inexistentes, como todos sabemos desde os anos 70 do século passado. Mas por que as funções agregadas parecem fazer sentido quando estimadas estatisticamente? Pela simples e boa razão, também conhecida por todos (e sempre convenientemente ignorada), que elas são apenas manipulação da identidade: o Produto Interno Bruto (PIB), que é o valor adicionado de toda produção é, necessariamente, igual à soma dos salários mais os lucros.

Essa identidade, manipulada algebricamente, é submetida a uma operação de derivação, às quais se adicionam duas hipóteses: que a participação dos fatores é relativamente constante, e que os salários e os lucros crescem a taxas constantes. Posteriormente submetida a uma operação de integração, produz a mais famosa de todas as funções de produção agregada, chamada Cobb-Douglas. O leitor não precisa se preocupar com essa prestidigitação. Trata-se de diversão matemática do pensamento mágico exercitado por “cientistas”. Basta saber que toda função agregada de produção (da qual se extrai o conceito de produto potencial) é uma transfiguração daquela identidade. Como toda identidade, ela apenas é. Não tem qualquer poder explicativo!

Ainda agora, prestigiados economistas, preocupados com o “crescimento asiático” da economia brasileira (6,1% em 2007, 5,2% em 2008, e 7,5% em 2010) utilizaram a contabilidade do crescimento produzida por uma função Cobb-Douglas convenientemente “calibrada” pelas hipóteses: 1) que a participação dos rendimentos do trabalho no PIB é de 60% e do capital de 40%; 2) que a produtividade total dos fatores é da ordem de 1,5%; 3) que a oferta de trabalho (não as horas trabalhadas) é de 1,8%; e 4) que a taxa de investimento de 19% e uma taxa de depreciação de 25 anos produz uma taxa de expansão do capital de 4% ao ano, para chegar à “científica” conclusão que o “produto potencial do Brasil hoje é de 4,3% ao ano”. Se não tivessem esquecido no “crescimento asiático” o ano de 2009, em que o produto decresceu 0,6% verificariam que nos últimos quatro anos o Brasil cresceu em média 4,6%. Esqueceram, também, a possibilidade de usar-se incentivos para estimular o uso mais intensivo dos estoques de capital humano e físico, o que influi, também, na produtividade geral dos fatores. Mas tudo isso é irrelevante. Uma identidade transfigurada ainda é apenas uma identidade, não explica nada.

Continuamos a computar nas “nuvens” e a mostrar do que é capaz o pensamento mágico!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

 

Para ser parceiro estratégico da China, Brasil precisa ter projeto

Publicada na edição do final de semana do Monitor Mercantil

 

THEOTONIO DOS SANTOS/ CIENTISTA POLÍTICO

A China, na década de 90, declarou o Brasil como parceiro estratégico. Na época, o Brasil era até mais desenvolvido que o novo aliado. No entanto, o cientista social Theotonio dos Santos, professor emérito da Universidade Federal Fluminense (UFF), com seis livros traduzidos para o mandarim (idioma oficial chinês), observa que, em praticamente duas décadas, o gigante asiático deu um imenso salto qualitativo, enquanto o Brasil, fiel seguidor do receituário dos organismos multilaterais, ficou para trás.

“Enquanto a China, em cinco anos, será o grande centro de publicação de pesquisa científica, superando os Estados Unidos, o Brasil ficou atrasado. Mas, se fizer o esforço de entrar na disputa por uma economia forte, em nível mundial, com distribuição de renda interna capaz de alavancar o desenvolvimento, possivelmente, os níveis dos acordos com a China poderão ser muito mais interessantes para o Brasil”, afirma, nesta entrevista exclusiva ao MONITOR MERCANTIL.

 

Que balanço podemos fazer desses 17 anos de parceria estratégica com a China?

Em 1994, foi feito o acordo aeroespacial com os chineses. Mas o Brasil não acompanhou o desenvolvimento da China nesse período. Houve uma série de incompreensões, acusações de trabalho escravo, que não existe naquele país. Pelo contrário: no Brasil é que temos.

Durante esse período, os chineses mantiveram média de crescimento de 10% ao ano e nós ficamos mais perto de zero do que de 10%. Ano passado, o PIB se expandiu em mais de 7%, mas sobre uma base zero.

A China deixou de ser apenas grande exportadora para se tornar a mais poderosa liquidez do mundo. Suas reservas ultrapassaram os U$ 3 trilhões, sendo que US$ 970 bilhões estão em títulos da dívida norte-americana, o que faz do país o maior proprietário desses papéis no mundo. E ainda sobram quase US$ 2 trilhões para montar alguns fundos soberanos, como o último que fizeram para a América Latina, de US$ 300 bilhões. Uma parte grande desses recursos vai para a África e outra para comprar empresas e fazer investimentos no Primeiro Mundo.

 

Mas o Brasil está entre os cinco proprietários da dívida pública dos EUA. Isso não o faz um parceiro forte?

O Brasil prefere usar seus recursos no pior investimento hoje, que são os títulos norte- americanos. Eles pagam taxa de juros zero, sobre uma moeda que permanente baixa. Mas para nosso Banco Central (BC), significa investimento AAA (risos). O país poderia investir no Banco do Sul, mas o Parlamento brasileiro nem sequer aprovou o capital de US 2 milhões exigido para os sócios. A diferença é brutal em termos de estratégia de desenvolvimento.

 

Em que setores se vê as maiores diferenças?

A China, desde 1994, na medida em que expande sua presença mundial, aumenta a produção interna e a renda nacional, se converteu na maior expansão de demanda do mundo. Mudou também o padrão tecnológico. Não saiu da baixa para a alta intensidade tecnológica, como pretende o Brasil, mas para a produção de altíssima tecnologia, a ponto de competir com os países de ponta.

Xangai é o primeiro lugar em educação científica. Os papers chineses já se aproximam dos norte-americanos. Em cinco anos, a China será o grande centro mundial de publicação de pesquisa científica. Se os chineses ficarem por conta de nossa capacidade de avançar, a parceria deve estar sendo avaliada como extremamente negativa. O Brasil ficou atrasado. Mas se fizer esforço para entrar na disputa por uma economia forte, em nível mundial, com distribuição de renda interna capaz de gerar uma economia realmente poderosa, possivelmente, os níveis dos eventuais acordos poderão ser muito mais interessantes para o Brasil.

 

E como vai ser a cooperação? Há quem diga que os chineses agem como neo- imperialistas.

O que o Brasil quiser a China faz. Eles não querem que o Brasil seja mero exportador de commodities. É verdade que são um importador de produtos primários, o que é outra coisa. Mas não têm condições de ser uma potência imperialista sobre o Brasil hoje, como foram os EUA. Todavia, se o Brasil continuar parado e a China mantiver essa dinâmica colossal, ficaremos fragilizados. Em vez de ficar falando de trabalho escravo, o Brasil deve avançar e compreender que a dinâmica chinesa vai na direção de novas etapas científico-tecnológicas, segmento em que o Brasil tem dificuldade.

 

Interessa aos chineses que a indústria brasileira seja mais competitiva?

Não creio que os chineses estejam preocupados com a competitividade do Brasil. Se melhorar um pouco não vai incomodar, pois ainda não estaremos disputando a ponta. Um acordo como esse firmado na visita da presidente Dilma (produção de equipamentos eletrônicos) é do interesse dos chineses. Estão embutidos acordos de exportação. Além disso, é importante desenvolver a região para que os EUA não tenham apenas vizinhos facilmente domináveis. Mas daí a dizer que a China age como um império é um exagero.

 

Por quê?

Historicamente, a China foi um império até o século XVIII e sua tendência é se reconverter em centro da economia mundial. Mas, no plano intelectual, brasileiros sequer estão interessados na China, a não ser para fazer uma exportaçãozinha. Com este enfoque, continuaremos crescendo entre 3% e 5%, acreditando nos metafísicos que dizem que não podemos crescer mais de 5%. Não há fundamento nenhum para essa tese. Precisamos de uma mudança de enfoque muito séria. Espero que a presidente conheça a China e mude.

 

O que existe na China capaz de mudar a cabeça da presidente Dilma Rousseff?

Organizei uma viagem do ex-governador fluminense Anthony Garotinho à China e ele não acreditava no que via. O país lembra o Brasil da década de 50, que era um país com enorme capacidade de geração de fatos econômicos, acadêmicos e artísticos impressionantes. A China produz mil filmes por ano. Quantos desses são assistidos no Brasil? A relação com a China não é uma questão de fofoca, mas deve ser parte de uma estratégia de afirmação mundial, que passa por uma cooperação forte, que incorpore aspectos da estratégia chinesa. A China fez recentemente um projeto estratégico para a América Latina, mas aqui nenhuma discussão foi feita, nem para essa viagem da presidente.

 

Muitos creditam importância maior nessa viagem à reunião com os Brics. Existem muitos pontos de convergência no grupo?

Os Brics são um fenômeno já concreto de expansão da economia mundial Não temos que concordar sempre, mas os interesses comuns são muito grandes diante da estruturação mundial em torno de uma nova ordem plural, para impedir o mundo unipolar. Isso é interesse de todos os países do Terceiro Mundo e será, cada vez mais, interesse da Europa.

 

Mas a Europa tem tido postura extremamente pró-EUA…

Esta postura é suicida. A Europa terá de entender que precisa voltar ao mundo euro-asiático, ligando-se aos centros dinâmicos da economia mundial neste momento. Essa é a tendência no mundo inteiro e os europeus terão de seguir, apesar da classe dominante formada nos últimos 20 anos, de submissão a um projeto norte-americano que já não tem mais substância. Durante a Guerra Fria, havia certo sentido, mas quem acabou com a União Soviética foi ela própria, que se auto-dissolveu. Também não foram os EUA que derrubaram o Muro de Berlim, mas o Partido Comunista alemão.

Rogério Lessa

 


 

Diálogos Desenvolvimentistas No 32: o caso das teles

Leandro Aguiar

Nos anos 90, o Brasil voltou a eleger um presidente pela via democrática. O povo, a mídia e o congresso, apesar da controvérsia da ocasião, demonstraram força republicana derrubando esse mesmo presidente. A seleção brasileira conquistou o tetracampeonato, 24 anos depois da última conquista mundial. A Petrobrás foi transformada numa empresa global, a Vale deixou de ser exclusivamente Do Rio Doce, tornando-se a maior mineradora do mundo, e a inflação, O Grande problema dos últimos anos da década anterior, foi contida pelas amarras do Plano Real. Posto dessa maneira (nada analítica), a década de 90 soa como uma grande década para o Brasil, mas a verdade é que se por um lado o país evoluiu, por outro ele perdeu oportunidades históricas de evoluir ainda mais.

O caso da telefonia móvel é um dos exemplos mais bem acabados dessa não evolução, para não dizer atraso. Sempre que algum partidário do pensamento neoliberal pretende defender as privatizações realizadas por FHC, cita o “estupendo sucesso (…) das teles”, nas palavras do próprio ex-presidente tucano. De fato, graças à abertura ao capital externo, a telefonia móvel se desenvolveu de forma robusta no Brasil, se analisada quantitativamente. Milhões de celulares são vendidos a cada ano, número que aumenta progressivamente. No entanto, nesse ponto o Brasil não é muito mais que um consumidor, e esses milhões de celulares em muito pouco contribuem para o desenvolvimento da indústria nacional, já que os aparelhos são, no máximo, montados pelas indústrias daqui.

Quando comparado ao modelo chinês, fica óbvia a oportunidade que o governo brasileiro deixou escapar. Lá, como aqui, o Estado buscou atrair as grandes empresas de telecomunicação, mas com a ressalva de que os chineses teriam acesso à tecnologia de produção, e de que as patentes seriam compartilhadas com o governo. Hoje, graças a essa política industrial, a China tem a segunda maior empresa de telecomunicações do mundo, a Huawei, que fica atrás somente da SonyEricson.

O Desenvolvimentistas discutiu o caso das teles, e hipóteses foram levantadas sobre o que ainda pode ser feito para se reverter esse quadro. Acompanhe:

 

“Os chineses criaram a Huawei do nada em 10 anos. Poderíamos criar uma grande empresa com 20% do tamanho da Huawei, mas que  dominasse o mercado brasileiro em quatro anos, se partíssemos do grupo GENTE.

O Consorcio das empresas nacionais de tecnologia chama-se GENTE, Grupo de Empresas Nacionais de Tecnologia. A PADTEC e o CPQD são uns dos associados, mas não receberam nem um centavo de apoio do governo, nada, e juntas elas tem tecnologias quase completas para quase todos os setores da área de telecomunicações.”

Gustavo Santos, economista

“Aquela década de 1990 foi realmente a década negra do Brasil, o apagão do desenvolvimento. E FHC e sua equipe fizeram tudo meio que às escondidas, rápido para que ninguém pudesse analisar e se mobilizar, quase um fato consumado no momento em que o público tinha conhecimento. Tudo que fizeram é característico de traição à Pátria. Esta área de telecomunicações é uma em que nós tínhamos grande chance de avançar com nossas próprias pernas. Mas é preciso olhar para frente, e ver se é possível recuperar algo do que foi perdido de forma tão cruel.”

Ceci Juruá, economista

“Realmente tivemos (na verdade ainda temos) todas as condições para também ter pelo menos uma marca nacional. Todos os países que o conseguiram, utilizaram suas demandas/mercados internos (somos o 5º maior mercado de celulares) para alavancar um desenvolvimento autóctone, através de forte apoio do Estado, isto não é segredo. Imagine, o PIG certamente tentaria um novo 64 caso houvesse uma decisão política do governo federal, nesta direção. Afinal, com o pungente mercado brasileiro, temos aqui o paraíso das transnacionais e seus importados.

O que mais desespera é não saber com ajudar a viabilizar a mudança de atitude dos nossos centros de decisão.”

Carlos Ferreira

 

Cuidado com os falcões do mercado

da CartaCapital

Delfim Netto

As dúvidas se dissiparam. Não há, praticamente, divergências sérias sobre as causas da crise de 2008-2009 que abalou as finanças mundiais e produziu a tragédia do desemprego para o número espantoso (calculado por baixo) de 30 milhões de honestos trabalhadores.

A crise aconteceu sob as vistas dos grandes bancos centrais que admitiram o uso de “derivativos” sobre os quais tinham muito pouco entendimento. É certo que algumas inovações financeiras ajudaram a acelerar o crescimento mundial. Economistas respeitados passaram a acreditar que tinham modelos matemáticos apoiados numa fórmula de distribuição dos riscos. Isso já existia em estudos desde o início do século XX. Eles foram evoluindo até se difundir a crença de que existia uma forma de controlar o risco, o que destruiu a concepção sob a qual a distribuição era calculada.

Hoje, tanto economistas como os bancos centrais admitem que “não entendiam como as coisas estavam acontecendo”. Um fato interessante é a reedição recente do famoso Relatório Pécora que examinou as causas da crise de 1929. Pécora foi o procurador de Justiça chamado pelo Congresso americano para “salvar” a comissão parlamentar, cujos trabalhos estavam terminando sem esclarecer grande coisa sobre as causas reais do cataclismo financeiro que derrubou a Bolsa de Nova York e produzia um rastro de destruição em toda a economia mundial.

O procurador deixou “de cuecas” os grandes banqueiros que sustentaram a especulação e levou o maior deles, JP Morgan, a confessar que tinha clientes “privilegiados” com os quais o banco fazia operações “especiais”. A história se repete. As causas da atual crise são muito semelhantes às de 1929 que desaguou na “Grande Depressão” do século passado. Quando se assiste às perturbações sociais, ao drama que estão vivendo as sociedades europeias é correto concluir que elas estão pagando o preço da salvação de seus sistemas financeiros, por parte de governos cúmplices que permitiram a “desregulação”.

A economia de mercado não vai sobreviver se insistir em aceitar as desigualdades crescentes que estão desestruturando sociedades que alcançaram bons níveis de bem-estar e se acostumaram com certa estabilidade financeira. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, uma sociedade relativamente igualitária, mas onde os índices de desigualdade vêm crescendo dramaticamente. Num outro extremo, a economia chinesa desenvolve-se com grande rapidez. Em menos de 30 anos, saiu da penumbra de um regime socialista para se tornar a segunda potência global, mas a desigualdade triplicou.

A China está aprendendo a conviver com esses problemas de flutuação, que são íncitos ao desenvolvimento capitalista. As crises talvez possam ser evitadas, mas raramente são previsíveis. Uma das conclusões interessantes da recente conferência patrocinada pelo FMI envolve a confissão de seus economistas: “Nós nunca vamos saber (pelo menos não sabemos até agora) se algum dia vamos ter instrumentos para impedir as crises produzidas pelo homem, pois elas têm origem em sua própria psicologia. Ele tem fases de grande entusiasmo quando aumenta a vontade de correr riscos e vai até o momento em que algum fato o perturba e o faz perder o entusiasmo”.

Não tem solução. O sistema financeiro precisa de controles, porque está sempre tentado “a voltar ao local do crime”. O papel dos governos é não ignorar essa verdade. Na luta interna entre o “mercado” e o Estado, a conclusão é que o “Estado indutor” é peça fundamental no funcionamento do regime democrático republicano, sob controle constitucional. O Brasil tem sido um bom exemplo – e isso foi mostrado no auge da crise em 2008 – de como o Estado indutor funcionou, permitindo ao governo privilegiar o setor produtivo da economia com medidas de suporte às suas atividades vitais, garantindo o emprego industrial e a sustentação dos níveis de consumo da população, enquanto grande parte da economia mundial derretia-se ao concentrar esforços no socorro aos bancos.

Estamos outra vez em meio ao embate em que o “mercado”, pela voz de seus “falcões”, exige novas altas dos juros, para que a inflação termine 2011 no centro da meta (4,5%). Por que motivo o Brasil deve restringir-se apenas à elevação da taxa de juros (que já é a segunda maior do mundo!), derrubando o crescimento e cortando o emprego de nossos patrícios, apenas para satisfazer a ambição dos tais “falcões” do mercado financeiro? Por que não dar um voto de confiança à política monetária mais sofisticada posta em prática pelo novo Banco Central?

 

Bem do Século

do Pátria Latina

“A água é o recurso que mais preocupa o mundo e alimenta os interesses que levaram a OEA a solicitar a paralisação de Belo Monte”. Delfim Neto

Delfim Neto em Carta Capital, 13/4/2011

O que está por tras de Belo Monte? - “Brasil, potência hídrica do século 21″ é o título bastante sugestivo da matéria de capa de recente edição especial da National Geographic em português, que traz considerações interessantes sobre o aproveitamento do que certamente será a riqueza mais disputada nos próximos mil anos em nosso planeta.

Desde algum tempo tenho procurado mostrar que a água (mais que o ouro, minérios ou petróleo) é o que preocupa e motiva o enorme esforço de marketing promovido por ONGs de várias partes do mundo com o objetivo de provar que os brasileiros são incapazes de:

1 – Proteger o meio-ambiente, especialmente na região Amazônica.

2 – Respeitar as populações indígenas, idem.

3 – Realizar o desenvolvimento “sustentado”, alguma coisa com diferentes significados no Brasil, na China e nos EUA. São meros pretextos. Apesar de gastos, funcionam…

A conclusão, óbvia, é que a Amazônia precisa ser internacionalizada para evitar que utilizemos os recursos de água daquela bacia hidrográfica para produzir energia e proporcionar o desenvolvimento daquela região em nosso benefício exclusivo. Então para começar, é urgente impedir a construção das hidrelétricas, enviando seguidas delegações de notáveis que se prestem a fazer o ridículo papel de defensores de etnias das quais mal conhecem a designação correta e certamente desconhecem a localização das aldeias (alguns acreditam que se trata de remanescentes de tribos astecas…).

Esta semana tivemos a demonstração de como a pregação, mesmo infantil, pode influenciar burocratas mal informados de organismos internacionais: uma obscura e inoperante comissão de direitos humanos da OEA aliou-se à tese de tantas outras obscuras ONGs, pedindo a suspensão (!) da construção da Usina de Belo Monte, no rio Xingu.

O referido pedido, baseado numa denúncia feita em 2010 por “diversas” ONGs (não identificadas), não produz nenhuma consequência prática imediata, mas ficou a ameaça de que “poderá vir a ser submetido a exame na Corte Interamericana de Direitos Humanos, também da OEA, caso não sejam aceitas as explicações do governo brasileiro sobre o resultado de consultas submetidas às populações indígenas”. A reação oficial foi imediata: o Itamaraty classificou como “precipitadas e injustificáveis” as solicitações da OEA; o senador Flexa Ribeiro, presidente da subcomissão que acompanhará o andamento das obras no Pará, qualificou de “absurdo” o pedido “que até fere a soberania nacional” e o diretor da Agência Nacional de Energia – Nelson Hubner – foi direto: “A OEA conhece muito pouco do processo de licenciamento para dar parecer sobre a obra”.

O que as ONGs (de longa data), agora apoiada pela sub-burocracia da OEA, pretendem bloquear, em realidade, não é a obra em si, mas a condição brasileira de produzir mais energia limpa para prosseguir no seu projeto de desenvolvimento sustentável, inclusive na região Amazônica. Significa demonstrar a capacidade nacional de conservar, administrar e utilizar as riquezas de um território que detém 11% de toda a água doce do globo, onde correm 12 mil rios que respondem por 16% de toda a água enviada ao mar pelos rios do planeta.

Muitos brasileiros só em anos recentes tomaram conhecimento que, além do aquífero Alter do Chão, que contém as águas do subsolo amazônico, o aqüífero Guarani, no subsolo das regiões Centro-Sul-Sudeste do Brasil e partes do Paraguai, Uruguai e Argentina, guarda volume superiror ao seu congênere do Note. Segundo os cálculos apresentadosna edição especial da National Geographic, juntamente com um mapeamento bastante preciso, “não há fartura semelhante em outros cantos do globo: considerando essa abundância, teoricamente cada brasileiro teria à sua disposição, 34 milhões de litros de água por ano, uma quantidade fabulosa, 17 vezes maior do que a ONU considera média confortável de consumo”.

Com todo o progresso civilizatório que se produziu no mundo, digamos, nesse meio século mais recente, a maioria das nações refreou a cobiça em relação aos bens alheios (com notórias exceções provocadas pela exacerbação terrorista). Só não podemos ignorar que a fartura de água, que nos favorece, está destribuída de forma extremamente desigual entre as regiões e os povos. A carência nem sempre tem simetria com o estágio de desenvolvimento de cada país, inclusive das potências econômicas (as petroleiras, por exemplo). São nações com poder de influência suficiente para arrancar resoluções de organismos internacionais capazes de validar argumentos (não importa quão cínicos sejam) que permitam intervir onde exijam seus interesses vitais.

Não tenhamos dúvida de que a água figura no alto da agenda dos interesses vitais com potencial de produzir grandes atritos neste século.

 

O desprezo pelos pobres

do Jornal do Brasil

por Mauro Santayana


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos brasileiros mais bem sucedidos de sua geração. A natureza e o lar concederam-lhe inteligência que boas escolas e um grande mestre da sociologia, Florestan Fernandes, aprimoraram. Filho de  honrado chefe militar, que a memória nacional respeita, Fernando viveu uma juventude favorecida. Mas parece não ter aprendido muito com o pai que, tendo acompanhado de perto a ascensão do nazismo, optara pelo lado esquerdo da estrada. Muito cedo, a sua elegância verbal conquistava os interlocutores. Jânio Quadros de tal maneira ficou fascinado pelo jovem sociólogo que incumbiu José Aparecido de  convida-lo para o Conselho Nacional de Economia, então o mais importante órgão consultivo do governo. Anos depois, com sua língua afiada, Aparecido explicava por que Fernando Henrique declinara do convite: “era muito pouco para ele”.


É provável que, com sua astúcia,  tenha pressentido a brevidade do histriônico arrivista, e, precavido, preservado o  futuro. Em uma coisa, todos os que convivem mais de perto com o ex-presidente, concordam: sua postura, onde quer que esteja, é a de um chefe. Ele não conversa: expõe; não pergunta: adianta sua posição sobre o tema em pauta. É, sempre, o professor e o líder. É difícil imagina-lo apenas aluno. Não nasceu para aprender, mas, sim, para ensinar.


Lembro-me da confidência que me fez, certa vez, o grande  Josafá Marinho: Fernando só aparecia no plenário do Senado por alguns minutos, para justificar a presença. Não tinha paciência para ouvir seus pares. Na realidade só ouvia um único orador, com atenção: ele mesmo. Não obstante, quando estava inscrito, mandava avisar a todos os senadores, para que o fossem ouvir.


A sorte o levara ao Senado, como suplente de Franco Montoro – que, ao eleger-se governador, deixou vaga a cadeira. A mesma sorte o ungiu, quando o presidente Itamar Franco, ao descuidar-se da velha cautela montanhesa, escolheu-o como sucessor. Na presidência, confirmou a sua personalidade. Várias vezes demonstrou  desapego ao povo brasileiro. Transferiu para as massas o  próprio sentimento, ao qualificar o brasileiro comum como fascinado pelo estrangeiro e, surpreendeu a intelligentsia nacional, ao citar Weber e estabelecer uma ética particular para os governantes. Fomos, para ele, um povo de capiaus, o que levou Jô Soares a apresentar-se em seu talk-show, no dia seguinte, de chapéu de palha. Mesmo  aposentado compulsoriamente antes dos 40, classificou como vagabundos os aposentados por tempo de serviço.


Suas atividades não são as de um ex-presidente. Ele quer liderar a oposição. É assim que já emitiu várias encíclicas, como a última, em que aconselha a esquecer o povão e investir na classe média. Como se os setores conscientes da classe média, que influem, pudessem se esquecer do desemprego, das privatizações, e da humilhação diante do FMI. Os pobres, ele pontifica, já foram “comprados” pela política assistencialista do governo, e serão fiéis à sucessora de Lula, por isso não merecem atenção, nem cuidados.


Falta-lhe a capacidade de ver o Brasil como um todo, o que é comum a muitos políticos de São Paulo. O Brasil que eles conhecem não vai além da periferia da grande cidade, que, a contragosto, visitam em vésperas eleitorais.


Ninguém deve estranhar a posição do ex-presidente. Ele mantém a sua coerência. A oposição, de resto moderada, que fez ao regime militar, era a de um homem cheio de talentos, que o golpe enviara para o exílio. Para ele, as circunstâncias especiais que o conduziram à Chefia do Estado eram naturais: naquele momento, e em seu próprio juízo, Itamar não poderia encontrar outro. Ele era o príncipe. Não devia ao mineiro a indicação. Devia-a ao seu auto-avaliado saber, que ele quer usar hoje para, sem mandato, liderar a oposição. Resta saber se se curvarão diante de sua grandeza.

 

Vozes do governo desafinam na economia

Observatório da Imprensa

Rolf Kuntz

Uma boa intriga no governo pode valer manchete, mas a Folha de S. Paulo preferiu um título de apenas uma coluna no alto da primeira página: “Presidente do BNDES exorta industriais a criticar câmbio”. Segundo a reportagem, o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, Luciano Coutinho, criticou, em reunião fechada com empresários, a política do Ministério da Fazenda e do Banco Central (BC). O governo, teria dito o economista, desistiu de manter o dólar no patamar de R$ 1,65 e aceitou novas quedas porque isso ajudaria a conter a inflação. A indústria, teria ele acrescentado, está sendo destruída por essa política e os industriais deveriam mobilizar-se para combater essa orientação. A matéria foi publicada em 9/4, sábado.

As informações foram atribuídas a participantes de um encontro, em São Paulo, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Procurado pela Folha, Coutinho, por meio de sua assessoria, negou ter criticado a política oficial. Pouco depois da reunião, o presidente da CNI, Robson Andrade, cobrou das autoridades, em nota distribuída a todos os jornais, “medidas duras e radicais” para conter o dólar. Sem isso, acrescentou, o Brasil estará arriscado a ter uma economia formada só por bancos.

Se a informação encampada pela Folha for verdadeira, a ação de Coutinho terá demonstrado uma grave fratura no governo federal. Presidentes do BNDES não podem aconselhar empresários a mobilizar-se contra a política do Ministério da Fazenda e do BC, ou, de fato, contra qualquer outra política de governo. Numa empresa isso resulta em demissão. Em governos organizados, esse é também o resultado normal. Alguns governantes toleram, e às vezes até estimulam, conflitos internos, mas divergências públicas dificilmente são toleradas e muito menos uma convocação aos empresários, ou a qualquer outro grupo, para pressionar contra políticas oficiais.

Fissuras vão aparecendo

Quando este comentário tiver sido postado, talvez já tenha havido desdobramentos da história em Brasília. A viagem da presidente Dilma Rousseff à China poderá dar tempo, no entanto, para uma acomodação. De toda forma, a imprensa deveria acompanhar a ação da presidente em relação a conflitos em sua equipe. Na mesma semana da reunião de Coutinho com os industriais, houve declarações divergentes sobre os preços dos combustíveis. Segundo o presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, será difícil evitar um aumento do preço da gasolina se a cotação do petróleo continuar nos níveis de agora. “Não está claro, no entanto, se o atual patamar de preço será mantido”, disse Gabrielli na quarta-feira (6/4), depois de um encontro com o governador de São Paulo. Horas depois, no começo da noite, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, entrou no assunto: “Não há alta da gasolina e não está prevista uma alta da gasolina no país.” Dois dias depois, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, entrou em cena, apresentando-se como porta-voz da presidente Dilma Rousseff. “`Ela não quer aumento´, disse o ministro.” Mas a elevação poderá ocorrer, admitiu, se a cotação do petróleo ultrapassar “muito” os níveis atuais, informou o Estado de S. Paulo.

Há uma importante diferença entre as declarações de Gabrielli e as de Lobão. Segundo presidente da Petrobrás, seria difícil evitar o aumento da gasolina se a cotação do petróleo se estabilizasse no patamar atual, já muito alto. De acordo com o ministro, a decisão só será tomada se o preço do barril subir muito mais. Todos os jornais têm coberto as divergências em torno do assunto. Um ponto está claro: também nesse caso faltou combinar as jogadas, em Brasília, e não se sabe quem reflete de fato a orientação do governo. Detalhe interessante: pela primeira vez em muito tempo o BC e o Ministério da Fazenda parecem jogar de forma articulada. Mas, ao mesmo tempo, no resto da administração federal as fissuras vão aparecendo.

Limitar o prazo dos empréstimos

As divergências seriam menos importantes, neste momento, se o governo atravessasse uma calmaria. Mas o caso é muito diferente. Todos os desacordos entre ministros e altos funcionários giram em torno de questões muito graves, como o desajuste cambial crescente, os preços dos combustíveis e seus efeitos na inflação. Para o ministro da Fazenda, abril tem sido (perdoe-se mais esta citação de T.S. Eliot) o mais cruel dos meses. A cada medida cambial anunciada, o dólar volta a cair, como se a grande obsessão do mercado fosse contrariar o ministro.

Ao mesmo tempo, os números desmentem com assustadora rapidez seus comentários sobre a inflação. O melhor resumo da história foi a manchete de sexta-feira (8/4) do Valor: “Inflação resiste, dólar cai e governo tenta conter crédito”. Essa tentativa, já se aposta, dará no máximo resultados medíocres. Eleva de 1,5% para 3% o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), incidente nos empréstimos ao consumidor, e dificilmente limitará o crédito ao consumo. Seria muito mais eficaz, segundo a maior parte dos comentários, limitar de forma sensível o prazo dos empréstimos. O resultado será conferido nos próximos meses.