Arquivo mensais:abril 2011

Luiz Carlos Bresser Pereira: China, 32 anos depois

Povo nenhum viveu período de progresso tão acelerado; 600 milhões deixaram a pobreza.

do Vermelho.org

Por Luiz Carlos Bresser Pereira*

De volta à China, 32 anos depois da minha primeira e única visita, pude ver em Pequim o incrível progresso que houve aqui.

Nenhum país passou antes por um período de progresso tão acelerado: em média, seu PIB cresceu cerca de 9% ao ano, e cerca de 600 milhões de chineses já saíram da pobreza. Qual o segredo desse “milagre” duradouro?

No plano político, foi a força do nacionalismo em um tempo neoliberal em que todo nacionalismo econômico estava “condenado”; no plano econômico, foi a abertura da conta comercial enquanto se mantinha fechada a conta financeira, foi a liberação do fluxo de mercadorias, mas mantendo o fluxo de capitais sob severo controle.

Na China, não existe complexo de inferioridade colonial. Os intelectuais chineses que encontro em seminários internacionais sempre me impressionam porque, ao invés de olhar os EUA como nós, latino-americanos, de maneira agressiva ou então subordinada, os olham amavelmente, mas como iguais.

Não passa pela cabeça dos chineses “reconhecer” a superioridade intelectual do “Ocidente”, e, a partir daí, aceitar suas recomendações de política econômica -recomendações que nós aceitamos, e que estão transformando o Brasil em uma grande fazenda.

A China foi, no passado, um grande império; depois que a Europa se industrializou, sofreu 100 anos de decadência econômica sob o jugo do Ocidente, porém, desde 1949, desenvolveu-se de maneira independente: primeiro, como sempre acontece nos países retardatários, com base no Estado, e, a partir de 1980, com base no mercado.

O segundo segredo da China é ter aberto a conta de mercadorias, enquanto rejeitava a abertura financeira.

O velho desenvolvimentismo defendia a proteção alfandegária que é útil na fase inicial do desenvolvimento, mas, como a China cedo compreendeu, o que interessa é competir com os países ricos na exportação de bens industriais, aproveitando-se de sua mão de obra mais barata.

Mas os chineses não querem saber de abertura financeira. Embora não esteja claro para eles que, nos países em desenvolvimento, há uma tendência cíclica à sobreapreciação da taxa de câmbio, sabem que mantê-la competitiva é essencial. Porque, para aumentar a taxa de investimento e de poupança interna, é fundamental que existam boas oportunidades de investimentos lucrativos para as empresas -e, para isso, a principal condição é uma taxa de câmbio equilibrada.

Para eles a abertura financeira não é uma fatalidade, algo para o qual “não há alternativa”, como é para nós. É claro que é possível controlar as entradas de capital e manter a taxa de câmbio competitiva.

Eu sabia da força da nação chinesa, mas, desta vez, foi fascinante ver os milhares de chineses que todos dias enchem a praça Tiananmen para ver o corpo embalsamado do líder de sua revolução nacional, Mao Tse-Tung. Há 32 anos, não era assim; eles não tinham dinheiro para fazer esse turismo cívico que, para nós, é estranho.

Não há, porém, nada de estranho na capacidade da China de competir com o resto do mundo. Terá o Brasil capacidade de reagir e também competir? Ou vamos nos conformar em ser um país agropecuário moderno que cresce, mas com instabilidade e a taxas muito menores do que as chinesas?

*Economista, foi ministro de Estado nos governos Sarney e FHC

 

 


A trincheira de Jean Wyllys

da CartaCapital

Leandro Fortes


Jean Wyllys de Matos Santos é um sujeito tranquilo, bem humorado, que defende idéias sem alterar a voz, as mais complexas, as mais simples, baiano, enfim. Ri, como todos os baianos, da pecha da preguiça, como assim nomeiam os sulistas um sentimento que lhes é desconhecido: a ausência de angústia. Homossexual assumido, Jean cerra fileiras no pequeno e combativo PSOL, a única trincheira radical efetivamente ativa na política brasileira. E é justamente no Congresso Nacional que o deputado Jean Wyllys, eleito pelos cidadãos fluminenses, tem se movimentado numa briga dura de direitos civis, a luta contra a homofobia.

Cerca de 200 homossexuais são assassinados no Brasil, anualmente, exclusivamente por serem gays. Entre eles, muitos adolescentes.

Mas o Brasil tem pavor de discutir esse assunto, inclusive no Congresso, onde o discurso machista une sindicalistas a ruralistas, em maior ou menor grau, mas, sobretudo, tem como aliado as bancadas religiosas, unidas em uma cruzada evangélica. Os neopentecostais, como se sabe, acreditam na cura da homossexualidade, uma espécie de praga do demônio capaz de ser extirpada como a um tumor maligno. O mais incrível, no entanto, não é o medievalismo dessa posição, mas o fato de ela conseguir interditar no Parlamento não só a discussão sobre a criminalização da homofobia, mas também o direito ao aborto e a legalização das drogas. Em nome de uma religiosidade tacanha, condenam à morte milhares de brasileiros pobres e, de quebra, mobilizam em torno de si e de suas lideranças o que há de mais lamentável no esgoto da política nacional.

Jean Wyllys se nega a ser refém dessa gente e, por isso mesmo, é odiado por ela. Contra ele, costumam lembrar-lhe a participação no Big Brother Brasil, o inefável programa de massa da TV Globo, onde a debilidade humana, sobretudo a de caráter intelectual, é vendida como entretenimento. Jean venceu uma das edições do BBB, onde foi aceito por ser um homossexual discreto, credenciado, portanto, para plantar a polêmica, mas não de forma a torná-la um escândalo. Dono de um discurso política bem articulado, militante da causa gay e intelectualmente superior a seus pares, não só venceu o programa como ganhou visibilidade nacional. De repórter da Tribuna da Bahia, em Salvador, virou redator do programa Mais Você, de Ana Maria Braga, mas logo percebeu que isso não era, exatamente, uma elevação de status profissional.

Na Câmara dos Deputados, Jean Wyllys, 36 anos, baiano de Alagoinhas, tornou-se a cara da luta contra a homofobia no Brasil, justamente num momento em que se discute até a criminalização do bullying. Como se, nas escolas brasileiras, não fossem os jovens homossexuais o alvo principal das piores e mais violentas “brincadeiras” perpetradas por aprendizes de brucutus alegremente estimulados pelo senso comum. Esses mesmos brucutus que, hoje, ligam para o gabinete do deputado do PSOL para ameaçá-lo de morte.

Abaixo, a íntegra de uma carta escrita por Jean ao Jornal do Brasil, por quem foi acusado, por um colunista do JB Wiki (seja lá o que isso signifique), de “censurar cristãos”. O texto é uma pequena aula de civilidade e História. Vale à pena lê-lo:

Em primeiro lugar, quero lembrar que nós vivemos em um Estado Democrático de Direito e laico. Para quem não sabe o que isso quer dizer, “Estado laico”, esclareço: O Estado, além de separado da Igreja (de qualquer igreja), não tem paixão religiosa, não se pauta nem deve se pautar por dogmas religiosos nem por interpretações fundamentalistas de textos religiosos (quaisquer textos religiosos). Num Estado Laico e Democrático de Direito, a lei maior é a Constituição Federal (e não a Bíblia, ou o Corão, ou a Torá).

Logo, eu, como representante eleito deste Estado Laico e Democrático de Direito, não me pauto pelo que diz A Carta de Paulo aos Romanos, mas sim pela Carta Magna, ou seja, pelo que está na Constituição Federal.  E esta deixa claro, já no Artigo 1º, que um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a dignidade da pessoa humana e em seu artigo 3º coloca como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A república Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos princípios da prevalência dos Direitos Humanos e repúdio ao terrorismo e ao racismo.

Sendo a defesa da Dignidade Humana um princípio soberano da Constituição Federal e norte de todo ordenamento jurídico Brasileiro, ela deve ser tutelada pelo Estado e servir de limite à liberdade de expressão. Ou seja, o limite da liberdade de expressão de quem quer que seja é a dignidade da pessoa humana do outro. O que fanáticos e fundamentalistas religiosos mais têm feito nos últimos anos é violar a dignidade humana de homossexuais.

Seus discursos de ódio têm servido de pano de fundo para brutais assassinatos de homossexuais, numa proporção assustadora de 200 por ano, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia e da Anistia Internacional. Incitar o ódio contra os homossexuais faz, do incitador, um cúmplice dos brutais assassinatos de gays e lésbicas, como o que ocorreu recentemente em Goiânia, em que a adolescente Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, que, segundo a mídia, foi brutalmente assassinada por parentes de sua namorada pelo fato de ser lésbica. Ou como o que ocorreu no Rio de Janeiro, em que o adolescente Alexandre Ivo, que foi enforcado, torturado e morto aos 14 anos por ser afeminado.

O PLC 122 , apesar de toda campanha para deturpá-lo junto à opinião pública, é um projeto que busca assegurar para os homossexuais os direitos à dignidade humana e à vida. O PLC 122 não atenta contra a liberdade de expressão de quem quer que seja, apenas assegura a dignidade da pessoa humana de homossexuais, o que necessariamente põe limite aos abusos de liberdade de expressão que fanáticos e fundamentalistas vêm praticando em sua cruzada contra LGBTs.

Assim como o  trecho da Carta de Paulo aos Romanos que diz que o “homossexualismo é uma aberração” [sic] são os trechos da Bíblia em apologia à escravidão e à venda de pessoas (Levítico 25:44-46 – “E, quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das gentes que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas…”), e apedrejamento de mulheres adúlteras (Levítico 20:27 – “O homem ou mulher que consultar os mortos ou for feiticeiro, certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles…”) e violência em geral (Deuteronômio 20:13:14 – “E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todo varão que houver nela passarás ao fio da espada, salvo as mulheres, e as crianças, e os animais; e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e comerás o despojo dos teus inimigos, que te deu o SENHOR, teu Deus…”).

A leitura da Bíblia deve ensejar uma religiosidade sadia e tolerante, livre de fundamentalismos. Ou seja, se não pratica a escravidão e o assassinato de adúlteras como recomenda a Bíblia, então não tem por que perseguir e ofender os homossexuais só por que há nela um trecho que os fundamentalistas interpretam como aval para sua homofobia odiosa.

Não declarei guerra aos cristãos. Declarei meu amor à vida dos injustiçados e oprimidos e ao outro. Se essa postura é interpretada como declaração de guerra aos cristãos, eu já não sei mais o que é o cristianismo. O cristianismo no qual fui formado – e do qual minha mãe, irmãos e muitos amigos fazem parte – valoriza a vida humana, prega o respeito aos diferentes e se dedica à proteção dos fracos e oprimidos. “Eu vim para que TODOS tenham vida; que TODOS tenham vida plenamente”, disse Jesus de Nazaré.

Não, eu não persigo cristãos. Essa é a injúria mais odiosa que se pode fazer em relação à minha atuação parlamentar. Mas os fundamentalistas e fanáticos cristãos vêm perseguindo sistematicamente os adeptos da Umbanda e do Candomblé, inclusive com invasões de terreiros e violências físicas contra lalorixás e babalorixás como denunciaram várias matérias de jornais: é o caso do ataque, por quatro integrantes de uma igreja evangélica, a um centro de Umbanda no Catete, no Rio de Janeiro; ou o de Bernadete Souza Ferreira dos Santos, Ialorixá e líder comunitária, que foi alvo de tortura, em Ilhéus, ao ser arrastada pelo cabelo e colocada em cima de um formigueiro por policiais evangélicos que pretendiam “exorcizá-la” do “demônio”.

O que se tem a dizer? Ou será que a liberdade de crença é um direito só dos cristãos?

Talvez não se saiba, mas quem garantiu, na Constituição Federal, o direito à liberdade de crença foi um ateu Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Aforjá, Jorge Amado. Entretanto, fundamentalistas cristãos querem fazer uso dessa liberdade para perseguir religiões minoritárias e ateus.

Repito: eu não declarei guerra aos cristãos. Coloco-me contra o fanatismo e o fundamentalismo religioso – fanatismo que está presente inclusive na carta deixada pelo assassino das 13 crianças em Realengo, no Rio de Janeiro.

Reitero que não vou deixar que inimigos do Estado Democrático de Direito tente destruir minha imagem com injúrias como as que fazem parte da matéria enviada para o Jornal do Brasil. Trata-se de uma ação orquestrada para me impedir de contribuir para uma sociedade justa e solidária. Reitero que  injúria e difamação são crimes previstos no Código Penal. Eu declaro amor à vida, ao bem de todos sem preconceito de cor, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de preconceito. Essa é a minha missão.

Jean Wyllys (Deputado Federal pelo PSOL Rio de Janeiro)

 

Mídia quer sangue: mais juros e cortes!

do PátriaLatina

Por Altamiro Borges

De nada adiantou a presidenta Dilma Rousseff promover dois aumentos simultâneos da taxa de juros, cortar R$ 53 bilhões do Orçamento e ainda peitar as centrais sindicais na negociação do salário mínimo. Ela bem que tentou agradar o “deus-mercado”, mas o capital financeiro é insaciável. Através de seus meios de comunicação, ele exige mais sangue – mais juros e cortes de gastos!

O editorial de hoje (15) da Folha é a prova cabal da gula dos rentistas. Para se contrapor ao que o jornal diagnostica como “piora das expectativas inflacionárias”, que decorrem (pasmem!) do “excesso de consumo e das pressões salariais”, a única saída é “aumentar a taxa de juros em 0,5 ponto percentual na semana que vem”, quando o Banco Central se reúne.

“A prioridade” dos rentistas

Adepta da máxima neoliberal de Margareth Thatcher, de que “não há alternativa”, a Folha é incisiva na defesa dos interesses dos agiotas. Qualquer outra medida, afirma, é ineficaz para combater o fantasma da inflação. Ela inclusive critica o Banco Central por “propagar uma visão muito otimista” sobre o tema, reforçando a enorme gritaria dos últimos dias do capital financeiro.

Em tom terrorista, o editorial da Folha afirma: “A situação é grave, a ponto de outros objetivos já começaram a ser sacrificados… Diante de tais desafios, a melhor saída para o BC é dar um passo firme para demonstrar controle: aumentar a taxa básica de juros em 0,5%”. E conclui: “Essa é a prioridade”. Aplausos entusiásticos dos banqueiros e rentistas, nacionais e estrangeiros!

A ortodoxia militante de Sardenberg

Mas não é só a Folha que tem rabo preso com o capital financeiro. A mídia corporativa, no geral, desempenha o papel de relações públicas dos banqueiros. Carlos Alberto Sardenberg, editorialista do Estadão e comentarista da TV Globo, até parece funcionário de um banco. Há vários dias, ele vem insistindo na necessidade de um novo aumento da taxa Selic e de novos cortes no Orçamento.

Dias atrás, ele criticou o Banco Central por sua “tolerância com a inflação”. Para ele, o “otimismo” do BC “significa acreditar que a inflação vai cair sem a necessidade de uma alta mais forte da taxa básica de juros e sem um corte de gastos mais expressivo do governo. Segurar juros e ter espaço para gastar – eis algo que interessa a qualquer governo, muito especialmente ao de Dilma Rousseff”. Contra o que chama de “eleitoralismo”, Sardenberg prega abertamente a volta das “políticas ortodoxas” de FHC.

Ação combinada dos jornalões

No início do mês, numa ação que parece combinada, Folha, Estadão e Valor publicaram editoriais alertando para o risco do descontrole dos gastos do governo. “Resultados fiscais não tão bons quanto parecem”, esbravejou o Estadão em 1 de abril. O jornal questiona os “tímidos” cortes no Orçamento e a “política de austeridade” do governo Dilma e dispara o sinal de alarme:

“É muito cedo para afirmar que a batalha das contas públicas está ganha. O relatório de inflação mostrou que o Banco Central desistiu de enfrentar com firmeza a alta de preços – que também vai afetar os gastos públicos -, que a pressão sobre os investimentos vai aumentar e que a pressão dos sindicatos operários para reajustes será crescente”, esbraveja o jornalão.

Informação ou serviço bancário?

Toda esta gritaria da mídia rentista tem como único objetivo defender os interesses do capital financeiro. Ela não leva em conta sequer os próprios dados da realidade, mas visa apenas criar pânico na sociedade. Fica a dúvida se estes jornais informam ou prestam serviços, bem remunerados, aos banqueiros e rentistas. Um texto recente do sítio Carta Maior responde:

“O superávit fiscal – referência de saúde do país para os mercados porque sinaliza a disposição do governo de drenar recursos ao pagamento de juros – atingiu em fevereiro o valor recorde de R$ 7,913 bilhões, o maior da série histórica, iniciada em 2001. O superávit acumulado no primeiro bimestre, R$ 25,6 bilhões, equivale a 21,8% da meta fixada para o ano. No mesmo período de 2010, o saldo positivo correspondia a apenas 15,2% da meta anual.

“Ou seja, por aí, não há do quê reclamarem. No front da inflação – outra referência importante do rentismo porque ela desidrata as taxas de juros reais – o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de São Paulo avançou 0,35% em março; é quase a metade do salto de 0,60% em fevereiro, Os ‘consultores’ apostavam num aumento de 0,40%. Erraram, como erraram também a tendência do IPCA- 15, uma medida de inflação do IBGE que oferece uma prévia do mês, com base num prazo menor de coleta de dados. A prévia para março chegou a uma alta de 0,69, significativamente menor que o 0,97% de fevereiro.

“Ademais, as medidas de moderação do crescimento tomadas pelo governo (‘macro prudenciais’) começam a surtir efeito. A concessão de crédito embora registre um crescimento elevado de 21% em 12 meses, vem se desacelerando por conta do enxugamento de liquidez imposto pelo BC. Mesmo assim, o porta-voz dos interesses financeiros, o boletim Focus, insiste em desacreditar a política econômica, e o faz reiterando que a inflação escapou ao controle. Ou seja, quer porque quer que na reunião do próximo dia 20, o BC anuncie nova alta dos juros”

 

Luis Nassif e o jogo sujo do Estadão

Reproduzo artigo publicado no blog Ponto e Contraponto:

Todo veículo de comunicação da velha mídia tem o seu moleque de recados, aquele jornalista que se presta a escrever sob demanda dos seus patrões. Eles fazem o papel de dar a roupagem de matéria jornalística a editoriais envergonhados. Leandro Colon faz o jogo sujo que o Estadão gostaria de fazer sem se expor. A escandalização do nada teve como alvo mais uma vez o jornalista Luis Nassif, um dos poucos que se encontra em atividade e evidência que ainda insiste em respeitar seus leitores.

O motivo da peça que estupra a ética jornalística foi a recontratação de Nassif pela Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), para fazer comentários sobre economia no principal jornal da TV Brasil e conduzir o programa de debates Brasilianas, que vai ser transmitido também pela internet. Para alcançar o seu objetivo de criar um factóide, o jornalista apela para a exposição dos valores globais do contrato, ignorando o fato que são os mesmos praticados por outras emissoras de canal a cabo como a viciada Globonews e o Canal Rural.

A tática, que se apóia na desinformação de leitores, é muito usada pelo jornalismo de baixo nível, jogando números ao vento sem levar em conta o custo de produção e a capacitação do profissional, da mesma forma como foi feito no caso da captação de Maria Betânia pela lei Rouanet, como um “modus operandis” para tentar esconder o que de verdade há por trás dessas críticas.

A inexigibilidade de licitação nessa contratação é prevista no artigo 25 da lei 8.666/93 e no artigo 64 do decreto 6.505/08 que trata da contratação de serviços para órgãos públicos, pela inviabilidade de concorrência, e essas explicações foram dadas tanto pela EBC quanto pelo próprio Nassif ao jornal Estadão. Não existe lógica na crítica contra a decisão pela inexigibilidade, não se trata de aquisição de bens ou contratação de obra, mas de opção pela excelência da qualidade do jornalista premiado várias vezes pelo seu trabalho, não é possível pensar em contratar pelo menor preço e condenar a emissora a uma programação de baixa qualidade que não atraia telespectadores, para depois os mesmos questionarem a sua viabilidade.

Como Leandro Colon não poderia alegar desrespeito à lei ou questionar a qualidade do trabalho do Nassif, apelou para a falácia afirmando que o jornalista possui um blog “pró-governo”. Disse Joseph Goebbels, ministro da comunicação de Hitler e modelo de jornalistas como Colon, que a mentira repetida à exaustão se torna verdade, e na velha mídia se segue essa máxima aos extremos. Quem acompanha o Blog Luis Nassif percebe que há muitos posts com críticas a vários setores do governo: Cultura, Ciência e Tecnologia, Economia, Planejamento e em determinados momentos essa visão crítica suplanta as críticas dirigidas à oposição e à imprensa.

O que eles queriam? Que o Nassif aderisse à ótica seletiva dos veículos que fazem política partidária e usasse o mesmo filtro que eles usam para selecionar apenas o que for contra o PT e o governo? independência jornalística é artigo de luxo que passa longe das redações tradicionais.

O que está por trás desse ataque é um sentimento revanchista da administração do jornal contra o jornalismo crítico que Nassif pratica, denunciando à manipulação da notícia feita por esses veículos com argumentos certeiros. Recentemente o jornalista desconstruiu a tentativa do jornal de vitimizar-se, quando insistiu que teria sofrido censura por ter sido impedido de desrespeitar uma decisão judicial de dar a um processo o segredo de justiça, pois o jornal vazava seletivamente dados conseguidos ilegalmente, por interesses inconfessáveis. Na mesma época o jornal demitiu a colunista Maria Rita Kehl por delito de opinião, ou seja, por um posicionamento que não se enquadrava na linha editorial de um jornal que se tornou porta-voz de partidos políticos, esse sim, um caso clássico de censura praticada pelo jornal que se dizia perseguido.

Esse blogueiro parabeniza a EBC pela renovação do contrato de um jornalista de verdade, com capacidade técnica e coragem para furar uma associação imoral de veículos de imprensa com partidos políticos. A TV Brasil veio para isso mesmo, trazer mais uma opção de jornalismo profissional sem viés partidário, e pelo que tenho visto até hoje tem sido assim. Aqueles que não possuem qualificação técnica só podem se prestar a serem garotinhos de recado mesmo.

 

Nova classe média vai pautar eleições, afirmam analistas

A “nova classe média”, trazida ao centro do debate político pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na semana passada, e namorada pelo PT, que vê na presidente Dilma Rousseff a figura talhada para conquistá-la, chegou para mudar o cenário eleitoral do País, admitem analistas, marqueteiros e estudiosos.

O tema apareceu no artigo O Papel da Oposição, divulgado por FHC, e reforçou a condição desse grupo como objeto de desejo do mundo político. É um vasto universo de 29 milhões de pessoas – pobres que, nos últimos seis anos, subiram da classe D para a C e carregam consigo novos comportamentos e expectativas.

Analistas, líderes partidários, comunicólogos e marqueteiros já se esforçam para entender como atuará, diante das urnas, esse segmento que, ao subir, fez da classe média o maior grupo social do País, com 94 milhões de pessoas (51% da população).

“Não se trata de gente sem nada, que aceite qualquer coisa. É gente que trabalhou duro, subiu, sabe o que quer, tem mais informação e se torna mais exigente”, resume Marcia Cavallari, diretora executiva do Ibope. “Isso merece um discurso novo e FHC acertou ao mandar a oposição ir atrás dela”, disse.

Não por acaso, o economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas – primeiro a detectar esse fenômeno, num estudo de 2010 – considera essa iniciativa de Fernando Henrique “a segunda ideia mais inteligente da oposição em anos, depois do plano de estabilização dos anos 1994-2002″. Esse brasileiro, diz ele, “quer sonhar, e não apenas diminuir seus pesadelos”.

O impacto desse cenário já se faz sentir no mundo político, que ainda procura entender a enorme votação da candidata Marina Silva (PV) nas eleições presidenciais de 2010. “Mas é perda de tempo tentar adivinhar se é um grupo de esquerda ou de direita”, observa Antonio Prado, sócio-diretor da Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado (APPM), em São Paulo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Governo monta ”rede de proteção” entre economistas

Estadão

O Planalto e as equipes do BC e da Fazenda buscam o apoio de formadores de opinião para a defesa da estratégia anti-inflação

Segunda, 17 de Abril de 2011, 00h00

Adriana FernandesO Planalto e a equipe econômica têm procurado, nas últimas semanas, ampliar o diálogo com segmentos dos mercados financeiro e empresarial em busca de apoio para a estratégia de combater a inflação sem precisar aumentar muito a taxa Selic. A coordenação das expectativas é essencial para a travessia da fase atual, de divulgação de indicadores desfavoráveis, como o IPCA em 12 meses que se aproxima do teto da meta (6,5%).

O ex-ministro Delfim Netto, interlocutor frequente do Palácio do Planalto, é um dos nomes com quem o governo já reforçou o diálogo – esteve com a presidente Dilma Rousseff antes de ela embarcar para a China. Em artigos e entrevistas recentes, Delfim tem dito que é “coisa do passado” a ideia de que a taxa de juros (Selic) pode controlar a inflação, dando respaldo teórico às chamadas medidas macroprudenciais pelo presidente do BC, Alexandre Tombini.

A lista de apoios e elogios públicos também inclui o economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros – que classificou de “estupendo” o trabalho do BC. O ex-secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, e o sócio da Mauá Investimentos e ex-diretor de Política Monetária do BC durante o governo FHC, Luiz Fernando Figueiredo, são outros dois nomes que dialogam com a equipe econômica.

São economistas de destaque no cenário nacional, que têm saído em defesa do governo, numa espécie de “rede de proteção das políticas diferenciadas” que o BC e a Fazendo têm adotado. A rede serve de contraponto às críticas de analistas que veem o governo “patinando em gelo fino” na condução econômica.

Sangue frio. O argumento do governo tem sido o mesmo: mostrar que não há nenhum país combatendo a inflação e enfrentando a guerra cambial com os instrumentos que o Brasil está usando. O momento agora, na visão do governo, “é de sangue-frio e calibragem de ações de curto prazo”, como a alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para capital externo e empréstimos de pessoas físicas, até a consolidação de uma agenda de médio prazo.

A mobilização dos governo justifica-se porque o Brasil é um dos países “queridinhos” dos investidores internacionais, mas, internamente, a equipe econômica enfrenta um decisivo teste de credibilidade na condução das políticas de combate à inflação, cambial e fiscal, o que não é visto desde 2002, quando o País passou por uma crise econômica às vésperas da eleição do presidente Lula.

Esse mix de sucesso e desconfiança tem causado um clima de “estranheza no ar”. O sucesso é evidenciado pela nova elevação do grau de investimento dado pela agência Fitch de classificação de risco e pelo volume recorde de investimentos estrangeiros diretos que ingressam no País.

Uma das preocupações da equipe econômica é com o risco de deterioração do cenário o internacional, a começar pela pressão altista do preço do petróleo.

Segundo uma fonte de uma instituição financeira estrangeira, a estratégia do governo brasileiro tem sido bem compreendida pelos investidores externos. A maior desconfiança estaria na política fiscal, após dois anos de manobras contábeis para cumprimento das metas.

 

Físico defende competitividade da energia nuclear

Por Lilian Milena, no Brasilianas.org
Da Agência Dinheiro Vivo

Rex Nazaré Alves, 73, diretor de Tecnologia da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), é um dos físicos mais importantes para a história do desenvolvimento da energia nuclear brasileira.

Na década de 60 se especializou em engenharia nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e mais adiante se formou doutor em física pela Universidade de Paris, Sorbonne. Foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e chefe do Departamento de Tecnologia da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).

O físico defende a continuidade da política nacional de energia nuclear e a aplicabilidade dessa matriz na medicina. E acredita que os recentes acidentes ocorridos nas usinas de Fukushima, no Japão, não irão frear o crescimento dessa matriz no mundo. Confira o porquê na entrevista a seguir.

Como nasceu o seu interesse pessoal em estudar física nuclear?

Em 1961 ganhei uma bolsa da Comissão Nacional de Energia Nuclear, que estava nascendo, para estudar engenharia nuclear no Instituto Militar de Engenharia, como civil. Essa era a fonte de energia que mais impressionava porque percebíamos aplicações de toda a ordem. Para se ter ideia, a espessura da folha de papel que você deve ter em mãos é controlada por mecanismos de energia nuclear. O nível de água ou de óleo que se coloca dentro dos vasilhames para se controlar os motores, é controlado por processos de energia nuclear.

Naquele momento, o Brasil tinha um problema que começava a me preocupar porque éramos ricos em matéria prima e tínhamos que aprender por conta própria a desenvolver nossa própria tecnologia. Por esses motivos o interesse foi crescendo, especificamente voltado para essas duas coisas: a necessidade nacional de desenvolver esse setor e aplicação dos meios que a gente dispõe no Brasil.

Por que a fissão nuclear é tão manipulada para a produção de energia se existem tantas fontes no mundo que são bem mais seguras?

Os primeiros marca-passos cardíacos tinham bateria de plutônio 238 porque era uma bateria que não precisava ser trocada todos os dias. Todos esses dispositivos que são enviados para o espaço, por exemplo, para Marte para captar informações e remeter para a Terra precisam de uma fonte de energia constante. Sem dúvida nenhuma são movidos a fontes nucleares.

Cada tipo de energia e cada utilização em particular no nuclear tem sua importância e aplicação. A energia nuclear vem sendo usada pela necessidade e em muitos casos por ser a melhor opção. Quando não for a melhor opção ainda assim será utilizada por muito tempo por ser mais competitiva do ponto de vista econômico.

Esse é o mesmo motivo de investirem em submarinos a propulsão nuclear, porque, dentre outras razões, ficam carregados por muito mais tempo?

Exatamente. A vida útil do combustível nos reatores dos submarinos nucleares é uma das causas principais de seu emprego.

Em dezembro de 1945 o físico nuclear Alvin Weinberg disse à comissão sobre energia atômica do Senado norte-americano que a força atômica pode tanto curar quanto matar. Pode adubar e enriquecer uma região bem como destruí-la. Qual tem sido o papel dos cientistas brasileiros nesse sentido?

É válido o que o Weinberg mencionou em 1945, que a energia nuclear tanto pode servir para curar, quanto para matar. E é importante lembrar que uma das primeiras fontes de energia nuclear utilizadas da natureza, foi a separação dos elementos químicos rádio e polônio, realizada pela Madame Marie Curie. Esse rádio permitiu fazer agulhas de rádio que eram utilizadas em radioterapia e foi, sem dúvida alguma, uma das primeiras formas de uso da radioterapia junto com o raio-X dermatológico. A Madame Curie veio ao Brasil, em agosto de 1926, para visitar o Instituto do Radium, um hospital de oncologia, primeiro no Brasil na luta contra o câncer, em Belo Horizonte, que usava rádio 226 que ela mesmo tinha separado.  Isso mostra que desde a origem a energia nuclear vem sendo utilizada na medicina.

Hoje as técnicas de medicina nuclear para diagnóstico permitem efetivamente ter acesso à informação de tumores numa fase muito inicial. Então, sem dúvida nenhuma, a física nuclear tem uma influencia grande para o bem. Ao mesmo tempo, é verdade que pode haver acidentes graves. Um exemplo típico foi o que tivemos com o césio 137, em Goiânia.

O mesmo ocorre com a produção de energia. Ainda assim, de todas as fontes de energia do mundo, se compararmos a produção de megawatts por hora, a fonte com menor número de acidentes e vítimas fatais é a nuclear. As pessoas se esquecem de rompimento de barragens, acidentes nas usinas térmicas, minas de carvão.

Qual será a formação da matriz energética do Brasil em 2030? O PDE 2030 [Plano Decenal de Expansão de Energia] acerta ao propor que 3% dela seja composta por energia nuclear?

O Brasil aprendeu três coisas fundamentais, na década de 1970, com as duas crises do petróleo e que devem jamais ser esquecidas. Primeiro, que precisávamos ter combustível necessário, ou seja, só investir na produção de certa matriz se tiver acesso à fonte. Nesse caso temos água, para hidrelétricas, sol para produção de energia solar, ventos para produção de energia eólica, petróleo, gás, álcool e temos urânio.

Então, esse é o primeiro item, disponibilidade do combustível. O segundo item é dominar a tecnologia, para não ficarmos como muitos países que produzem petróleo, exportam a matéria bruta e importam o produto refinado. Dominamos tecnologia em todas essas matrizes que mencionei seja em menor ou maior profundidade.

A terceira coisa que aprendemos com as crises do petróleo foi incorporar as lições dentro de todo esse quadro histórico. Antes das crises tínhamos uma matriz que dependia fortemente do petróleo. Em 1979 consumíamos aproximadamente 1 milhão de barris de petróleo/dia e produzíamos em torno de 180 mil. Nessas condições, quando vieram as altas repentinas do preço do barril do petróleo, vimos nossa economia praticamente quebrar. Isso nos incentivou a investir, por exemplo, no Pró-álcool.

Em conseqüência disso, diria que é difícil afirmar se a participação da energia nuclear vai ficar em 3% ou 4%, porque sem dúvida nenhuma a nossa fonte prioritária é água, e continuará sendo por muito tempo água. O que acontece é que precisamos ter alguma coisa que atenda a demanda quando houver falta de hidroeletricidade. Essa alguma coisa tem que ser de fontes térmicas, alimentadas por carvão, petróleo, gás ou urânio. A energia eólica ainda terá que se desenvolver muito para alcançar o grau de competitividade das usinas de grande porte.

Os acidentes em Fukushima abalaram a opinião pública. Diante disso, vale à pena continuar investindo ainda nessa matriz sabendo dos riscos?

Sem dúvida nenhuma os fenômenos naturais devem ser considerados num projeto de usina nuclear, prevendo-se ocorrências com grau de intensidade superior ao estimado pelos cientistas. O Japão fez isso, mas o caso de Fukushima foi atípico. A região passou pelos terremotos e ainda assim as usinas continuaram operando inicialmente. O problema foi que uma hora depois do terremoto vieram às águas do tsunami que inviabilizaram o processo de resfriamento dos reatores.

É obvio que a simultaneidade de fenômenos deve ser considerada uma vez que o tsunami é fruto do terremoto que ocorreu em alto mar, o problema foi a intensidade do tremor, uma das maiores já registradas pelo homem.

Voltando-se para o Brasil, vemos que aqui as características geológicas são diferentes, pelo menos até hoje tudo indica que estamos longe de ameaças equivalentes. Ainda assim, os fenômenos naturais e a simultaneidade deles devem ser considerados. Qualquer projeto de central nuclear tem reforços contra terremotos e mecanismos redundantes para um desligamento seguro caso esse fenômeno venha ocorrer.

O Japão, assim como a França e até a Alemanha, não possui muitas opções de matrizes, por isso mesmo seria difícil para o país desenvolver outros tipos de produção de energia. No caso brasileiro é um pouco diferente, temos como explorar outras fontes…

Estamos numa condição curiosa que é a interrupção de obras de hidroeletricidade. Não podemos abandonar nenhum processo de geração de energia. Temos que ser responsáveis pela implementação de todas. Não temos necessidade de construir dez ou vinte centrais de qualquer que seja sua origem, mas, para podermos ter garantia que no futuro vamos usá-las de maneira confiável, temos que manter uma continuidade no nosso programa energético. Essa continuidade implica na constância de construirmos uma usina de dois em dois anos ou em quatro em quatro anos, em função do crescimento econômico-social do país.

Após o acidente no Japão, alguns países propuseram repensar seus investimentos para construção de usinas nucleares, como os Estados Unidos. Se isso ocorrer nos demais estados que tradicionalmente dependem da nuclear como principal fonte, a exemplo da França, como essas nações serão capazes de suprir a demanda nas próximas décadas?

Quando houve o acidente em Chernobyl [na Ucrânia, em 1986], de imediato alguns países pensaram em abandonar o programa nuclear. Porém, muitos que efetivamente deixaram de investir na produção nuclear dentro de seus territórios continuaram a comprar energia nuclear de países vizinhos. A maioria dos países europeus, pequenos em extensão, não tem grandes reservas de fontes energéticas e não irão poder abrir mão da energia nuclear.

Para botar uma usina nuclear de 1 mil MW para funcionar, do tipo TWR, durante 30 anos, precisa-se de 5 mil toneladas de yellow cake, que é o composto de urânio concentrado não enriquecido. Eu posso armazenar isso em qualquer lugar, fazer uma reserva estratégica e não ficar na dependência de um combustível que, de repente, pode me ser negado.

E sobre as novas energias que tanto se fala, não teríamos capacidade de com elas substituir as principais fontes?

Sem dúvida as fontes solar e eólica ganharão um espaço muito importante nos próximos anos, mas elas, na minha maneira de ver, não serão substitutivas das fontes carvão, gás, nuclear e hidrelétrica. Essas quatro serão os grandes percentuais dentro da matriz no mundo.

Por que são mais baratas?

Não. É porque eu tenho condição de conseguir uma maior quantidade de energia dentro de uma mesma geometria, numa mesma área. O Sol joga na Terra 1 mil MW por metro quadrado. Posso fazer o que quiser, e o Sol vai continuar jogando na terra, meio dia, com o céu limpinho, 1 mil MW por metro quadrado. Então eu melhoro minha geometria, uma série de coisas, porém, ele continuará mandando apenas isso.

Em entrevista concedida para a revista Istoé, edição 2159, o historiador norte-americano Richard Rhodes afirma que a bomba atômica é inútil e obsoleta e que os países não investem mais nesse tipo de arsenal. Concorda?

A história é muito curiosa. Desde que o homem parou de ser nômade e resolver se fixar em determinado lugar, começou a alimentar mais seu lado ambicioso. Quando encontrou um lugar de terras férteis, com água, e que não era excessivamente frio, foi obrigado a ter que desenvolver meios para defender seu território de outros. Os gladiadores, máquinas de ganhar guerra no braço nasceram a partir dessa ideia, ao mesmo tempo o homem passou a desenvolver meios para se tornar mais competitivo, como a pólvora. Com isso a tendência natural foi fazer armamentos que gerassem um impacto de destruição maior. E, no limite que estamos hoje, é sem dúvida nenhuma a da energia atômica, e suas aplicações militares o instrumento de maior impacto.

Já dizia Charles de Gaulle [ex-presidente da França], ‘não lançam contra a França uma bomba porque ela tem a possibilidade de mandar outra de volta’. Nesse quadro lhe diria que, sem dúvida nenhuma, eles reduziram a quantidade de armamento, mas ainda as reservam em estoque extraordinariamente grandes.

Há um discurso em relação ao encerramento das aplicações para fins militares de energia atômica. Mas eu acho que ainda é apenas um discurso das grandes potencias militares.

A CNEN [Comissão Nacional de Energia Atômica] deve deixar de acumular a função de fiscalização do setor? Por que não conseguimos criar, até hoje, uma agência reguladora para o setor nuclear, assim como existe para o setor elétrico?

A energia nuclear no Brasil teve diferentes velocidades de desenvolvimento. Em alguns momentos se acoplou mais a dependência externa, em outros momentos se desenvolveu de forma autônoma.

Quando se fala em fiscalizar é preciso identificar quem realmente tem condições para isso, atualmente. O primeiro dado que tem que ser considerado é que o fiscalizador precisa ter um elevando nível de conhecimento.

Todos os países do mundo começaram a produzir energia nuclear com as suas funções regulatórias junto com as suas funções de desenvolvimento. Eles puderam fazer essa transição de dividir as duas funções, principalmente, porque tiveram um programa contínuo nuclear, a exemplo da França e dos Estados Unidos – França separou as atividades de produção e regulação no final dos anos 1980 e Estados Unidos nos anos 1970.

O Brasil tem e precisa fazer essa separação, mas de maneira muito responsável, mas antes, necessita ter efetivamente a garantia de que ao separar as duas atividades terá condições de fazer a fiscalização. Não deve separá-las apenas para agradar a Gregos e Troianos.

Sendo assim, estaríamos no momento de efetivar essa separação, ou ainda acha que temos que amadurecer?

Temos que amadurecer, pelo menos agora, porque temos que esperar a conformação que o atual governo quer fazer sobre a energia nuclear, com que velocidade quer implementá-la. A partir daí definir em que momento se irá fazer essa separação.

O Brasil, além de possuir reservas de urânio e demais metais radioativos, domina toda a tecnologia para produção de energia nuclear. O que falta, então, para que afetivamente todo o processo seja realizado no país? Estamos perto de chegar nesse ponto?

Falta ter um programa contínuo, mesmo que cresça devagar, mas que tenha continuidade. O nosso problema hoje não é tecnologia, porque a temos, é simplesmente escala. Se fizermos Angra 3, e fizermos mais uma unidade a cada três ou quatro anos, mas que isso fique efetivamente ajustado e que a encomenda seja feita a tempo de formarmos mão de obra especializada para que a competência seja devidamente passada, dessa forma, você pode ter certeza que teremos condição total e autonomia de sermos efetivamente um país que domine inteiramente o uso pacífico de energia nuclear.

Ao longo da história as atividades humanas influenciaram as formas de consumo de energia. Hoje, as formas de consumo de energia influenciam atividades humanas?

Inicialmente o ser humano era nômade e só andava perto de onde tinha água. Depois, aprendeu a usar o fogo e se fixar, aprendeu a produzir energia da natureza melhorando sua qualidade de vida. A partir desse momento, sim, é que come

çou a condicionar suas atividades a uma demanda maior de energia.

Por exemplo, você está numa sala que garanto que tem ar condicionado. Há vinte anos seguramente não havia ar condicionado aí, mas o ser humano que está aí sobrevivia da mesma forma. Culturalmente, a gente vem optando por um modelo de qualidade de vida que é altamente dependente de energia. A atividade, em si, não mudou muito, o homem continua dormindo, comendo, trabalhando, mas tem televisão, agora tem computador, quer tem um telefone celular em sua mão para usar a qualquer momento. Então o que mudou foi o consumo criado pela evolução da cultura.