Diálogo Desenvolvimentista No 33: as sondas da Petrobrás e a mídia brasileira

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Leandro Aguiar

Que a velha mídia brasileira defende interesses que nem sempre coincidem com o de seus leitores, muita gente já sabe. A sutileza com que ela o fazia no passado, porém, às vezes era digna de admiração. Ela costumava conduzir os leitores evocando valores como “desenvolvimento”, “tecnologia” e “avanço” para, por exemplo, justificar as privatizações. Através de palavras de ordem como “mensalão”, “CPIs” e “valerioduto”, liderou uma campanha midiática que tinha o claro e quase expresso objetivo de tirar Lula do Planalto. Os argumentos sempre foram inconsistentes, e nunca passariam por uma análise mais refinada, mas que eram sutis, isso eram.

Pois no dia 19 de abril o Estadão resolveu deixar toda a sutileza de lado e, na coluna de opinião (sempre ela, como que dizendo “quem falou foi o articulista, não o Jornal…”) do caderno de economia, expressou toda sua alegria em relação à possibilidade de algumas sondas que a Petrobrás precisa para perfurar poços de petróleo não serem mais compradas de empresas brasileiras. Segundo o jornal, a decisão é louvável, e é “uma demonstração prática e clara de preocupação com os interesses de seus acionistas e do País e que, à opção política de privilegiar o produtor local mesmo em detrimento de sua saúde financeira, preferiu a racionalidade empresarial.”. O grande patriota continua, e critica a medida tomada pelo governo Lula, que obrigava a Petrobrás a dar preferência para a indústria nacional.

O Desenvolvimentistas discutiu o artigo do Estadão. Acompanhe:

 

“É o lobby atuando. A Petrobrás não tem essa pressa, pois temos auto-suficiência para mais de 20 anos. Eles querem é desnacionalizar tudo. Comprar lá fora. Quando nós formamos 5.000 empresas fornecedoras de equipamentos de petróleo, tínhamos autorização de comprar até pelo dobro do preço externo. Depois, formado o parque fabril nacional, competindo no estado da arte com empresas estrangeiras, começou a derrocada. Collor abriu o mercado, baixando as tarifas de importação em 30%. Depois FHC com o decreto 3161, que isenta empresas estrangeiras de imposto e não isenta as nacionais, jogou a pá de cal e assassinou as 5.000 empresas. Mas podemos retomar a tecnologia nacional. Para isto é preciso: 1) acabar com o 3161; retomar via lei ordinária a diferença entre empresa brasileira de capital nacional e a de capital estrangeiro.”

Fernando Siqueira, membro da Associação dos engenheiros da Petrobrás (AEPET)

“Meu Deus, como um jornal que se diz brasileiro pode pregar tamanha sandice. Qualquer nação minimamente estruturada, que tivesse por objetivo buscar algum progresso efetivo para o seu povo, jamais perderia uma oportunidade única, como esta demanda da nossa Petrobrás, para alavancar o seu desenvolvimento industrial, neste caso, mais importante ainda, diversificado. Um mercado desta monta a ser suprido pela indústria nacional, asseguraria a esta o desenvolvimento das tecnologias e inovações necessárias, bem como níveis de produtividade que permitiriam, numa etapa seguinte, ser competitiva no mercado externo. Afinal, para atender às necessidades da Petrobrás, como descrito, toda a cadeia de produção industrial seria envolvida. Pergunto, hoje, que país tem uma oportunidade como esta, quase um milagre?

Não consigo entender o silêncio dos industriais brasileiros e, principalmente de suas federações e confederações, diante do absurdo defendido na matéria. Será que nosso destino será virar o país do rentismo, exportador de commodities?”

Carlos Ferreira, analista político

“O Wikileaks provou claramente, quem decide a pauta de grandes assuntos dos grandes jornais brasileiros é a diplomacia americana (obviamente i$$o não sai de graça)

Obama já disse, querem vender sonda americanas para o Pré-Sal, então o Estadão está apenas fazendo publicidade das sondas americanas (remuneradamente)”

Gustavo Santos, economista

 

2 ideias sobre “Diálogo Desenvolvimentista No 33: as sondas da Petrobrás e a mídia brasileira

  1. Desenvolvimentistas Autor do post

    Parabens, pelos textos. Trazem à verdade à tona em questões bem concretas. O discursos neoliberal de modernização do parque industrial brasileiro foi uma grande farsa para encobrir os interesses ligados à internacionalização dependente da economia brasileira.

    Responder
  2. Desenvolvimentistas Autor do post

    Eis as minhas observações sobre o tema:

    1) Têm equipamentos para os quais não existe capacitação brasileira, no momento, para fabricá-los e são poucas as empresas do mundo que os produzem. É claro que nós poderíamos passar a fabricá-los, mas seria, comparativamente, um esforço muito grande. Entretanto, chuto que estes não ultrapassariam 5% a 10% dos investimentos de um campo. Um engenheiro da Petrobrás deu uma palestra no Clube de Engenharia e, com muita competência, descreveu a capacitação brasileira, atual e em futuro próximo, para estes fornecimentos.

    2) O que matou um número impressionante de empresas nacionais fornecedoras da Petrobrás (não sei se foram 5.000 – pode ter sido) foi a ordem dada à empresa, durante o governo FHC, para comprar no local do mundo onde o produto fosse mais barato. Foi na época em que muitas plataformas foram compradas em Cingapura etc.

    3) O Decreto 3161, que, salvo engano, é o que instituiu o sistema de tarifação especial para o setor de petróleo chamado Repetro, não fez o que está dito no texto abaixo. O Repetro isentou dos impostos federais, tanto os produtos importados quanto os nacionais.
    Alem disso, o governo federal de então solicitou ao CONFAZ, em dois momentos separados, a isenção do ICMS para os produtos importados e os nacionais. O CONFAZ deu a isenção para os importados e a negou para os nacionais. Então, quem trouxe a taxação maior para os produtos nacionais, em compação com os importados, foi o CONFAZ e, não, o Repetro.
    No entanto, sou favorável à conclusão dita no texto: “acabar com o 3161″. Sou favorável não porque este ato induzirá as compras locais (não haverá esta indução pelo que acabei de explicar), mas, porque o Estado brasileiro precisa arrecadar mais impostos do setor de petróleo, um setor que tem uma lucratividade excepcional.

    4) Os liberais, quando criaram o Repetro, tinham em mente dar um atratativo adicional para as petrolíferas estrangeiras que viessem investir no Brasil, pois, alem do petróleo descoberto que passaria às mãos delas. elas iriam importar plataformas sem pagar impostos.
    No final, “o tiro saiu pela culatra”, pois a Petrobrás conseguiu implantar no período um grande número de campos e, com isto, foi a empresa que mais o Repetro beneficiou, usufruindo da isenção de impostos. Com isto, conseguiu amealhar mais recursos, que permitiu a ela arrematar mais blocos nos leilões da ANP, excluindo grupos estrangeiros.

    Mais teria a comentar, mas já está grande. Abraços,

    Responder

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