Um caminho alternativo à ortodoxia

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Leandro Aguiar

A preocupante sobrevalorização do Real, desindustrialização, juros da dívida, corte orçamentário. Foi sobre esses assuntos, e outros mais, que Rodrigo Medeiros, professor adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB) falou ao Desenvolvimentistas. Acompanhe a íntegra da entrevista:

 

O Brasil assiste a sobrevalorização contínua do Real. Quais os efeitos disso para indústria nacional?

Rodrigo Loureiro Medeiros – Os efeitos são claros: desindustrialização. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) vem mostrando números relativos a esta questão e a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento também possui base de dados que aponta para essa preocupante tendência.

Os instrumentos usados pelo governo para coibir essa valorização (do Real) não parecem eficazes. É possível pensar numa nova política cambial? Um controle rígido aos fluxos de capitais seria a saída?

RLM – Os pós-keynesianos defendem uma política cambial que possa conduzir o Brasil a um processo de desenvolvimento que vá além do tradicional vôo de galinha. Deve-se, para tanto, pensar em controles de entrada para evitar a sobrevarolização do real. Uma espécie de imposto regressivo seria pouco agressivo ao capital e mostraria quem é quem do Investimento Externo Direto (IED) no Brasil. Pode-se combinar esse imposto regressivo com uma alíquota maior do IOF, por exemplo. Controle na saída é algo que precisa ser pensado com mais cautela, pois as transnacionais sabem muito bem como driblar os mesmos. Quem sabe não seria essa a hora de se pensar numa agência reguladora do IED no Brasil? Ou algo no formato existente na Secretaria do Tesouro dos EUA?

Os juros acumulam alta de 1,25% em 2011. Por um lado, parte em decorrência disso, a economia se desaquece; por outro, as previsões para a inflação foram todas revisadas para cima, e a taxa de juro sempre é encarada como uma forma de combater a inflação. O Banco Central se encontra numa encruzilhada? Como gerenciar a taxa de juros?

RLM – Quando eclodiu a crise financeira de 2008, o BC brasileiro operou no sentido contrário ao da grande maioria dos BCs, ou seja, elevou num primeiro momento a Selic e mostrou-se muito lento para reduzir a mesma. Confundiu ainda pressão de demanda com a elevação especulativa dos preços das commodities. Poderíamos ter saído da crise com uma taxa básica de juros bem inferior porque havia um contexto mundial favorável de capacidade ociosa e deflação, mas optou-se pela velha ortodoxia. E agora? Querem novamente combater a elevação dos preços das commodities com a elevação da Selic? Estou com a Associação Keynesiana Brasileira (AKB) na defesa das propostas macroeconômicas progressistas. Lorde Keynes foi muito feliz quando mencionou que os dois principais defeitos da sociedade econômica são a sua incapacidade de proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza. Ele mostrou na Teoria Geral (1936) como a preferência pela liquidez de uma minoria privilegiada poderia causar estragos a um sistema econômico.

A mídia aplaudiu de pé o corte orçamentário, de 50 bilhões, proposto pelo governo Dilma. O que esse corte representa para a economia brasileira? Ele será suficiente para conter a inflação e o déficit?

RLM – Caso estivéssemos testemunhando um corte nos gastos orçamentários com juros e amortização da dívida pública em moeda nacional haveria espaço para investimentos em infraestrutura, educação, saúde e defesa nacional (não se estuda mais finanças funcionais no Brasil?), não sendo esse o caso, o Estado deverá transferir mais recursos financeiros da sociedade que produz bens e serviços para os rentistas. Pode até equacionar os problemas de inflação e déficit fiscal no sentido de um médico ortodoxo que exagera na dose do medicamento e mata o futuro do paciente.

As próprias previsões do mercado para inflação, superávit ou déficit, taxa de juro, entre números e indicadores, não acabam por influenciar e conduzir o governo na tomada de decisões, manipulando-o assim, de certa forma?

RLM – Quem ainda tiver alguma dúvida basta acompanhar a divulgação do Boletim Focus pelo BC brasileiro. Trata-se de uma espécie de profecia autorrealizável…

O governo Dilma é obrigado a escolher entre uma política econômica de fomento a indústria e uma de combate a inflação, ou elas são conciliáveis?

RLM – A primeira Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), lançada antes da crise de 2008, teve suas metas comprometidas. Foi um ensaio de política industrial, mas que mostrou que a macroeconomia precisa ajudar… Onde está a arte da política? A questão é de timing e utilização dos instrumentos de política econômica. Mas será que o empresariado brasileiro, o que sobrou dele, deseja uma política desenvolvimentista, incluindo seus desafios, riscos e incertezas? Precisamos de novos empresários, novas idéias, nova mentalidade e espírito empreendedor. O problema é que a velha mídia e o “mercado” insistem na questão da inflação, como se ela fosse acelerar domesticamente e como se estivéssemos no pleno emprego. Não é esse o caso.

 

Uma ideia sobre “Um caminho alternativo à ortodoxia

  1. Flavio

    Em meu artigo ” Decálogo para uma Autêntica Política Industrial” divulgado no blog blogin.ning.com/profile/Flavio Tavares de Lyra, trato das insuficiências de nossa politica industrial. Uma delas é a subordinação absoluta da política industrial à política econômica de corte neoliberal. Nisto concordo plenamente com a posição do autor. Também existe concordância em outros aspectos, tais como o da fragilidade de nossa estrutura empresarial. Em outro artigo divulgado no mesmo blog ” A Política Industrial Envergonhada”, chamo atenção para incapacidade de nossa sociedade de executar no passado uma política industrial autenticamente voltada para os interesses nacionais, a exemplo do que fizeram a China, a ìndia e a Coréia.

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