Brasília, 26 de Abril de 2011. Flavio Lyra
Agora que, diante da ameaça de desindustrialização que bate a nossa porta, esquenta o debate sobre os caminhos para a consolidação da industrialização do país, vale a pena elucubrar sobre o papel dos militares no aludido processo. Seria ingênuo desconhecer que os militares sempre estiveram na vanguarda de iniciativas voltadas para a definição de uma estratégia de longo prazo para o país e que merecem destaque vários projetos que levaram adiante com esse propósito.
A criação da Petrobras contou com o apoio de influentes líderes do Exército. Os pólos petroquímicos da Bahia e do Rio Grande do Sul foram criados como empresas estatais, durante os governos militares. O pólo Aeronáutico de São José dos Campos, surgido a partir do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de que também resultou a Embraer é fruto da ação da aeronáutica. A marinha, por sua vez, há anos vem trabalhando para construção de fragatas e de um submarino movido a energia nuclear.
A execução do I e do II Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico, entre os anos 70 e 79, que tanto nos fez avançar em matéria de substituição de importações também são fruto da visão de longo de prazo dos militares.
Caberia, então, indagar o que é que deu errado com a atuação dos militares que impediu até a consolidação de nosso processo de industrialização. Minha hipótese de trabalho é que a “Guerra Fria” e o medo do comunismo, insuflados pelos Estados Unidos afastaram os militares da classe trabalhadora e dos movimentos populares e a vincularam aos interesses das grandes corporações internacionais aqui instaladas e de nossa anêmica burguesia agro-industrial. A doutrina de que o papel dos militares era combater a subversão interna, os levou a transformar a classe trabalhadora organizada e as lideranças de esquerda em seus inimigos irreconciliáveis. Esqueceram que a verdadeira pátria é o povo e não as minorias privilegiadas que exploram o povo em benefício de seus interesses de acumulação de riqueza.
A formação dos militares à luz da doutrina da Escola Superior de Guerra, sob forte influência do pensamento militar dos Estados Unidos, conseguiu fazer dos movimentos populares o grande inimigo das Forças Armadas. Isto não deixa de ser um grande paradoxo, por que de fato as preocupações do militares com o desenvolvimento industrial do país tinham muito mais em comum com as posições defendidas por lideranças populares do que com o pensamento que prevalecia nos seguimentos da pequena burguesia agro-industrial do país.
Essa burguesia nunca assumiu a liderança efetiva da industrialização do país. Seus posicionamentos liberais e simpáticos ao capital estrangeiro contribuíram, não somente para a entrega de nosso mercado interno a corporações internacionais sem maiores compensações, como não favoreceram a adoção de uma política industrial autêntica.
A questão da consolidação da industrialização nacional volta a estar na ordem do dia, mas com um fato novo de grande relevância: a participação hegemônica da classe trabalhadora no governo. Entretanto, o pensamento neoliberal ainda é dominante em vários segmentos da sociedade opondo-se fortemente ao aumento do papel do Estado na economia, inclusive com maior regulação dos mercados.
Esses segmentos, liderados pelo PSDB, ainda acreditam que a liberalização dos mercados, a privatização, o apoio às corporações internacionais e a hipertrofia do sistema financeiro vão propiciar a consolidação da industrialização do país e sua inserção competitiva na economia globalizada.
É muito pouco provável que a opção estratégica pelo lado liberal permita ao país avançar no campo de seu desenvolvimento industrial e tecnológico, até por que essa visão de mundo acha-se em profunda crise. Desta vez, ao que parece, realmente não há alternativa. Ou marchamos pelo lado do fortalecimento do papel do Estado sob a hegemonia da classe trabalhadora ou não vamos a lugar nenhum
É, portanto, chegada a hora dos militares corrigirem o erro histórico cometido no passado, quando esqueceram a classe trabalhadora organizada e a transformaram em seu inimigo principal. Os objetivos comuns que sempre tiveram deveriam agora funcionar com fator de união, em torno do objetivo nacional de consolidação do desenvolvimento industrial e tecnológico do país.
O exemplo da China está aí para quem quiser ver. Foi sob a hegemonia da classe trabalhadora, vitoriosa na Revolução de 1949, que a China conseguiu dar a volta por cima e transformar-se já há algum tempo na economia mais dinâmica do mundo. Por certo que, no nosso caso, precisamos alcançar o mesmo objetivo respeitando as regras do jogo democrático.

“Foi sob a hegemonia da classe trabalhadora, vitoriosa na Revolução de 1949, que a China conseguiu dar a volta por cima e transformar-se já há algum tempo na economia mais dinâmica do mundo.”
Sobre quantos milhões de cadáveres, meu senhor???