Leandro Aguiar
Nos anos 90, o Brasil voltou a eleger um presidente pela via democrática. O povo, a mídia e o congresso, apesar da controvérsia da ocasião, demonstraram força republicana derrubando esse mesmo presidente. A seleção brasileira conquistou o tetracampeonato, 24 anos depois da última conquista mundial. A Petrobrás foi transformada numa empresa global, a Vale deixou de ser exclusivamente Do Rio Doce, tornando-se a maior mineradora do mundo, e a inflação, O Grande problema dos últimos anos da década anterior, foi contida pelas amarras do Plano Real. Posto dessa maneira (nada analítica), a década de 90 soa como uma grande década para o Brasil, mas a verdade é que se por um lado o país evoluiu, por outro ele perdeu oportunidades históricas de evoluir ainda mais.
O caso da telefonia móvel é um dos exemplos mais bem acabados dessa não evolução, para não dizer atraso. Sempre que algum partidário do pensamento neoliberal pretende defender as privatizações realizadas por FHC, cita o “estupendo sucesso (…) das teles”, nas palavras do próprio ex-presidente tucano. De fato, graças à abertura ao capital externo, a telefonia móvel se desenvolveu de forma robusta no Brasil, se analisada quantitativamente. Milhões de celulares são vendidos a cada ano, número que aumenta progressivamente. No entanto, nesse ponto o Brasil não é muito mais que um consumidor, e esses milhões de celulares em muito pouco contribuem para o desenvolvimento da indústria nacional, já que os aparelhos são, no máximo, montados pelas indústrias daqui.
Quando comparado ao modelo chinês, fica óbvia a oportunidade que o governo brasileiro deixou escapar. Lá, como aqui, o Estado buscou atrair as grandes empresas de telecomunicação, mas com a ressalva de que os chineses teriam acesso à tecnologia de produção, e de que as patentes seriam compartilhadas com o governo. Hoje, graças a essa política industrial, a China tem a segunda maior empresa de telecomunicações do mundo, a Huawei, que fica atrás somente da SonyEricson.
O Desenvolvimentistas discutiu o caso das teles, e hipóteses foram levantadas sobre o que ainda pode ser feito para se reverter esse quadro. Acompanhe:
“Os chineses criaram a Huawei do nada em 10 anos. Poderíamos criar uma grande empresa com 20% do tamanho da Huawei, mas que dominasse o mercado brasileiro em quatro anos, se partíssemos do grupo GENTE.
O Consorcio das empresas nacionais de tecnologia chama-se GENTE, Grupo de Empresas Nacionais de Tecnologia. A PADTEC e o CPQD são uns dos associados, mas não receberam nem um centavo de apoio do governo, nada, e juntas elas tem tecnologias quase completas para quase todos os setores da área de telecomunicações.”
Gustavo Santos, economista
“Aquela década de 1990 foi realmente a década negra do Brasil, o apagão do desenvolvimento. E FHC e sua equipe fizeram tudo meio que às escondidas, rápido para que ninguém pudesse analisar e se mobilizar, quase um fato consumado no momento em que o público tinha conhecimento. Tudo que fizeram é característico de traição à Pátria. Esta área de telecomunicações é uma em que nós tínhamos grande chance de avançar com nossas próprias pernas. Mas é preciso olhar para frente, e ver se é possível recuperar algo do que foi perdido de forma tão cruel.”
Ceci Juruá, economista
“Realmente tivemos (na verdade ainda temos) todas as condições para também ter pelo menos uma marca nacional. Todos os países que o conseguiram, utilizaram suas demandas/mercados internos (somos o 5º maior mercado de celulares) para alavancar um desenvolvimento autóctone, através de forte apoio do Estado, isto não é segredo. Imagine, o PIG certamente tentaria um novo 64 caso houvesse uma decisão política do governo federal, nesta direção. Afinal, com o pungente mercado brasileiro, temos aqui o paraíso das transnacionais e seus importados.
O que mais desespera é não saber com ajudar a viabilizar a mudança de atitude dos nossos centros de decisão.”
Carlos Ferreira

