Diálogos Desenvolvimentistas No 30: Bresser, Fiori, e o debate público

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Leandro Aguiar

Na última eleição presidencial, o Brasil assistiu ao aumento das divergências entre centro-esquerda e direita, representadas respectivamente pelo PT e PSDB. As desavenças, que aparentam ser bem maiores do que na realidade são, fizeram com que em diversos momentos a discussão se desvirtuasse, como aconteceu no debate sobre o aborto e sobre as privatizações.

Já há um tempo vem se criando um cenário maniqueísta, em que de um lado estão os neoliberais, os entreguistas pró-Eua, a ortodoxia econômica, e a eles foi dado o nome de Direita, enquanto do outro lado estão os nacionalistas, preocupados com o desenvolvimento econômico e social do país, cujos interesses não se conciliam com o do grande capital, ou seja, a Esquerda. Essa generalização, além de não descrever com exatidão o pensamento da maioria das pessoas envolvidas politicamente, empobrece o debate político, num país que já é bastante carente de debates públicos.

Nesse cenário, dois intelectuais brasileiros estão de certa forma cumprindo o papel de debater, despojados de idéias pré-concebidas, a política e economia brasileira. Eles são Luis Carlos Bresser, ex-ministro de Sarney e FHC, recém saído do PSDB por questões ideológicas, e José Luís Fiori, autoridade em ciências políticas e em economia. O alto nível da discussão dos dois pode ser percebido nos seguintes trechos, em que eles citam um ao outro:

Valor: O senhor considera que, de alguma forma, tenha antecipado o debate sobre o neoliberalismo?

Luiz Carlos Bresser-Pereira: Antecipei, mas depois afrouxei. Em 1990, dei a aula magna da Anpec [Associação Nacional dos Centros de Pós-graduação em Economia], que depois foi publicada na revista do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], onde fiz a primeira crítica, que eu conheça, ao Consenso de Washington. A esquerda, em geral, só veio a descobrir o Consenso de Washington em 1993. A primeira reunião que deu no Consenso de Washington foi em 1989. Mas eu soube dela, e fiz a minha crítica em 1990. Daí o John Williamson fez um segundo seminário sobre o Consenso de Washington, em 1993. E não sei por que cargas d’água fui convidado, acho que por causa da minha experiência com o Plano Bresser.Estava lá também o José Luiz Fiori. A primeira crítica violenta ao neoliberalismo, pelo menos que eu tenha lido, foi do Fiori, e foi feita a partir da segunda reunião, ou seja, quatro anos depois da minha crítica. Mas foi uma crítica violenta – a minha não foi tanto, porque eu não sou tão de esquerda quanto ele, temos posições um pouco diferentes.”

Bresser, em entrevista ao Valor

 

“O professor me atribui uma “visão sombria do mundo”, que segundo ele, não reconhece a existência do progresso, e está calcada sobre idéias geopolíticas e concepções diplomáticas ultrapassadas, do século XIX. Nas palavras do professor Bresser: “Fiori não compreendeu que a geopolítica do equilibro de poderes, a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia em que vivemos hoje [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...]Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países também não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potencias não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas” (J.R., p:7)A visão do professor Bresser lembra muito Francis Fukuyama, e sua velha tese sobre o “fim da história” e a vitória da “democracia e do mercado”, que foi publicada depois do fim da Guerra Fria, e logo em seguida foi atropelada pelos fatos e esquecida pelos analistas internacionais.”

Fiori, em resposta a crítica de Bresser a seu livro “O mito do colapso”

Acompanhe as impressões Manuel Rodrigues, que no grupo do Desenvolvimentistas se expressou sobre a recente entrevista de Bresser ao Valor, já aqui publicada.

 

“(…) gostaria de pontuar algumas questões:
1) Não é de hoje que o professor Bresser-Pereira defende essas posições.
2) Suas convicções, defendidas continuamente desde o início da década passada, constituem o que ele e seu colega Yoshiaki Nakano chamam de novo-desenvolvimentismo.
3) O novo-desenvolvimentismo tem discordâncias com a direita, quando esta prega a livre flutuação do câmbio e ortodoxia monetária.
4) O novo-desenvolvimentismo tem discordâncias com setores da esquerda, quando estes pregam a irresponsabilidade fiscal e a irrelevância do controle inflacionário.
5) O prof. B-P há muito tempo defende uma política monetária compatível com essa que o Tombini vem tentando implementar no BC.
6) Denunciou a política econômica dos primeiros anos de Lula como continuísta em relação ao governo FHC, política essa, segundo ele, responsável pela semiestagnação econômica que grassava no país até há bem pouco tempo.
7) Há vários anos defende que o Brasil aprenda lições importantes com os chamados países asiáticos dinâmicos, que não seguiram o consenso de Washington, ergueram uma indústria competitiva e impedem a sobrevalorização de suas moedas.
8- Considera que, na globalização, a disputa entre os Estados-nação se torna mais acirrada e que é um grande erro crer que os Estados-nação se tornaram obsoleto.
9) Critica fortemente a idéia de que é possível o país crescer no longo prazo com poupança externa; para ele, esse caminho leva a crises no balanço de pagamentos, crises essas que são as mais típicas dos países emergentes.
10) Suas idéias estão expressas em inúmeros artigos e em livros como Nação, Câmbio e Desenvolvimento (livro de que é co-autor), Macroeconomia da Estagnação e Globalização e Competição, entre outros.
11) Sua entrevista me soa como a de uma pessoa desprendida e sincera (influência da idade, quem sabe…); e quem acompanha sua produção intelectual dos últimos quase dez anos sabe que não são idéias e posicionamentos de ocasião.
12) Seu grande erro, na minha opinião, foi não ter percebido todo o processo de fortalecimento do mercado interno nacional, que ocorreu graças, em parte, a condições internacionais extremamente favoráveis, em termos comerciais e financeiros, e, em parte, à determinação do governo Lula de aumentar o poder de compra dos brasileiros mais pobres.”

 

 

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