Arquivo mensais:março 2011

A alegria e a fraternidade não foram perdidas

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S. Paulo, 26.2.2010.

Gildo Marçal Brandão, um estudioso do Brasil e da teoria política, sempre foi um homem comprometido com o Brasil e seu povo

Os amigos nos enganam. Morrem de repente, sem aviso nem necessidade. Privam-nos de uma companhia que nos foi tão agradável e enriquecedora. Uma injustiça para os seus mais próximos e para os amigos como eu, que receberam com enorme tristeza a notícia da morte de Gildo Marçal Brandão.

Um colega cientista político. Um estudioso do Brasil e da teoria política. Um professor de ciência política da USP de cuja banca de professor titular tive a honra e a alegria de participar. Um homem sempre comprometido com o Brasil e seu povo.

Conheci mais de perto Gildo quando, em 2001 e 2002, dei curso de teoria política da democracia na USP, em companhia de Cicero Araujo -um grande amigo seu. Naquele momento eu estava voltando para minhas origens nacionalistas e desenvolvimentistas -origens que os então dominantes anos neoliberais do capitalismo haviam tentado apagar- e encontrei em Gildo, ainda que bem mais moço do que eu, um irmão. Um homem intelectual sempre pensando o desenvolvimento econômico, político e social do Brasil.

Um militante de esquerda que sobreviveu aos ataques da direita neoliberal sem para isso precisar aderir a teses irresponsáveis da esquerda radical.

Gildo sempre foi comunista – um comunista da velha cepa, socialista republicano e reformista. Enquanto desde a juventude ele adotou esse partido, eu, nessa mesma fase da vida, pertenci à Ação Católica de Alceu Amoroso Lima e Franco Montoro e, depois, me associei às ideias nacionalistas e desenvolvimentistas do Iseb.

Nessa época – nos anos 1950, mais precisamente no congresso do Partido Comunista de 1958, conforme relatou Gildo em seu livro clássico sobre o Partido Comunista Brasileiro (“A Esquerda Positiva: As Duas Almas do Partido Comunista”, 1997)-, o partido decidiu abandonar a ideia de revolução e adotar a tese da revolução capitalista como requisito para uma posterior revolução socialista. Esse fato naturalmente nos aproximava.

Como também o a convicção de Gildo de que, apesar de egoístas, os homens também podem ser solidários. O projeto brasileiro não pode ser apenas democrático, precisa ser também social e nacional. A inserção do Brasil no cenário global não se faz pela submissão aos países ricos, mas pela construção entre nós de uma sociedade mais justa e pela competição bem-sucedida com os países mais desenvolvidos.

Gildo soube criticar os desvios da União Soviética e abandonou a ideia de revolução. Esperava que o desenvolvimento econômico nacional conduzido por uma coalizão política desenvolvimentista e reformista abriria o caminho do Brasil para uma sociedade menos desigual ou mais justa. Para isso era necessário que ocorresse desenvolvimento nacional.

Estudando as interpretações do Brasil, ou “Linhagens do Pensamento Político Brasileiro” (2007), Gildo redescobriu Oliveira Vianna -o grande intérprete nacionalista do Brasil que a escola de sociologia de São Paulo, dominante nos anos 1970 e 1980, rejeitara porque o grande sociólogo havia se identificado com o governo nacionalista e desenvolvimentista de Getúlio Vargas. Ainda que fizesse parte do Departamento de Ciência Política da USP, que, em princípio, seria o herdeiro do pensamento dependentista daquela escola, Gildo soube reconhecer a importância da construção da nação na obra de grandes pensadores do Brasil, como Vianna, Gilberto Freyre e Celso Furtado.

Gildo Marçal Brandão era um grande professor. Seus alunos são testemunhas do que afirmo. Ensinava a teoria política e as interpretações do Brasil com a abertura de pensamento e a disposição para o debate que são próprias dos espíritos elevados e realmente democráticos.

Gildo era um agitador de ideias -estava sempre convocando a todos para pensar com ele. Era um integrador -acreditava que por meio da comunicação e do debate era possível avançar as ideias e as políticas públicas. E era um administrador de ideias e de pessoas -dirigindo com discernimento a Anpocs, desempenhando o papel de editor da “Revista Brasileira de Ciências Sociais”.

E tudo isso Gildo fazia com suavidade e gentileza. Parecia não ter pressa, parecia estar sempre à disposição dos outros. Tinha sempre uma palavra amável e um bom sorriso para aqueles que dele se aproximavam. E a disposição para cooperar. Por isso tinha tantos amigos. Por isso todos nós nos sentimos traídos por ele quando nos deixou. Agora não temos alternativa senão lembrar dele com saudade -e também com alegria. Nós o perdemos, mas a alegria e a fraternidade que ele irradiava não foram perdidas.

O “racha” na blogosfera dos Estados Unidos

do VioMundo

por Luiz Carlos Azenha

A blogosfera progressista dos Estados Unidos rachou. “Rachou” talvez seja um verbo muito forte e definitivo, para algo que nunca foi monolítico e flutua de acordo com a conjuntura política.

Mas há, agora, dois campos muito distintos, que estiveram unidos no período que antecedeu a eleição de Barack Obama.

Naquela época, em que o Netroots era embrionário (Netroots e blogosfera progressista são quase sinônimos nos Estados Unidos).

O fato é que, depois da campanha, o governo Obama foi paulatinamente desmobilizando a gigantesca base de voluntários que se organizou antes da campanha e que pretendia, de alguma forma nunca definida, influir nos rumos do governo.

Barack Obama ficou diante de decisões políticas importantes em seu início de mandato e não teve dúvida: ajudou muito mais aos banqueiros que aos trabalhadores. Ah, Azenha, mas ele deveria deixar a economia americana quebrar?

Não se trata disso, caros leitores. Trata-se de uma postura política. Obama priorizou os banqueiros enquanto vertia lágrimas de crocodilo pela classe média e pelos trabalhadores.

Entregou-se, sem qualquer tipo de reação, à agenda da extrema-direita americana, mobilizada pela Fox News e pelo Tea Party (os republicanos conseguiram a mágica de provocar o crash, pendurar a conta do crash nos cofres públicos e faturar politicamente o desgosto público com o resgate dos banqueiros).

O debate político caminhou de tal forma para a direita, com as subsequentes rendições de Obama, que hoje em dia os republicanos são capazes de culpar a “mordomia” dos funcionários públicos pela falência nacional!

E quem se rendeu junto com ele? Um bom pedaço da blogosfera. Com pequenos grunhidos, aqui e ali, progressistas de organizações como a MoveOn endossaram, muitas vezes de forma acrítica, todas as decisões do governo Obama.

Quando a coisa ficou feia, Obama deu a um progressista a presidência da Casa Walt Whitman.

Hoje, em Madison, Wisconsin, quando os trabalhadores locais concordam em fazer concessões financeiras ao estado, mas não aceitam ceder o direito coletivo de barganha, ficam diante de uma triste realidade: não tem como cobrar de Obama uma postura mais agressiva em defesa deles. Se atacarem os republicanos, não saem na mídia corporativa. Se criticarem Obama, perdem espaço em importantes endereços da blogosfera progressista.

Razão pela qual está surgindo, agora, a RootsAction.org, para se juntar a outros sites e blogs que já adotam postura independente em relação ao governo Obama.

O fundador fala em “corporificação” do Partido Democrata para justificar sua decisão de mobilizar as pessoas na rede sem depender dos democratas em geral e de Obama em particular.

Uma das ideias do grupo é criar um imposto financeiro nos Estados Unidos (sobre transações) para cobrir os rombos deixados por Wall Street. É uma ideia que Obama jamais traria para o debate político, já que a essa altura, na defensiva, ele está quase discutindo a “reforma da Previdência” com os republicanos (com objetivos óbvios).

“Não há agenda progressista de Obama”, disse o fundador do RootsAction, “teremos de criá-la de baixo para cima”.

É mais ou menos o que diz o Altamiro Borges, no Brasil, de uma forma muito mais diplomática, no memorável artigo que titulei “De puxa-sacos, Brasília está lotada”.

Pimenta nos olhos dos outros

do site da CartaCapital

Luiz Gonzaga Belluzzo

A Alemanha e a França propõem um pacto de competitividade na Zona do Euro, eufemismo para mais arrochos

A crise europeia vai bem, obrigado. Tudo rediscutido, nada resolvido. Os alemães e agora os franceses prosseguem na estratégia de apertar os vizinhos. Na reunião de cúpula do início de fevereiro, a senhora Angela Merkel juntou-se ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, para impor aos países da área um pacto de competitividade, na verdade uma nova tentativa de empurrar goela abaixo dos ditos periféricos reduções de salários, cortes de benefícios e demissões no setor público.

Relatos de observadores da reunião realizada a portas fechadas dão conta de que, em sessão tumultuada, mais da metade dos países rejeitaram as propostas franco-germânicas. O primeiro-ministro da Bélgica, Yves Leterme, declarou que não vai “permitir a degradação do modelo de proteção social” de seu país.

O economista Wolfgang Munchau escreveu em sua coluna no Financial Times que os alemães cultivam uma narrativa conveniente sobre a crise europeia. Para eles, a explicação é simples: irresponsabilidade fiscal e falta de competitividade. “Se há uma crise, ela é fiscal e a resposta é a austeridade.” Ponto, parágrafo.

Dias atrás, a comunidade de negócios e os círculos acadêmicos alemães entraram em forte convergência a respeito das políticas a ser adotadas para enfrentar a crise dos vizinhos.  A eles juntaram-se o Bundesbank e o Parlamento – o Bundestag – para rejeitar categoricamente a emissão de títulos europeus e sua aquisição pelo European Stability Mechanism (ESM).

Munchau, assim como outros analistas, entendem que o ESM poderia converter-se em uma agência europeia de reestruturação de dívidas, “a contraparte financeira da união econômica”. Os alemães respondem de forma monocórdia. Insistem na necessidade de ajustes, que supostamente vão aproximar os países em dificuldades, do padrão de competitividade germânico.

Mas há peixe podre por debaixo do angu. No subterrâneo das hesitações germina o risco de uma crise bancária de proporções ainda desconhecidas. Entre as instituições financeiras periclitantes estão os bancos alemães e franceses, demasiadamente expostos aos devedores e deficitários.

Na aurora do euro, a criação de um mercado de capitais comum permitiu não só a convergência das taxas de juro entre os países, mas também criou novos segmentos e produtos financeiros. Antes do euro, era impossível na Espanha a obtenção de empréstimos de 20 anos com taxa fixa. Depois da introdução da moeda única, os espanhóis foram agraciados com uma oferta de crédito em rápida expansão e a taxas e prazos convidativos. Essas condições impulsionaram o mercado imobiliário e sopraram a bolha que gerou a euforia da “Década Dourada”.

O relatório do Economic European Advisory Group (EEAG) procura demonstrar que a convergência das taxas de juro e das demais condições de crédito determinou um forte afluxo de capitais para os países da dita periferia europeia, superaquecendo suas economias. Em artigo publicado no jornal Valor, afirmei que, na esteira da unificação monetária, “a competição entre os bancos alemães, franceses, suecos, austríacos e ingleses promoveu um impressionante ‘movimento de capitais’ intraeuropeu”. A maioria dos ditos PIIGS caiu na farra do endividamento privado, facilitado, entre outras coisas, pela redução dos spreads entre os títulos alemães, o benchmark, e os custos incorridos na colocação de papéis públicos e privados dos países, cujas moedas, se existissem, não proporcionariam tal moleza.

Nesse movimento de capitais tiveram papel relevante os empréstimos dos bancos alemães às instituições financeiras espanholas, gregas, portuguesas e irlandesas. Em todos esses países, o superaquecimento da economia produziu taxas de inflação muito superiores àquelas observadas na Alemanha. Daí a valorização relativa do “euro” espanhol, grego e português, o que resultou em déficits elevados de balanço de pagamentos. Na área fiscal, à exceção da Grécia, a maioria dos países de economia “menos competitiva” apresentava superávits ou déficits aceitáveis. Até 2007, os resultados fiscais eram superavitários na Espanha, Islândia e Irlanda, fruto do superaquecimento de economias embaladas pela explosão do gasto privado. Nos demais, os déficits mantiveram-se dentro dos critérios de Maastrich, que definiram como limite déficits de 3% do PIB.

O quadro na página anterior mostra a violência da reversão da situação fiscal em países como Espanha, Islândia e Irlanda, que absorveram com maior intensidade o fluxo de capitais e ingressaram numa trajetória de riscos crescentes. Isso vale tanto para suas instituições financeiras nacionais, como as Cajas espanholas, quanto para as famílias envolvidas no movimento de valorização de ativos imobiliários e na aceleração dos gastos de consumo. França e Holanda são exemplos de reação à crise produzida pela operação dos chamados “estabilizadores automáticos”: a queda das receitas, induzida pela recessão, é acompanhada de um aumento das despesas com os programas de proteção social, como, por exemplo, o seguro-desemprego.
Nos meios financeiros europeus, todos sabem que os testes de estresse realizados pelos bancos centrais foram para “inglês ver”. Nessa matéria, o celebrado Bundesbank preferiu esconder a exibir as feridas dos bancos públicos alemães e, muito provavelmente, escolheu encobrir também as escaras produzidas nos bancos privados que se enfiaram de corpo e alma na farra de empréstimos intraeuropeus.

Portugal está a um passo da bancarrota, pagando taxas de juro superiores a 7% nos papéis soberanos. A despeito de expedientes para assegurar os mercados, não consegue escapar da suspeita de que vai caminhar para um default no futuro próximo. A Espanha desenvolve um programa de emergência para capitalizar as Cajas, instituições que bancaram a expansão do crédito na euforia da bolha imobiliária. A Grécia segue o calvário do ajuste fiscal sem destino. É favorita para um default ou uma reestruturação logo na próxima esquina.

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 23: PMDB, PSB, DEM, “PDB” e Gilberto Kassab

Leandro Aguiar

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, parece ter ambições maiores que a prefeitura paulista. Ele pretende se candidatar a governador do Estado de São Paulo em 2014, e, para isso, já se articula nos bastidores. Sua principal estratégia, desfiliar-se do DEM e criar uma nova legenda, o “PDB”, Partido Democrático Brasileiro, vai certamente balançar as estruturas partidárias do Brasil, isso justamente quando se discute a reforma política.

O PDB, que por enquanto é apenas uma possibilidade, contaria com a adesão imediata de 20 deputados federais, seis estaduais e dois vice-governadores (da Bahia e de São Paulo). Especula-se que o partido servirá de trampolim para que políticos migrem para outras legendas (sobretudo o PMDB e o PSB) sem correr risco de perder o mandato por infidelidade partidária, já que a legislação aceita a troca de partido quando ela é feita para um partido recém fundado.  O que se comenta é que o PDB já será criado pensando-se numa futura fusão com o PSB, do governador pernambucano Eduardo Campos.

Honrando suas famas de exímios articuladores, o vice-presidente da república Michel Temer e o governador Eduardo Campos, do PMDB e PSB respectivamente, já se movimentam no apoio a Kassab. Os dois partidos seriam a base de sua candidatura para governador em 2014. Mas esse apoio só será possível se Kassab de fato criar o PDB, uma vez que o DEM não irá tolerar o flerte do prefeito da capital paulista com a esquerda.     

Quais os efeitos de uma fusão do PSB com um partido que já nasce com vocação direitista, que é o que se espera do PDB?

Enquanto isso, o PMDB, caso agremie mais deputados para sua legenda, poderá ultrapassar o PT em número de congressistas, aumentando sua influência no governo Dilma e sua fome por cargos públicos eletivos. Que implicação isso trará?

O Desenvolvimentistas discutiu os bastidores da política brasileira, a suposta nova sigla de Kassab e os rumos do PSB. Acompanhe:

“Brizola chegou a pensar numa fusão com o PSB e, se não me engano, com o
próprio PPS. (…) uma tríplice fusão (PDT, PPS e PSB) abriria um belo espaço para os desenvolvimentistas, trabalhistas e demais órfãos políticos de propostas verdadeiramente progressistas, anti-imperialistas sem xenofobia e até social-democratas (no melhor sentido).”

Rogério Lessa, jornalista

 

“Essa estratégia (do PMDB) só funcionará se o “partido de transição” se fundir com o PMDB. Caso contrário, quem se beneficiará será o PSB.”    

Landes, economista

 

“acho q o jeito é quem se interessa por política se filiar a algum partido com o qual se identifica (ou voltar a militar, no caso de quem estiver afastado) e dar sua contribuição por dentro. Cobrar que tenha democracia interna, prestação de contas, compromissos programáticos etc. (…) agora, sobre o Kassab, até onde sei, ele tem um perfil administrativo como tantos outros por aí… Há algo que o desqualifique?”

Márcio Oliveira, analista político

 

boa parte do EX-PFL cria um novo partido para entrar no Partido Socialista Brasileiro para poderem apoiar o Governo do PT, mostra que a organização partidária brasileira está evidenciando uma completa falência, ao menos nos termos clássicos de se pensar partidos políticos (…)

(…) não faz sentido esperar uma posição clara entre esquerda e direita nos partidos fora do eixo São Paulo – Sul. E de fato, os partidos cuja força relativa esta fora desse eixo (como o PSB) não se comportam “bonitinhos” como seria esperado pelo manual de socilogia da USP (copiado da Europa).

 

Da mesma forma, mesmo os partidos cuja força principal está em São Paulo, nos outros estados se comporta fora do esperado.

 

Então faz sentido cobrar dos partidos no Brasil que se comportam a partir de um script importado que já não funciona direiro nem no local de origem?

 

E mais, se não for para separar os partidos em termos de partido trabalhistas e partido pro capital (ou liberal), para que precisam existir partidos? Porque os representantes não poderiam ser eleitos avulsamente?”

 

“falta um partido assumir no Brasil a Bandeira do Desenvolvimentismo ou do Nacional-Desenvolvimentismo para que a questão Centro-Periferia entre de forma oficial e explícita no debate político. Por exemplo, o PSB, por ser um partido fundamentado principalmente em estados brasileiros periféricos, tem uma base social e conhecimento de problemas reais adequado a fazer esse movimento. O PMDB está na mesma situação.

Como nenhum partido assumiu isso ainda, às vezes as decisões, debate e posições políticas parecem estar sendo muito mais confusas do que realmente estão, uma vez que as legítimas e altamente importantes posições desenvolvimentistas ficam dispersas em um monte de partidos.”

Gustavo Santos, economista

 

“É verdade, porém, que aos partidos que operam nessas circunstâncias (fisiologismo, personalismo, centralismo) é mais difícil manter a clareza, já que seus estatutos dizem uma coisa e a prática do dia-a-dia diz outra (a dicotomia clássica é a assunção por parte dos “trabalhadores” dos interesses do capital, ou de práticas que lhes tira poder, recursos e liberdade), mas isso não significa que não seja possível caminhar em direção a práticas menos corruptoras e a procedimentos mais ideológicos.

(…)

vale a pena ter partidos? Vale, porque, do mesmo modo que, ainda que não haja script pronto, é possível enxergar rumos, é possível buscar separar o joio do trigo no jogo político. Esse processo – de identificação – é perene e é balizado pelas composições partidárias, ainda que haja várias confusões, peças fora de lugar, mesclas, vira-casacas. Os partidos ajudam os operadores da política (infelizmente nem tanto os eleitores, que pouco se importam com a questão) a identificarem seus pares e isso é importante para o jogo político. Negar esse papel dos partidos é simplificar a realidade aos moldes dos editoriais do Jornal Nacional. Do mesmo modo que os scripts não explicam a realidade, jogar tudo no mesmo saco também não. A política é tão complexa quanto a vida.”

Rômulo Neves

“acho que, do ponto de vista do quadro partidário brasileiro, a se confirmar esse movimento, o PSB passa a se posicionar à direita do PT no espectro partidário do país.

Aliás, engraçado pensar que as opções levantadas por Kassab seriam justamente o PMDB ou o PSB. Nessa linha, o PSB passa a, cada vez mais, se parece com o PMDB, um partido de lideranças regionais fortes, sem uma identidade política clara.

Do ponto de vista partidário, o PSB, com esse movimento, poderia se consolidar como um dos poucos partidos médios que sobreviveriam a uma eventual reforma política que acabasse com as coligações nas eleições proporcionais. E parece ser por esse lado pragmático que Eduardo Campos vem se posicionando.

De outro lado, as lideranças do PSB mais identificadas com um programa de esquerda começam a se manifestar contrariamente a esse movimento. Penso que enquanto esse movimento não se confirmar, e essas lideranças continuarem militando no partido, tentarão tensionar à esquerda. Seria interessante, nessa perspectiva, uma tentativa de aproximação com o PDT e outros partidos médios-pequenos de esquerda não radical. Apenas assim poderiam se converter e se firmar como uma alternativa eleitoralmente viável posicionada à esquerda do PT, que rumou ao centro, no espectro partidário nacional.”

Leandro Couto, analista político

Pepe Escobar: O fim do fim da história

O fim do fim da história

4/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online

How does it feel to be on your own, like a complete unknown, like a rolling stone, cruzando as areias do deserto, uivando para a lua que o fim do fim da história é hoje?

As categorias ideológicas ocidentais jazem mumificadas na tumba. Nada de dicotomia, necas de “choque de civilizações”, entre a democracia parlamentar ocidental e o Islã.

O esloveno Slavoj Zizek, o Elvis Presley da filosofia, disse à al-Jazeera há algumas semanas que a verdadeira tragédia das nações árabes foi o sumiço de qualquer esquerda forte, secular. Não surpreende. Os ditadores apoiados pelos EUA no MENA (ing. Middle East/Northern Africa) mataram ou exilaram os melhores e os mais brilhantes dos intelectuais progressistas.

Agora se pode pelo menos sonhar que a ideia de combater governos incompetentes/corruptos em nome da justiça social no Médio Oriente/Norte da África [em português, talvez, MONA? (NTs)] venha a contaminar a Europa e os EUA (como, de fato, já contaminou: “do Cairo a Wisconsin”) – e que raia um novo dia para os movimentos dos trabalhadores que padecem sob a ‘austeridade’ e os ‘ajustes estruturais’ inventados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Novos proletários internacionalistas do mundo, classe de 2011, uni-vos.

E como não se maravilhar, agora que o neoliberalismo aplicado ao mundo árabe também fez emergir grupos islâmicos capazes de converter em ação política a profunda e vasta fúria coletiva provocada pela horrenda má distribuição da riqueza comum?

Qual é a sensação de rir, rolar de rir, desses neoliberais ridículos, depois dos anos e anos que consumiram para convencer o mundo de que os árabes poderiam ser livres se quisessem ser livres, mas que eles, de fato, nem sabem que querem ser livres e nunca aprenderiam sozinhos, motivo pelo qual precisariam do Pentágono para despertá-los para a realidade, “com choque e pavor”?

Enquanto isso, sionistas e sionistas-conservadores, aí, hoje, pedindo aos céus que surja no Egito qualquer governo, islâmico que seja, desde que seja pelo menos um pouco moderado, qualquer governo serve, desde que considere a possibilidade de preservar os acordos de 1979 em Camp David e aceite não discutir os anos, as décadas, da tragédia dos palestinos. Talvez consigam.

Como não festejar que as revoluções tunisiana e egípcia sejam revoluções seculares e nacionalistas – com o que, só por isso, já arrancaram a revolução iraniana do trono de única revolução possível, mas segundo a qual o Xá do Irã, apoiado pelos EUA, teria sido derrotado pelo Islã como ideologia?

Trata-se pois de “um, dois, três… Lutamos por o quê(s)?” Lutamos por um, dois, três, mil revoluções, não contra a velha tirania de ter de aceitar um ou outro velho tirano, mas contra toda a tirania de toda a arquitetura da ‘realidade’ inventada pelo Tesouro dos EUA/FMI/Banco Mundial.

Nacionalismo árabe, solidariedade árabe nacionalista, Al-Jazeera árabe nacionalista, a Internet como uma super al-Jazeera – tudo aí, para todos os árabes verem e fazerem, eles mesmos. E o ocidente não tem plano B – nem qualquer sinal de alguma “transição ordeira” à moda Barack Obama/Hillary Clinton, para o Bahrain, o Iêmen, a Líbia.

E, contudo, a revolução ainda nem começou.

A dinastia sunita no Bahrain continuará a representar um drama shakespeareano árabe. Como se lê em telegrama de 2009 publicado por WikiLeaks, o rei Hamad continuará a “transferir gradualmente o poder”, do poderoso primeiro-ministro Khalifa bin Sal Al-Khalifa, para o filho, príncipe coroado Salman. O primeiro-ministro é tio do rei e tio-avô do príncipe coroado. Enquanto isso, o Serviço de Segurança Nacional do Bahrain, comandado por Sheik Khalifa bin Abdullah al-Khalifa, continuará a receber ordens da CIA-EUA.

O Conselho de Cooperação do Golfo [ing. Gulf Cooperation Council (GCC)], chamado “forte aliança tribal”, usará tanques, jatos, mercenários, o que for preciso, para impedir qualquer mudança no regime do Bahrain-elo-mais-fraco. Afinal de contas, o Conselho de Cooperação do Golfo – Bahrain, Qatar, Kuwait, Omã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos – repousa sobre 45% das reservas mundiais de petróleo, e não se pode deixar escapar a coisa, em nome da “democracia”.

E mesmo quando a al-Qaeda jaz tão moribunda quanto Mubarak, absolutamente sem qualquer influência ideológica ou sociológica no norte da África, estridentes vozes imperiais continuam a alertar contra o perigo de a Líbia degradar-se até o status de Somália gigante. Como se, amanhã, o “Doutor Egípcio”, Ayman al-Zawahiri, subitamente se materializasse no leste libertado da Líbia, e se candidatasse ao emprego de novo emir. Aí, sim, haveria choque de civilizações!

Brasil se torna em quinto maior credor dos EUA, com US$ 186,1 bi

CORREIO BRAZILIENSE

País só perde para China, Japão, Reino Unido e grupo de exportadores de petróleo

Vânia Cristino

O Brasil tornou-se o quinto maior financiador da dívida do governo dos Estados Unidos. Dados divulgados pelo Tesouro norte-americano mostram que, em dezembro do ano passado, o país detinha US$ 186,1 bilhões em títulos da nação mais rica do mundo, atrás apenas da China, com US$ 1,16 trilhão, do Japão (US$ 882,3 bilhões), do Reino Unido (US$ 272,1 bilhões) e dos países exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita e a Venezuela — esses, com investimentos de US$ 211,9 bilhões.

Somente em 2010, o Brasil aumentou os investimentos na dívida dos EUA em US$ 16,9 bilhões, apesar das baixíssimas taxas de juros pagas pelos papéis. A alegação do Banco Central, que administra os recursos oriundos das reservas internacionais do país, é a de que a compra de títulos do governo norte-americano é muito segura. Além disso, é preciso manter um colchão em dólares, uma vez que o grosso do endividamento brasileiro no exterior está na mesma moeda. É o que o mercado chama de hedge.

Pelos registros do BC, com as reservas internacionais do país na casa dos US$ 300 bilhões, mais da metade dos recursos hoje está financiando o governo dos Estados Unidos. “Trata-se de um importante seguro contra crises”, disse o diretor de Administração do BC, Anthero Meirelles, na reunião da semana passada do Conselho Monetário Nacional (CMN). A afirmação foi uma resposta às críticas de uma corrente de economistas, que acha exagerado o custo das reservas, já que elas rendem, em média 2% ao ano, mas o Tesouro do Brasil paga 11,25% anuais para se financiar. No ano passado, o BC registrou prejuízos de R$ 26 bilhões com essa diferença de taxas.

“Já vimos, no passado, o que aconteceu no país quando enfrentamos crises internacionais. O Brasil teve que puxar a taxa de juros para mais de 40% ao ano porque não tinha reservas suficientes para se defender”, observou o diretor do BC. Ele garantiu que, mesmo com as queixas, a política de acumulação de reservas continuará a mesma. Desde janeiro último, a autoridade monetária comprou quase US$ 15 bilhões para reforçar o seguro anticrise.

Fatura da bolha


Nos Estados Unidos, confortável com o financiamento da dívida de seu país, o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, admitiu que o mercado imobiliário local, responsável pela crise que levou o mundo à recessão em 2008 e 2009, ainda levará pelo menos dois anos para se recuperar. “A situação do mercado imobiliário continua difícil. Há muitos prejuízos a serem absorvidos pelo sistema. Portanto, será preciso um tempo para a recuperação”, disse.

Mão amiga
Veja quais são os maiores financiadores da dívida norte-americana

Países – Total (Em US$ bilhões)
China – 1.160,1
Japão – 882,3
Reino Unido – 272,1
Exportadores de petróleo – 211,9
Brasil – 186,1
Países do Caribe – 168,6
Taiwan – 155,1
Rússia – 151,0
Hong Kong – 134,2
Suíça – 107,0

Fonte: Tesouro dos Estados Unidos.

Manual prático do Tea Party

da CartaCapital

Em meio à euforia que acompanhou a queda do regime de Hosni Mubarak, um jovem engenheiro egípcio manifestava seu júbilo na já lendária Praça Tahrir. Abriu uma faixa de solidariedade aos funcionários públicos de Wisconsin: “O Egito apoia os trabalhadores de Wisconsin – Um só mundo, um só sofrimento”.

A grande recessão provocada pelos abusos da finança desregulada e fraudulenta deixou a maioria dos estados americanos na tanga, como haveria de dizer minha saudosa avó Dona Hermelinda. Nos últimos dois anos, as receitas caíram vertiginosamente e as despesas com os direitos assegurados por lei cresceram rapidamente. Proibidos de se endividar para financiar as despesas correntes, item no qual se abrigam funções públicas como saúde, educação e segurança, talvez desimportantes na opinião dos falcões dos déficits. Os estados continuaram a receber transferências do governo federal para o Medicaid e outros programas sociais.

O presidente Barack Obama, também às voltas com os falcões republicanos, não encontrou meios para socorrer de forma mais efetiva os estados mergulhados numa crise fiscal. Mas em meio ao festival de grana curta, não faltou inspiração aos falcões, ao presidente e aos governadores para promover mais uma rodada de redução de impostos federais e estaduais aos ricos e às empresas.

Definida essa exibição de generosidade, as bordoadas sobraram para os de sempre. Desta vez, os escolhidos para bode expiatório do desarranjo provocado pela finança desvairada foram os sindicatos de funcionários públicos de Wisconsin. O projeto de lei enviado ao Legislativo pelo governador republicano Scott Walker, entre outras “benfeitorias”, elimina a negociação coletiva do rol de direitos dos trabalhadores. Para barrar a investida dos republicanos que, ademais têm maioria no Legislativo do estado, cerca de 70 mil professores, bombeiros e enfermeiras, apoiados por outras categorias de trabalhadores, manifestaram sua inconformidade com a lei diante da sede do Capitólio, em Madison, capital de Wisconsin.

No sábado 19 de fevereiro, a coisa engrossou: o deputado republicano Robin Voss menosprezou a força dos manifestantes e proclamou “o apoio maciço dos que não estavam na praça”. Um punhado de sequazes do governador Walker, gente sabidamente civilizada e cultivada do Tea Party, tentou uma contramanifestação gritando, “passem a lei, passem a lei”. Foram rapidamente cercados pela maioria que gritava “matem a lei, matem a lei” (kill the bill, kill the bill).

Walker joga pesado. Não aceita negociar com os funcionários. Sua intransigência incomoda muita gente no próprio Partido Republicano. Duro na queda, o governador mantém a recusa, a despeito dos sinais emitidos pelos sindicatos de que estão dispostos a fazer concessões. Argumenta o governador que nada tem na mão para ceder. “Assim como quase todos os estados americanos, nós estamos quebrados.” Depois de favorecer as empresas com uma redução de impostos de 117 milhões de dólares, Walker propôs, para cobrir o prejuízo, dobrar o valor da contribuição dos funcionários aos planos de saúde e um aumento substancial no pagamento dos planos de aposentadoria. Isso, naturalmente, além da supressão do direito à negociação coletiva. Os cálculos do Budget Office de Wisconsin asseguram que essas medidas vão proporcionar uma receita de 300 milhões de dólares em dois anos.

Os déficits que assolam os estados americanos nasceram, vou repetir, da forte recessão. Até os lêmures sabem que quando o nível de atividade afunda, o gasto privado sofre forte contração e a receita fiscal desmorona, como aconteceu nos Estados Unidos. A queda das receitas fiscais é acompanhada de aumento das despesas decorrentes de programas de proteção social que ainda conseguiram escapar à sanha antissocial dos conservadores americanos.

Bem disse Warren Buffett que os Estados Unidos atravessam um período de intensa luta de classes. “Só que os ricos estão ganhando”, concluiu o bilionário. A revista The American Prospect publicou uma edição especial sobre o declínio da classe média dos Estados Unidos e a descrença crescente da população na realização do sonho americano.

Há poucas dúvidas entre os especialistas a respeito da razão central da escalada- dos remediados para as camadas inferiores da pirâmide social: a perda de substância industrial da economia. A desindustrialização (palavra maldita para os conservadores) queimou milhões de postos de trabalho na manufatura e na malha de serviços que dá apoio aos complexos industriais. O transplante de fábricas para a China e outros rincões asiáticos destruíram o que Ian Fletcher chamou de ecossistema manufatureiro, isto é, as cadeias de fornecedores, as relações de clientela, os investimentos de longo prazo. “Desindustrialização”, diz ele, “não significa apenas despedir trabalhadores e derrubar edifícios. As indústrias ficam doentes e morrem de uma forma muito mais complicada”.

Até agora a “regressão” socioeconômica da classe média secretou mais ressentimentos do que reações políticas, o que engordou as legiões do conservadorismo fanático. Mas nem o fanatismo dos fundamentalistas cristãos americanos consegue sobreviver ao desemprego elevado, à raquítica criação de empregos de baixos salários, para não falar das famílias – milhões de pessoas – despejadas das residências retomadas pelos bancos. Os desalojados vivem em condições precárias. Alguns refugiaram-se na casa de parentes. Uma fração não desprezível sobrevive em trailers ou até mesmo nos automóveis, onde os desditosos dormem e fazem as refeições.

A sensação de que há algo de podre na Terra das Oportunidades começa a movimentar as frações mais atingidas pela crise. As pesquisas de opinião sobre o movimento dos trabalhadores de Wisconsin, realizadas no sábado 19, mostram que a opinião pública, mesmo os republicanos moderados, não só repudia majoritariamente a subtração de direitos como volta sua ira contra os verdadeiros responsáveis pela crise, os senhores do universo entrincheirados em Wall Street.

Em seu concorrido blog, Chris Weigand faz previsões tão sinistras quanto prováveis: “Estamos chegando muito próximos de uma situação em que os serviços públicos que cuidaram dos americanos por muitas gerações estão perto de desaparecer”.

PS: Usurpando a função dos repórteres, passei a indagar de conhecidos e outros nem tanto se, por acaso, tinham notícia do que ocorria no estado norte-americano de Wisconsin. “Provavelmente uma forte nevasca”, respondeu um cidadão que mastigava uma coxinha junto ao balcão da confeitaria. Esse, ao menos, sabia das condições climáticas da região.

À maioria esmagadora dos brasileiros, inclusive às classes médias e às abastadas, sempre presunçosas da excelência de sua formação e informação, foram subtraídas incompreensivelmente as notícias sobre os acontecimentos em Wisconsin, Indiana e Ohio. Nem fale da suspeita do risco iminente do movimento de protesto transbordar para outros estados americanos.