Arquivo mensais:março 2011

Entrevista: Dani Rodrik, um dos acadêmicos mais respeitados no debate sobre a globalização, diz que a liberalização de capitais e a pressão por mais abertura comercial foram longe demais.

“Está na hora de recuar”

O economista Dani Rodrik: muitas vezes um passo atrás no protecionismo “fortalece o sistema em vez de enfraquecê-lo”

 

O economista Dani Rodrik é, literalmente, uma criatura da política de substituição de importações. Em tom de brincadeira, ele costuma contar que foi o dinheiro da fábrica de canetas de seu pai, protegida pelo governo turco, que bancou as mensalidades na Universidade de Harvard. A Turquia abriu o seu mercado, mas a família ainda vende canetas. Só que agora fabricadas na China. Já Rodrik tornou-se um dos acadêmicos mais ouvidos – e respeitados – no debate sobre a globalização.

Crítico mordaz da hiperglobalização, Rodrik faz um ataque direto ao modelo econômico dos anos 1990 em seu livro recém-lançado nos EUA, “The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy”, sem data para publicação no Brasil. O autor diz que a liberalização de capitais e a pressão por mais abertura comercial foram longe demais. Está na hora de recuar.

Mas não se engane: Rodrik não quer o fim da globalização. Quer só uma versão mais leve e temperada com políticas que permitam aos governos nacionais estimular setores-chave e reestruturar suas economias. Se para isso for preciso reerguer algumas barreiras ou conceder subsídios, que seja. Para ele, essa será a única maneira de convencer a China a abandonar sua moeda desvalorizada e resolver o que ele considera o “maior risco” para a economia mundial atualmente.

Na entrevista que concedeu ao Valor, o professor de economia política internacional de Harvard também falou sobre o Brasil. De como o país deveria crescer 7% ao ano, mas parece ter “reduzido suas ambições” e considera 5% ao ano um sucesso. Sobre a necessidade de aumentar a poupança interna e investimentos e de como o primeiro passo seria uma política fiscal mais apertada. Abaixo, os principais trechos da conversa:

Valor: O presidente Barak Obama deve insistir na retomada da Rodada Doha em sua visita ao Brasil? Mais abertura comercial ajudará na recuperação da economia mundial?

Dani Rodrik: Não considero Doha uma prioridade. Na minha opinião, o risco mais sério para a economia mundial é a falta de coordenação macroeconômica e como lidar com os fluxos de capital que isso gera. Se não houver uma solução, isso poderá ter repercussões bastante negativas na forma de aumento do protecionismo nos Estados Unidos e outros países ocidentais.

Valor: O que deve ser feito para lidar com os desequilíbrios causados pela política monetária expansionista dos EUA e o yuan desvalorizado?

Rodrik: É importante haver avanços rápidos na direção de um sistema multilateral de supervisão de desequilíbrios externos. Os princípios seriam dados pelo G-20 e o trabalho mais técnico poderia ser feito pelo FMI. Minha proposta é que o Fundo tenha mais autoridade e poder de supervisão. Em compensação, a OMC teria que ser enfraquecida.

Valor: O que significa enfraquecer a OMC?

AP

Obama (foto) deve trabalhar para melhorar coordenação macroeconômica: “Se não houver solução, isso poderá ter repercussões negativas na forma de aumento do protecionismo nos EUA”, diz autor

Rodrik: A evolução das regras da OMC teve como efeito colateral indesejado fazer com que a China use moeda desvalorizada para sustentar o crescimento econômico. Então, se quisermos a cooperação dos chineses, será preciso dar espaço à China para que o país continue a se reestruturar por meio de políticas que atualmente a OMC não permite. Se quisermos mais disciplina nas políticas macroeconômicas, será preciso ter menos disciplina nas políticas micro.

Valor: O senhor se refere a políticas como subsídios e barreiras comerciais?

Rodrik: Acho que o acordo de subsídios da OMC é excessivamente rígido. Seria necessário abrir exceções, que não seriam exclusivas para a China, mas aplicadas também a países de renda média como o Brasil, por exemplo.

Valor: Mas isso não seria uma volta do protecionismo?

Rodrik: Muitas vezes um passo atrás fortalece o sistema ao invés de enfraquecê-lo. O risco de uma recaída protecionista é muito maior se continuarmos na direção em que estamos, se não entendermos que os países precisam de espaço para políticas internas. Se permitimos que países adotem políticas comerciais que entendem ser melhores para si, no agregado, teremos uma economia mundial relativamente saudável e aberta.

Valor: Em seu mais recente livro, o senhor critica o modelo de globalização dos anos 90. A globalização é ruim?

Rodrik: Depois da Segunda Guerra Mundial, o sucesso da economia mundial se apoiou num equilíbrio entre liberalização, comércio e finanças globais, mas também na garantia de espaço suficiente para que os governos nacionais adotassem medidas de estabilização, proteção social, políticas industriais e de reestruturação econômica. No começo dos anos 80, se iniciou o que chamo hiperglobalização. Um modelo em que a redução de barreiras comerciais e a liberalização de fluxos de capitais se tornou quase um fim em si mesmo e o papel das políticas governamentais passou a ser definido quase que unicamente sob a perspectiva do que era necessário para se integrar à economia mundial. A hiperglobalização teve duas consequências: ampliou o impacto e a severidade das crises financeiras e erodiu a legitimidade do sistema de comércio internacional.

Valor: O senhor defende uma globalização “light”. Trata-se de uma volta a barreiras comerciais e subsídios?

Rodrik: É uma questão de equilíbrio. As barreiras comerciais eram exageradamente elevadas nos anos 50 e 60 e foi extremamente positivo reduzi-las. Mas agora a maior parte dos países tem proteção relativamente baixa. Não acredito que haverá nenhum grande estrago no comércio mundial se os países elevarem essas barreiras na margem. Por outro lado, as restrições à mobilidade de mão de obra continuam tão elevadas hoje quanto eram as restrições ao comércio nos anos 50. Então, nesse caso, sou amplamente favorável a uma flexibilização marginal.

Valor: O senhor aconselharia os governos a desistir de Doha e a negociar mais mobilidade de mão de obra?

Rodrik: Absolutamente. Se os ministros iniciassem discussões sobre um sistema ampliado de vistos temporários de trabalho haveria ganho maior para a economia mundial do que qualquer coisa que esteja incluída na Rodada Doha atualmente.

Valor: Então é correta a noção de que a globalização reduziu salários e impôs custos muito elevados a populações normalmente mais pobres ao redor do mundo?

Rodrik: Não. A globalização teve efeitos bastante heterogêneos. Os países que jogaram bem o jogo da globalização se beneficiaram tremendamente. A China, por exemplo. Se o país conseguiu retirar 500 milhões de pessoas da pobreza extrema nos últimos 30 anos, foi em grande parte graças à globalização. Mas não só por isso. A China tem uma estratégia doméstica de crescimento que inclui a reestruturação e diversificação da economia baseadas no uso de políticas que são atualmente proibidas pela OMC ou pouco recomendadas por outros organismos internacionais. É uma estratégia bastante consciente de alavancar os ganhos da globalização por meio de políticas internas adequadas. Os países que têm uma estratégia doméstica de crescimento combinada com a globalização se dão bem. O grande erro de boa parte dos países da América Latina nos anos 80 e 90 foi presumir que abrindo suas economias, estabilizando a macroeconomia e privatizando, o crescimento econômico seria um processo automático.

“A hiperglobalização ampliou o impacto e a severidade das crises financeiras e erodiu a legitimidade do sistema de comércio internacional”

Valor: Brasil cometeu esse erro?

Rodrik: Em alguma medida. O Brasil não foi uma Argentina ou um México e de forma geral conseguiu resultados econômicos um pouquinho melhores. Mas eu diria que mesmo nas épocas boas e para um país com o potencial do Brasil, a economia tem tido um desempenho insatisfatório. E o Brasil, infelizmente, parece que reduziu suas ambições no que diz respeito ao que deveria ser sua taxa de crescimento.

Valor: Quanto o Brasil deveria crescer?

Rodrik: Algo como 7%. O Brasil ainda sofre as consequências de um período muito longo de turbulências e parece ter encontrado um certo equilíbrio na combinação de juros elevados e baixa taxa de investimento, o que faz com que seja difícil para a economia sair desse ciclo. É por isso que taxas de crescimento de 4% ou 5% são vistas como um sucesso.

Valor: O que deveria ser feito?

Rodrik: Uma coisa importante é mudar a relação entre poupança e investimentos no Brasil. Infelizmente, não sabemos muito sobre como elevar poupança e investimentos no curto prazo. O que se sabe, porém, é que o déficit fiscal é uma parte importante da poupança doméstica e o que puder ser feito para melhorar a situação fiscal terá um impacto positivo. A outra coisa que se sabe é que uma boa parte do aumento na poupança que é experimentado por países bem-sucedidos é resultado de maior crescimento econômico. O importante é iniciar uma espécie de ciclo virtuoso no Brasil, em que se comece com algumas políticas, incluindo uma política fiscal mais apertada que aumente a poupança doméstica. Isso abre espaço para quedas na taxa de juros que, por sua vez, reduzem a pressão no câmbio. Uma moeda mais competitiva viabiliza mais poupança, mais investimento e esse processo de crescimento realimenta um aumento na poupança doméstica.

Valor: Com um resultado abaixo do potencial, o senhor diria que a estratégia de crescimento de longo prazo do Brasil está errada?

Reutes

Reunião do G-20, em Paris, no mês passado: “É importante haver avanços na direção de um sistema multilateral de supervisão de desequilíbrios externos”, diz Rodrik

Rodrik: Diria que é uma estratégia OK, mas não excelente. Ainda é muito dependente do preço das commodities e é uma estratégia que traz resultados insatisfatórios. Uma economia como o Brasil não pode se satisfazer com taxas de investimento de 18% do PIB. O percentual deveria ser de pelo menos 23% do PIB.

Valor: A descoberta de petróleo na camada pré-sal expõe o Brasil aos mesmos riscos de economias como Venezuela e países do Oriente Médio, que apesar da riqueza não têm economias desenvolvidas?

Rodrik: O Brasil tem a vantagem de estar iniciando esse processo com economia já diversificada, o que reduz, mas não elimina, esse risco. O maior problema nesses booms de commodities é que, apesar de gerarem algum crescimento e considerável riqueza, as atividades econômicas que eles estimulam não absorvem muita mão de obra. É preciso que haja expansão em outros setores para criar empregos. Assim como outros países da América Latina, um dos problemas é que nos últimos 15 anos o Brasil não tem criado empregos suficientes nos setores mais avançados da economia.

Valor: O Brasil criou linhas de política industrial para desenvolver, por exemplo, a indústria naval e a de fornecedores do setor de petróleo e tem usado os empréstimos do BNDES para estimular a economia. Uma das críticas a esse modelo é que subsidia e escolhe vencedores, papel inadequado para o Estado. O senhor concorda?

Rodrik: A discussão sobre escolher ou não vencedores é muito antiquada e não é relevante. Segundo esse raciocínio, nenhum governo poderia ter políticas industriais e todos os países bem-sucedidos usam esses instrumentos. O importante é se o governo é flexível o suficiente, se monitora o que acontece, avaliando o destino do dinheiro usado e se é capaz de corrigir erros que fatalmente acontecerão. A questão não é se o governo deve ou não escolher vencedores, mas se é capaz de se livrar dos perdedores.

Valor: Essa discussão ganhou força depois da crise econômica mundial e remete ao papel que os Estados devem ter na economia. Qual o tamanho ideal do governo?

Rodrik: Devemos evitar a tentação de achar que o governo e o mercado são antagônicos ou substitutos. São complementares. Todos os países bem-sucedidos têm economias em que o setor público e privado colaboram. O governo é sempre um facilitador, principalmente em países de renda média ou baixa. Mesmo países desenvolvidos têm políticas industriais ativas. Os Estados Unidos, por exemplo, estão engajados no programa de política industrial mais caro da história com os estímulo ao desenvolvimento de tecnologias “verdes”. A diferença é que alguns países fazem isso melhor que outros.

Valor: É isso o que explica por que países como Brasil ou Turquia, que já tiveram subsídios, proteção a indústrias e altas barreiras comerciais, não se transformaram numa Coreia do Sul?

Rodrik: A diferença não é que o Brasil interferiu demais na economia e a Coreia do Sul, não. Os dois interferiram. Não é que a Coreia se voltou para a economia mundial e o Brasil, não. O Brasil, no fim dos anos 60, começou a abrir sua economia e se transformou num exportador. A explicação tem mais a ver com o Brasil nunca ter conseguido implementar uma política macroeconômica correta quando comparado com a Coreia do Sul. Nos anos 80, o que na Coreia foi uma crise de um ano, no Brasil foi uma década.

Valor: A crise econômica mundial também mudou o debate sobre regulação bancária e de fluxos de capitais. Regras mais rígidas vão evitar uma nova bolha?

Rodrik: Até poderiam se entendêssemos que países diferentes têm necessidades também diferenciadas sobre como devem regular seus sistemas bancários e se a imposição de padrões globais de requerimentos de capital e métodos de regulação não tivessem se transformado num fetiche. Neste momento, estamos indo na direção errada.

Valor: Por quê?

Rodrik: As discussões presumem se as autoridades nacionais estabelecerem regras e métodos de regulação criarão custos de transação para bancos que estão operando em diferentes países e, portanto, que devemos estabelecer sistemas harmonizados de controle. Isso vai levar a regras fracas e frouxas que expressam um mínimo denominador comum. Já vimos isso acontecer com as propostas de Basileia 3, que não são suficientes.

Valor: Nesse cenário, como evitar a arbitragem regulatória?

Rodrik: É preciso reconhecer que todo país tem direito de interferir nas operações financeiras transnacionais quando o propósito for garantir a integridade de seus sistemas nacionais. Não é diferente de quando algum país exporta brinquedos e o importador impõe padrões de saúde e segurança. O capital internacional é extremamente volátil, mas não há nenhuma razão pela qual os governos não possam impor restrições a bancos estrangeiros operando em mercados domésticos.

Valor: O Brasil tem usado medidas de controle de capital para lidar com o aumento dos fluxos financeiros. Essas medidas, que até pouco tempo eram malvistas pelos economistas, voltaram a fazer sentido?

Rodrik: Os controles de capital podem ajudar na transição, mas sem políticas que aumentem os investimentos, a poupança interna e reduzam as taxas de juros no Brasil, nenhum controle de capital conseguirá resolver o problema.

Valor: Em seu livro, o senhor critica os economistas pelo papel intelectual que tiveram na crise financeira. Qual a parcela de culpa de vocês?

Rodrik: Quando os economistas foram para Wall Street e Washington, se esqueceram dos modelos sobre bolhas, assimetria de informações, incentivos distorcidos, risco moral e instituições grandes demais para falir que são conhecidos e estudados em economia. Venderam um só modelo, sobre mercados eficientes e autorregulação. Se os economistas não tivessem esse discurso, acho que os bancos não teriam sido capazes de capturar a agenda como o fizeram, porque não teriam a mesma legitimidade. Ao mesmo tempo, se os economistas não tivessem o interesse dos bancos por trás, essas seriam apenas mais uma das ideias. Houve uma combinação infeliz de ideias e interesses.

“The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy”

De Dani Rodrik. W. W. Norton & Company, 368 págs., US$ 26,95.


 

Liga Árabe distancia-se da operação contra a Líbia

No final da reunião deste domingo, no Cairo, com uma delegação do Parlamento Europeu, o secretário geral da organização, Amr Moussa, afirmou que a Liga Árabe não pediu um ataque por parte da comunidade ocidental.

“Pedimos ao Conselho de Segurança para estabelecer uma zona de exclusão aérea para proteger os civis e a criação de áreas seguras onde os civis possam refugiar-se sem ser atacados. Sobre os acontecimentos militares de hoje, não tenho qualquer informação, por enquanto”.

As reações à operação “Odisseia Amanhecer” são as mais diversas. O primeiro-ministro turco pede o fim imediato da violência e afirma que Kadafi está em “contradição consigo próprio” ao dizer que não detém nenhuma posição oficial. “Se não tem nenhuma posição oficial, deveria deixar a Líbia a quem tem legitimidade”, defende.

A Rússia, que se absteve de votar a resolução das Nações Unidas que deu luz verde à criação da zona de exclusão aérea, pede à Grã-Bretanha, França e Estados Unidos que parem de bombardear alvos não militares na Líbia, referindo que já foram mortos 48 civis e 150 ficaram feridos.

Também a China lamenta os ataques e defende a estabilidade na Líbia o mais depressa possível.

A China, juntamente com a Rússia, a Alemanha, a Índia e o Brasil não apoiam a intervenção mas não exerceram o direito de veto contra uma resolução que autoriza “todas as medidas necessárias” um termo da diplomacia para “ação militar”.

 

Para além da austeridade

Os economistas neoliberais fracassaram em prever a crise e não apresentaram solução quando ela eclodiu. Além disso, defenderam políticas que contribuíram com a crise. Então, por que os mitos neoliberais ainda dominam? A maior de todas as mentiras – repetida sem parar pelos economistas neoliberais e pela mídia dominante – é a afirmação de que se os governos cortam seus gastos, o setor privado vai se arranjar para tapar o buraco. Essa loucura é repetida por um coro midiático constante, financiado pelo lobby conservador, por meio de grupos de interesse e seus economistas universitários. A austeridade vai agravar a crise, porque está construída numa mentira. O artigo é de William Mitchell.

William Mitchell – The Nation

Quando o presidente Obama anunciou, em dezembro de 2009 que “nós não temos dólares o suficiente para tampar o buraco dos dólares privados, aberto como consequência da crise”, o líder da maior economia no mundo disse-nos que, a despeito de ter causado a pior crise econômica em oito anos, o neoliberalismo ainda dava firmemente as cartas. A crise econômica global pode levar a crer que a promessa neoliberal – de que os mercados podem se autorregular e promover prosperidade sustentável para todos – era uma mentira. Mas isso não parece ter sido percebido pelos governos, os quais, sem exceção, construíram suas respostas para a crise numa série de mitos – os mesmos mitos que a causaram. Mesmo que milhões permaneçam sem emprego e que os índices de pobreza estejam subindo, os governos disseram que não há alternativa que não impor a austeridade, cortando os déficits orçamentários.

Nos Estados Unidos e em muitas partes da Europa – seja no governo ou na oposição – a dominação inquestionável da ideologia neoliberal reduziu o debate econômico a questões de nuances. Os conservadores recusam o aumento de impostos e querem mais cortes nos gastos, enquanto os progressistas defendem a combinação entre cortes de gastos e aumento de impostos. Essa homogeinização do debate político não somente asfixiou as vozes progressistas; ela também obscureceu a única via confiável de recuperação.

O que começou como um problema de insustentabilidade do crescimento da dívida avançou para uma perda de controle do setor privado, incentivado pela desregulação governamental, transformou-se misteriosamente numa suposta crise nacional de dívida. Quando o gasto privado colapsou em 2007-08, os déficits orçamentários (gastos públicos menos impostos) conseguiram superar as agruras. Agora, os conservadores, alguns dentre eles que foram diretamente beneficiados pelo pacote de resgate dos bancos nos primeiros dias da crise, dizem-nos que nossos governso estão na bancarrota, que nossos netos serão escravizados pelo fardo do aumento do déficit público e que a hiperinflação é iminente. Os governantes estão sendo pressionados a cortar os déficits, a despeito da forte evidência de que o estímulo público tem sido a maior fonte de crescimento econômico durante a crise e que o gasto privado permanece opaco.

A austeridade vai agravar a crise, porque está construída numa mentira. Os déficits públicos não causam inflação, nem impõem dívidas pesadas paralisantes sobre nossas crianças e nossos netos. Déficits não fazem com que as taxas de juros subam, mas sufocam o gasto privado. Os governos não podem sair atrás de dinheiro. A maior de todas as mentiras – repetida um sem número de vezes pelos economistas neoliberais e ecoadas acriticamente pela mídia dominante – é a afirmação de que se os governos cortam seus gastos, o setor privado vai se arranjar para tapar o buraco. A campanha pela austeridade do primeiro ministro britânico, David Cameron e o anúncio dos cortes orçamentários do presidente Obama estão erguidos nessas mentiras.

A narrativa neoliberal tem de lidar com alguns fatos inconvenientes. As taxas de juros permanecem baixas e os governos – até mesmo os extremamente envoltos em problemas, como os da Grécia e da Irlanda – não deixaram de honrar suas dívidas. Na maior parte do mundo desenvolvido a inflação está caindo, e onde está subindo, isto se deve à elevação de custos energéticos e dos alimentos, em vez de a déficits excessivos. Mais ainda, a despeito do que se possa dizer em público e do que se possa exigir dos governos, as ações privadas dos banqueiros mostram que eles sabem bem – por que outro motivo a preferência por ações de longo prazo perseveram em baixa histórica? Ainda assim as conversações públicas sejam vistas como desinformação, paralisia dos políticos, enquanto o interesse público é sacrificado e uma geração de desempregados esteja emergindo.

Mas não há uma crise de dívida soberana na Europa? Verdade, as nações signatárias da Zona do Euro renderam sua soberania econômica individual – usam uma moeda que não emitem e assim tem de pedir empréstimos para cobrir déficits, que os tornam dependentes do mercado de ações e então de fato os põe em risco de insolvência. Os eventos da Grécia e da Irlanda dão testemunho desse fato. Mas esse problema repousa na concepção equivocada do sistema monetário do euro, que foi uma manobra neoliberal para limitar a capacidade desses governos de emprestar e pedir emprestado. As nações da zona do euro são uma exceção à regra de que governos modernos – como os EUA e a Grã Bretanha – não podem fugir do dinheiro e nunca desonrarão sua dívida pública.

Como chegamos até aqui?
A Grande Depressão nos ensinou que sem a intervenção do governo o capitalismo é inerentemente instável e tende a promover extensos períodos de desemprego. A ortodoxia hooveriana dos orçamentos equilibrados, tentada ao longo dos anos 1930 fracassou. O pleno emprego só veio com a chegada da Segunda Guerra, quando os governos gastaram deficitariamente em função dos esforços de guerra. O desafio era como manter o pleno emprego no período de paz.

Os governos ocidentais entenderam que com o gasto deficitário suplementando a demanda privada, eles poderiam assegurar que todos os trabalhadores que quisessem trabalhar encontrariam empregos. Todas as vertentes políticas [de então] aceitaram esse compromisso como uma responsabilidade coletiva da sociedade. Como resultado, na maioria do ocidente perseveraram níveis muito baixos de desemprego, até a metade dos anos 70. Enquanto o crescimento do emprego estava relativamente forte neste período, os governos mantiveram frentes de trabalho para a mão de obra menos formada. Estes empregos eram encontrados nas grandes obras, rodovias, serviços públicos locais e equipamentos de infraestrutura do governo. Ao absorver esses trabalhadores que perdiam o emprego quando o investimento privado declinava, os governos agiram como uma válvula de segurança econômica. Além disso, os sistemas de bem estar providenciaram renda e outros serviços públicos (como saúde e educação) a cidadãos necessitados. Mesmo havendo diferenças significativas entre as nações no que concerne a esses sistemas de proteção, todos compartilhavam a perspectiva de que o Estado tem um papel ao providenciar a segurança econômica dos cidadãos.

No entanto, houve resistência conservadora à disposição de déficits orçamentários crescentes no fim dos anos 60, particularmente nos EUA, uma vez que esse uso geraria pressão inflacionária implícita por causa do gasto associado à Guerra do Vietnã. E os conservadores acreditavam que os sindicatos tinham se tornado muito poderosos. Mas o consenso quanto ao pleno emprego não colapsou até que a esclada inflacionária se seguisse à crise dos preços do petróleo nos anos 70. Isto marcou o começo da era neoliberal, que dominou o debate político desde então.

Em vez de um fracasso do sistema em criar empregos suficientes, uma ideia que escorou o consenso do New Deal, o desemprego em massa foi agora descrito como um problema individual – atitudes tíbias levam à ausência de busca por emprego – exacerbado pelo generoso sistema de pagamentos do estado de bem estar. Os políticos também adotaram a teoria neoliberal do desemprego, que afirma que o estilo keynesiano de gasto não poderia mais manter o baixo desemprego sem causar inflação. O governo só poderia reduzir esse “evento natural do desemprego” era tornar o mercado de trabalho mais livre. Então, se os governos estavam insatisfeitos com o nível de desemprego, a sua única alternativa era tornar mais difícil para os trabalhadores obterem benefícios trabalhistas associados aos salários, bem como eliminar outras “barreiras” para contratar e demitir (por exemplo, regulações injustas dos procedimentos em caso de desemprego). Os ataques às centrais sindicais e às proteções estatutárias dos trabalhadores começaram cedo.

Essas mesmas ideias conduziram ao fracasso das políticas que levaram à Grande Depressão. Mas a história é facilmente esquecida, e com o apoio dos grandes negócios e da mídia cooptada, uma mudança de paradigmas na academia permeou os círculos políticos. Enquanto o trem neoliberal engatava no ritmo, o debate se tornou focado nas assim chamadas “reformas microeconômicas”: cortar gastos do setor público de empregos e dos programas sociais, desmantelando o que se acusava de obstáculos trabalhistas (como as regulações da relação de trabalho, a política do salário mínimo, o sistema de pagamentos da Previdência Social e coisas do tipo). A privatização e a terceirização acompanharam essas mudanças políticas.

A política fiscal (gastos com a receita dos impostos para obter ganhos sociais) foi ativamente durante a época do pleno emprego, com uma política monetária (o poder do governo de fixar as taxas de juros) sendo considerada menos eficiente. O ataque neoliberal ao uso da política fiscal começou nos anos 70 com o nascimento do monetarismo. Os políticos abraçaram as ideias de Milton Friedman, ao afirmar que o único objetivo deveria ser controlar o fornecimento de moeda para administrar a inflação.

Embora vários experimentos de controle da emissão de moeda tenham fracassado tristemente nos anos 80 (lembram a Reaganconomics?), a prevalência da política monetária nos meios dominantes econômicos foi total. A política fiscal foi demonizada por ser inflacionária e seu uso, evitado, privando governos de inclinação liberal das ferramentas de avanço de uma agenda mais progressista.

As justificações públicas giravam todas em torno da criação de mais empregos e da redução da pobreza, mas a realidade era diferente. Desde 1975, a maioria das nações fracassou em criar empregos suficientes para preencher sua força de trabalho.

O ataque à regulação e aos direitos dos trabalhadores trouxe à tona um crescimento da decalagem entre produtividade do trabalho e crescimento real dos salários. O resultado tem sido uma dramática redistribuição da renda nacional em direção ao capital, na maioria dos países. Por exemplo, nos países do G7, entre 1982 e 2005 houve uma queda de 6% na distribuição da renda nacional paga como salários (oposta ao lucro ou a dividendos). Essa foi uma tendência global.

No passado, o salário real crescia em linha com a produtividade, assegurando que as empresas poderiam atender às suas expetativas de lucro por meio das vendas. Com os salários defasados aquém do crescimento da produtividade, foi preciso encontrar um novo jeito de manter os trabalhadores consumindo. O truque foi encontrado no surgimento da “engenharia financeira”, que pressionou ainda mais o aumento do endividamento na economia familiar. Os capitalistas achavam que podia sustentar salários e renda com bônus na forma do pagamento de juros – enquanto também esmagavam o crescimento do salário real. O setor doméstico, atraído pelas baixas taxas de juros e pelas implacáveis estratégias de marketing do setor financeiro, embarcaram na farra do crédito.

O aumento da circulação de dinheiro empacotado pelo capital se tornou um risco barato para a rápida expansão e a desregulação do setor financeiro. Os governos diziam que isso poderia gerar riqueza para todos. E por um período, a riqueza nominal cresceu – embora sua distribuição não tenha se mostrado equitativa. No entando, a ganância é o melhor dos banqueiros, enquanto incentivam o aumento da dívida com risco em direção de pessoas claramente suscetíveis à bancarrota. Essa foi a origem da crise dos subprime de 2007-08.

O Mito da Austeridade
A agenda conservadora para desmantelar os direitos dos trabalhadores foi interrompida pela crise financeira global – a qual também abriu nossos olhos para a importância do gasto governamental na forma de estímulos fiscais ou de pacotes de resgate. Antes da crise neoliberal os economistas e políticos diziam que o papel dos governos deveria ser limitado a liberar a ação dos mercados via desregulação. Com o desemprego visto como um problema individual, os neoliberais argumentavam que os governos não deveriam tentar reduzir o desemprego com o aumento do gasto público ou com a redução de impostos. De fato, os neoliberais diziam que quando governos mal orientados tentaram diminuir o desemprego dessa maneira eles só geraram um mal maior – causando inflação e aumentando o déficit público e o fardo sobre os contribuintes (agora e depois).

Quando o pior da crise recente se abateu, os neoliberais lançaram uma propaganda massiva para reforçar sua tese de que os déficits orçamentários são ruins e deveriam ser evitados. A austeridade é agora vista como inevitável. Mas alguma dessas coisas é verdade? A resposta curta é não, mas isso requer uma explicação cuidadosa, porque os argumentos neoliberais contra os déficits – ao menos alguns deles – são sedutores.

Os neoliberais dizem que os governos, como as economias domésticas, têm recursos limitados. Dizem que os déficits orçamentários tem de ser “repagos” e isso demanda fardos futuros em tributos, que forçariam nossas crianças e netos a pagarem pela nossa perdulariedade. Eles argumentam que os empréstimos governamentais (para assegurar “recursos” aos déficits) compete com o setor privado pelos escassos recursos e então conduz à elevação na taxa de juros, o que reduz o investimento privado – hipótese excluída. E, porque os governos não são sujeitos à disciplina do mercado, dizem os neoliberais, o uso público dos recursos escassos é perdulário. Finalmente, eles afirmam que os déficits exigem a emissão de moeda impressa, procedimento inflacionário.

Mas eles vão mais além que isso. Dizem que, à parte esses impactos supostamente negativos, os déficits não são necessários para se alcançar os objetivos dos keynesianos. Costumava ser tomado como algo não controverso que os déficits governamentais poderiam estimular a produção ao aumentar o gasto global, quando as economias domésticas e as empresas relutassem em gastar. Numa bizarra reversão de lógica, os neoliberais falam numa “expansão da contração fiscal” – quer dizer, ao cortar o gasto público, vai ocorrer mais gasto privado. Esse juízo vem junto com o nome sofisticado de “Equivalência Ricardiana”, mas a ideia é simples: consumidores e empresas são supostamente assombrados pelo fardo do aumento futuro de impostos (necessário, prossegue o argumento, para o pagamento desses déficits massivos) que eles aumentam a poupança hoje para poderem arcar com os impostos no futuro. O aumento do gasto do governo vem junto portanto da redução do gasto privado – gerando um impasse. Mas, argumentam os neoliberais, se os governos anunciam medidas de austeridade, o gasto privado aumentará por conta da confiança coletiva em que as futuras obrigações tributárias será mais baixa e em que o crescimento econômico retornará.

A política econômica é hoje claramente comandada por essa ideia de que a austeridade é boa. O único problema é que nenhuma das proposições em que a austeridade se baseia é verdadeira.

É difícil expor os mitos subjacentes porque as asserções estão moldadas num jargão opaco. Além disso, a linguagem da austeridade arraigou-se no debate público ao longo de décadas de má-educação e grosserias via Fox News e coisas do tipo. Essas redes de tevê promovem políticos conservadores e agridem os que desafiam seus pontos de vista. Quem quer que ouse advogar o aumento dos déficits é excomungado como sendo incompetente ou um socialista perigoso. No entanto, o fato de tanto se berrar que os déficits públicos são ruins, não os torna ruins.

Quando o primeiro ministro britânico David Cameron disse que o déficit público era exatamente como uma dívida de cartão de crédito e que a Grã Bretanha estava diante da bancarrota, ele estava invocando a falsa analogia neoliberal entre orçamentos nacionals e domésticos. Essa analogia ressoa fortemente nos eleitores, porque tenta relacionar as mais amorfas finanças de um governo com nossas finanças domésticas cotidianas. Nós sabemos que não podemos rolar nossa dívida doméstica para sempre e que temos de apertar nossos cintos quando nossos cartões de crédito estouram o limite. Podemos fazemos empréstimos para remediar as despesas imediatas, mas eventualmente temos de sacrificar os gatos para pagar débitos pendentes. Intuitivamente entendemos que não podemos viver indefinidamente além de nossas possibilidades. Os neoliberais traçam uma analogia entre essas duas coisas porque sabem que julgaremos os déficits públicos como temerários. Mas o governo não é uma casa. Ele pode gastar consistentemente mais do que recebe porque é quem cria a moeda. Enquanto as casas têm de poupar (gastar menos do que se recebe) para gastar mais no futuro, os governos podem adquirir o que quiserem, quando houver bens e serviços para vender na moeda que emitem. Superávits orçamentários não fornecem maior capacidade aos governos de atenderem às necessidades futuras, nem déficits orçamentários erosionam essa capacidade. Os governos sempre tem capacidade de gastar em suas próprias moedas.

Por que? Porque são emissores de suas próprias moedas, governos como o britânico, o dos EUA, do Japão e da Austrália não podem jamais esgotar seu dinheiro. O presidente Obama estava errado ao sugerir outra coisa. A maioria das pessoas não sabe que ocorreu um histórico maior em 1971, quando o presidente Nixon abandonou o que vinha sendo chamado de padrão-ouro. Sob o sistema monetário, o qual durou oitenta anos (com intervalos durante guerras), as moedas eram convertíveis em ouro, as taxas de câmbio eram fixadas e os governos podiam expandir seu gasto apenas à medida que aumentavam os tributos, ou pediam empréstimos do setor privado. Depois de 1971, os governos passaram a emitir suas próprias moedas, que não eram mais convertíveis em coisa alguma de valor e flutuavam e eram comercializadas livremente em mercados de moedas estrangeiras. A maioria das nações passaram desde então a operar o “sistema monetário fiat”, e como resultado os governos nacionais não puderam mais arcar com seus gastos. O nível de liquidez no nistema não é limitado pelo seu estoque de ouro, nem de coisa alguma.

Por que, então, os governos pedem emprestado? Sob o padrão ouro os governos tinham de pedir emprestado para gastar mais do que sua receita. Mas desde 1971 essa necessidade prescreveu. Hoje os governos emitem títulos da dívida para cobrir seus déficits apenas como resultado da pressão dos neoliberais sobre eles, para restringir os gastos. Os conservadores sabem que o aumento do endividamento público pode ser politicamente manipulado e demonizado, e eles fazem isso para frear o gasto público. Mas não há necessidade operacional de emitir títulos da dívida no sistema monetário fiat. Curiosamente, os conservadores, quando se trata de dívida pública, são esquizoides: emprestar promove bem estar às corporações na forma do risco-zero do fluxo de rendimentos aos ricos, porque lhes permite investir em fundos de ações seguramente, durante períodos de incerteza e fornece risco zero como termos de comparação para precificar produtos financeiros mais arriscados. O fato de que os rendimentos proporcionais por títulos tenha permanecido baixo ao longo da última crise econômica (refletindo a forte demanda pela dívida pública) diz a você que o mercado parasita de ações não confia na retória neoliberal. Eles sabem que os governos nacionais (fora da eurozona) não têm risco de solvência.

Zimbabwe! Sim, a música de Bob Marley. Mas também se tornou a única resposta que os conservadores usam para amedrontar-nos, fazendo-nos acreditar que os déficits causam hiperinflação (o mesmo choro usado durante a República de Weimar!). A realidade é esta: se a economia está operando a plenos pulmões – o que significa que não pode produzir mais nenhum produto – então as tentativas do governo de expandir o gasto causará inflação. Ao apoiar o gasto numa economia sem capacidade de arcar com eles, os déficits induzem mais produção, em vez do aumento de preços, desde que as corporações estejam felizes em atender à demanda crescente.

Os déficits aumentarão as taxas de juros! Isso é engraçado porque os déficits têm aumentado drasticamente nos últimos anos, enquanto as taxas de juros permanecem próximas a zero. O Japão vem experimentando grandes déficits desde que seu mercado imobiliário colapsou, no início dos anos 1990 e tem se mantido em zero, com baixa inflação desde então. A mentira neoliberal esquece de mencionar que o Banco Central fixa as taxas de juros, não o mercado. O que os neoliberais não contam a você é que quando os déficits governamentais estimulam o crescimento, a poupança também cresce, como resultado do aumento da renda. Assim, a afirmação de que credores privados e públicos competem por uma quantidade finita de poupança é uma mentira. Longe de tirar os fundos dos investidores, os déficits expandem a quantidade de poupança disponível. Os neoliberais também mentem a respeito do modo como os bancos funcionam. Qualquer crédito privado que valha a pena pode ser obtido dos bancos. Empréstimos bancários criam depósitos, os quais podem ser levantados quando os bancos emprestam aos tomadores. Sim, os bancos necessitam de reservas para lastrear seus empréstimos, mas também sabem que o Banco Central sempre vai fornecer essas reservas, em caso de os bancos fracassrem em atrair os fundos necessários de outros recursos. Então, o empréstimo privado não está contraído pela existência de poupanças. Emprestar tipicamente aumenta a renda, o que aumenta a poupança.

E quanto à afirmação central de que o governo britânico tem propagandeado para justificar a austeridade – de que o gasto do setor privado aumentará se os déficits forem cortados? Todas as evidências mostram que as companhias estão atualmente muito pessimistas e não expandirão emprego nem produção até virem forte crescimento na demanda por seus produtos. Os consumidores também estão pessimistas, porque estão preocupados em perder seus empregos. Também estão pesadamente endividados e tentando poupar para reduzir os riscos, em caso de desemprego. Cortar os gastos públicos só vai aprofundar o pessimismo. A maior das mentiras neoliberais denega a psicologia humana.

Os indicadores mais recentes da Inglaterra – crescimento da pobreza aparece e pesquisas indicam pessimismo crescente dentre as empresas privadas e consumidores – já estão minando o núcleo da coalizão governamental da austeridade estratégica. A única maneira da economia crescer é se as companhias se expandirem em resposta ao crescimento da demanda por seus produtos. Quando a demanda privada é frágil, a única maneira de aumentar o crescimento é o gasto do governo, via déficits. A austeridade vai apenas retirar a tábua de salvação que tem mantido as economias crescendo no ano passado e recentemente.

Finalmente, o tamanho do déficit nunca deve concernir à política. A sustentabilidade fiscal é definida pelo mito da austeridade em termos de alguma razão financeira arbitrária (relação dívida/PIB, etc.). Mas na verdade os déficits deveriam ser o que quer que fosse exigido para manter o gasto global em níveis consistentes com o pleno emprego. Nem mais, nem menos. A sustentabilidade fiscal diz respeito à capacidade do governo de arcar com a responsabilidade de manter uma sociedade inclusive, na qual todos que queiram trabalhar possam.

A continuidade do domínio conservador
Os economistas neoliberais e seus apoiadores fracassaram em prever a crise recente e não apresentaram solução efetiva quando ela eclodiu. Organizações como o FMI e a OECD defenderam políticas que contribuíram com a crise. Então, por que os mitos neoliberais ainda dominam? E como pôde o governo britânico ser capaz de impor austeridade, quando os indicadores são de que isso causará danos severos à economia?

Se você dá um passo para fora do mundo mítico neoliberal, é fácil ver como a crise ocorreu. É fácil entender por que tem havido alto desemprego persistente e crescente desigualdade, e por que a distribuição de renda se moveu dramaticamente em favor do capital. É também fácil entender a emergência da dominação do setor financeiro e a proliferação de produtos financeiros que recentemente colapsaram, quando os bancos abandonaram quaisquer noções razoáveis de risco, em busca de superávits ainda maiores para seus já enriquecidos proprietários. O problema repousa nos governos – no seu fracasso em regular adequadamente e em usar sua capacidade fiscal de assegurar que há empregos suficientes.

A mais recente crença religiosa na autorregulação dos mercados promoveu políticas que permitiram que a lógica inerente do capitalismo explodisse. Os governos abandonaram seu papel estabilizador como intermediários entre o trabalho e o capital. Em vez disso, cativos do setor financeiro, apoiaram perigosas e em alguns momentos desonestas práticas bancárias.

Cegos pela nossa vontade de nos esbaldar em consumo, graças ao aumento no nível do crédito empurrados sobre nós pela ganância dos bancos, nunca nos foi dito que nossos representantes estavam sacrificando nossos interesses de longo prazo ao promoverem os interesses de curto prazo do capital. Também caímos no conto da velha política, de dividir para conquistar. Os pobres foram tomados como os detritos preguiçosos nessa nova era de empreendedorismo. O desempregado era sempre vilipendiado como fracassado – o que sugere que o resto de nós é bem sucedido -, mesmo se o sucesso for medido em termos do tamanho de suas casas e acompanhado da parafernália com que se poderia arcar.

Essa loucura foi dada como um sentido de legitimidade por um coro midiático constante, sustentado pelo muito bem financiado lobby conservador, por meio de grupos de interesse de alta reputação intelectual, endossada por economistas universitários. O dinheiro comprou o acesso à mídia nacional, enquanto as vozes progressistas lutavam para ser escutadas. Esse é o poder desses lobbys e porta-vozes, de modo que mesmo sendo sua abordagem completamente desacreditada desde a crise, os neoliberais permanecem no controle da agenda política e tornaram o que era claramente uma crise de dívida privada numa suposta crise de dívida soberana.

Em parte, os neoliberais retiveram seu poder porque a oposição tem estado fraca e fragmentada. Os progressistas tem geralmente sido relutantes quando se trata contestar as mentiras triunfantes relativas aos déficits orçamentários e ao endividamento público que estariam conduzindo a pressão pela austeridade. Há um medo dentre os progressistas de que eles venham a ser pintados como perdulários, caso defendam déficits maiores. Eles também tentam frequentemente parecer “razoáveis”, quando dizem que farão superávits orçamentários mais evidentes, sem entender que o esforço pelo superávit é o problema. No auge da crise, o crescimento econômico foi puxado majoritariamente pela extravagância de crédito. O aumento subsequente do endividamento era realmente insustentável.

Basicamente as economias capitalistas requerem déficits públicos contínuos para suportar o crescimento e permitem níveis sustentáveis de endividamento. Nós perdemos esse equilíbrio no período que precedeu a crise. Esse se tornou o dogma central a ser atacado pelos progressistas.

Em vez disso, os progressistas permanecem propondo todo tipo de compensação – como “fazer os ricos pagarem” -, que pode soar justo mas não chega ao coração do problema. Mudar a relação entre gasto público e taxação pode ser o caso para fins equitativos, mas se há uma deficiência global no gasto e o setor privado reluta em aumentar o gasto, então os problemas macroeconômicos prioritários de enfrentar o desemprego e a pobreza que o acompanha não serão resolvidos sem o aumento do déficit público.

Com algumas exceções bastante conhecidas (por exemplo, Joseph Stiglitz, Paul Krugman e William Greider), os progressistas acham que a defesa do ajuste fiscal faz com que eles apareçam como responsáveis. O que eles não conseguem ver é que sua postura econômica mina fortemente sua capacidade de buscar o esclarecimento social e políticas ambientais.

O que deve ser feito?
A austeridade não é a única alternativa. As grandes economias estão sofrendo com um colapso do gasto privado e um excedente de dívida privada. Os consumidores não gastarão se tiverem medo de desemprego; as empresas não contratarão e nem venderão se as vendas estacionarem. Desemprego persistente significa que nossas economias renunciaram a produzir massivamente e às oportunidades de renda. O desemprego também causa outros problemas, como as destruições das famílias, o aumento do consumo de álcool e do abuso de drogas, o aumento nos índices de criminalidade e das migrações. Uma economia com alto nível de desemprego não é saudável. A austeridade agravará o desemprego. Isso leva ao apelo pela crença de que um governo confiante no progresso do bem estar de seus cidadãos irá deliberadamente introduzir políticas que forçará o seu povo sem problema de emprego.

Enquanto o gasto privado for tênue, a necessidade maior é expandir os déficits públicos. Esse é o único jeito de as economias avançadas terem crescimento econômico numa velocidade suficiente para absorver a grande quantidade de desempregados. A inflação está baixa, e há um espaço considerável na economia para ser habitado pelo uso produtivo através de estímulos governamentais futuros. A obsessão atual com o controle da inflação e com a austeridade (usando o desemprego para disciplinar a demanda de salários) tem um alto custo.

Ao defender estímulos fiscais futuros, eu usaria o aumento do gasto público diretamente para o foco na criação de empregos. Introduziria um programa de emprego público por um período indefinido – uma política de emprego garantido – que ofereça um emprego de salário (mínimo) para quem quiser trabalhar mas não encontra emprego. Esses empregos não “desligariam o botão da contratação”, no sentido de que os salários mínimos não estariam competindo com a estrutura de salários do mercado. Ao não competir com o mercado privado, o programa de Emprego Garantido evitaria as tendências inflacionárias do keynesianismo fora de moda, que tentou manter a plena capacidade de utilização, “desligando o topo” (fazendo aquisições no mercado de preços e competindo por recursos com todos os elementos de demanda).

O programa de garantia de empregos faria com que os trabalhadores aproveitassem a estabilidade de renda, e seu gasto crescente iria impulsionar a confiança na economia e ajudar na recuperação do gasto privado. Não há razão para que os governos não possam arcar com esse programa. O mercado de trabalho está disponível para o trabalho, e o governo pode facilmente fornecer os empregos. Não houve questionamento quando o governo, nos primeiros dias da crise, providenciou instantaneamente bilhões para os bancos. Deixem-me repetir: o governo não tem restrição financeira no seu gasto e deveria alocar imediatamente recursos para um programa de criação massiva de empregos.

O crescimento sustentável exige que o setor privado poupe ao máximo e evite sempre o aumento dos níveis de endividamento. É possível que uma forte rede de exportações permita altos níveis de atividade doméstica, tanto em termos de poupança privada como de orçamento público com superávit. Mas essa situação não pode ser sustentada por todos os países. Normalmente, serão exigidos déficits públicos. Os progressistas deveriam para de pedir desculpas por eles.

(*) William Mitchell é professor pesquisador de economia no Centro Para o Pleno Emprego e a Equidade da Universidade de New Castle, Austrália. Entre outras atividades, acadêmicas e não acadêmicas, mantém um blog de Pensamento Econômico Alternativo.

Tradução: Katarina Peixoto

 

Reflexão de Fidel Castro: Os sapatos me apertam

Em mais uma de suas Reflexões, o comandante da Revolução cubana, Fidel Castro, comenta com fina ironia o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos no Chile, na última segunda-feira (21). Aproveitou para comentar sobre o papel que desempenhou à frente de seu país e reiterou: ” Continuarei sendo um soldado das ideias, enquanto possa pensar e respirar”.

Enquanto os reatores sinistrados despejam fumaça radiativa no Japão, e aviões de monstruosa aparência e submarinos nucleares lançam mortíferas cargas teleguiadas sobre a Líbia, um país norte-africano do Terceiro Mundo com apenas seis milhões de habitantes, Barack Obama contava aos chilenos uma fábula parecida com as que eu escutava quando tinha quatro anos: “Os sapatos me apertam, as meias fazem calor; e o beijinho que me deste levo no coração”.

Alguns de seus ouvintes ficaram pasmos naquele “Centro Cultural” em Santiago do Chile.

Quando o presidente mirou ansioso o público depois de mencionar a pérfida Cuba, esperando uma explosão de aplausos, houve um silêncio glacial. Às suas costas – Ah! Feliz coincidência! – entre as demais bandeiras latino-americanas, estava exatamente a de Cuba.

Se por um segundo desse uma volta sobre seu ombro direito, teria visto, como uma sombra, o símbolo da Revolução na Ilha rebelde que seu poderoso país quis, mas não pôde, destruir.

Qualquer pessoa seria, sem dúvida, extraordinariamente otimista se espera que os povos de Nossa América aplaudam o 50º aniversário da invasão mercenária de Giron, 50 anos de cruel bloqueio econômico de um país irmão, 50 anos de ameaças e atentados terroristas que custaram milhares de vidas, 50 anos de projetos de assassinato dos líderes do histórico processo.

Senti-me aludido em suas palavras.

Prestei, efetivamente, meus serviços à Revolução durante muito tempo, mas nunca eludi riscos nem violei princípios constitucionais, ideológicos ou éticos; lamento não ter tido mais saúde para seguir servindo-a.

Renunciei sem vacilação a todos os meus cargos estatais e políticos, inclusive ao de Primeiro Secretário do Partido, quando adoeci e nunca tentei exercê-los depois da Proclamação de 31 de julho de 2006, nem quando recuperei parcialmente minha saúde mais de um ano depois, embora todos continuassem intitulando-me afetuosamente dessa forma.

Mas sigo e seguirei sendo como prometi: um soldado das ideias, enquanto possa pensar e respirar.

Quando perguntaram a Obama sobre o golpe de Estado contra o heróico presidente Salvador Allende, promovido como outros muitos pelos Estados Unidos, e a misteriosa morte de Eduardo Frei Montalva, assassinado por agentes da Dina, uma criação do governo norte-americano, perdeu sua presença de espírito e começou a tartamudear.

Foi certeiro, sem dúvida, o comentário da televisão do Chile ao final de seu discurso, quando expressou que Obama já não tinha nada que oferecer ao hemisferio.

De minha parte, não quero dar a impressão de que experimento ódio a sua pessoa, e muito menos ao povo dos Estados Unidos, a cujos muitos de seus filhos reconheço o aporte à cultura e à ciência.

Obama tem agora pela frente uma viagem a El Salvador nesta terça-feira. Ali terá que inventar bastante, porque nessa nação centro-americana irmã, as armas e os treinadores que recebeu dos governos de seu país, derramaram muito sangue.

Desejo-lhe boa viagem e um pouco mais de sensatez.

Fidel Castro Ruz
21 de março de 2011, 21h32
Fonte: Cubadebate
Tradução da Redação do Vermelho

 

Diálogos Desenvolvimentistas 26: hold on, Obama

Leandro Aguiar

Espirituoso, simpático, engraçado e inteligente. O extremo oposto do seu antecessor.

Por onde passa, ele é notícia. Agrada vascaínos e rubro-negros. A mídia brasileira o adora.  Esse é Barack Obama, o homem que foi eleito como um messias para assumir a presidência dos EUA, quando o país passa por um de seus mais delicados momentos. E que, até agora, não tem se dado muito bem, em parte pela grandiosidade de seu desafio, mas em grande medida, também, pela resistência que os Republicanos tem lhe imposto.

Pois esse homem, talvez não seja exagero chamá-lo de O Mais Importante Do Mundo, esteve no Brasil no fim de semana do dia 18 de março, e sua visita gerou toda sorte de comportamentos: desde cartolas do futebol que queriam presenteá-lo com camisas, até movimentos sociais que protestaram contra o comício do Primeiro Presidente Negro na Cinelândia, RJ, que, no final das contas, acabou não acontecendo, graças à pressão social.

O Desenvolvimentistas reproduziu uma série de artigos de outros sites (JB, CC, VOM, CM), que compactuam com a nossa visão sobre as reais intenções da viagem diplomática de Obama ao Brasil. Mais do que celebrar a união entre os dois países, acreditamos que o presidente norte-americano veio até aqui para resguardar os interesse de seu país, que, na maior parte das vezes, são exatamente o contrário dos interesses do Nosso.

A seguir, algumas considerações dos Desenvolvimentistas sobre a visita de Obama e a relação Brasil-EUA:

 

“Precisamos ser realistas. Os EUA ainda são a primeira potência econômica do planeta e detêm a moeda de reserva e circulação internacional. Nas Américas, o Brasil é a segunda economia em termos de PIB.

Precisamos negociar com eles e traçar projetos de interesses e benefícios comuns. Talvez alguns achem essa forma de pensar ingênua, mas considero realismo político puro. Muitos dos empregos, não todos, que foram deslocados nas últimas décadas para o Leste asiático poderiam ter ficado nas Américas. Elas ainda podem ser trazidos, em alguma medida, para as Américas.”

“O presidente Barack Obama declarou em 2010 numa visita a Detroit que os norte-americanos deveriam voltar a andar em veículos produzidos por eles mesmos. Bom, ao menos ele sinaliza que pode utilizar o arsenal de instrumentos de política comercial e industrial que tornaram os EUA um dos campeões mundiais do protecionismo.”

No relatório ao presidente Obama da comissão que investigou o acidente da BP no Golfo do México há uma menção ao “Triângulo de Ouro”, ou seja, costa brasileira, oeste da África e o Golfo do México. Essas são as regiões das reservas do ouro negro do futuro.

Obama não veio passear no Brasil. Podemos aproveitar essa vinda dele para colocarmos na mesa algumas questões que nos são caras – desenvolvimento nacional.”

Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

“Os Estados Unidos nunca irão concordar com negociação em condições simétricas. O importante é comunicar para o povo que estamos abertos à negociação e, se ela não acontecer, não fomos nós que a vetamos. A mídia do capital trabalha muito vendendo a imagem que nós (que queremos beneficiar a sociedade brasileira) somos radicais, “queremos virar a mesa”.”

Paulo Metri

“Fique bem claro que o repúdio não é à visita do presidente norte-americano. Mas ao comício (na Cinelândia). Precedente de alto risco. Se Obama pode fazer comício, o presidente da China também pode. E até Fidel e Chavez.”

Ceci Juruá, economista

Eu acho que esta (visita) é uma excelente oportunidade para o Brasil resgatar a sua soberania. Sabemos que o Obama veio ao nosso País tendo como objetivo principal o petróleo do pré-sal, pois os EUA estão numa situação dramática quanto ao petróleo e o Oriente Médio está em ebulição. A invasão do Iraque não funcionou. O Iran não se submete. A Arábia Saudita pode ser a próxima peça do dominó. Portanto, acho a hora muito oportuna para o Brasil cobrar dos EUA um tratamento à altura da sua importância estratégica como celeiro de matérias primas daquele País. É a grande chance de cobrar mais caro pela viabilização da sobrevivência deles como País. Assim, para começar, o Brasil tem que exigir que a relação bilateral seja boa para os dois lados, inclusive para toda a América Latina. É hora de acabar com a assimetria de direitos nas relações”

Fernando Siqueira, presidente da AEPET, Associação dos engenheiros da Petrobrás

Dr. Rosinha: A visita de Obama e o oba-oba abobado

do VioMundo

A visita de Obama e o oba-oba (abobado) da velha mídia

A política externa independente nos tornou importantes no cenário mundial, inclusive para os EUA. Retrocessos nessa política poderiam fragilizar nosso protagonismo internacional

por DR. ROSINHA*

A mídia brasileira tem tratado a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como um megaevento. A reação talvez seja similar a da primeira visita do Papa ao Brasil. Não existem outras pautas. Criam-se vinhetas televisivas e coberturas especiais. Parece que a encarnação viva de Deus passará por aqui no fim de semana.

Para além do mero provincianismo, a velha mídia é motivada pelo desejo de atacar a política externa do governo Lula, que estaria supostamente prestes a ser alterada pelo governo Dilma.

Conforme o desinformado desejo, a política externa do governo Lula teria apostado no “terceiromundismo” e no “antiamericanismo”, comprometendo antigas “boas relações” com os EUA. Agora, caberia a Dilma “corrigir” o desvio e reconduzir a política externa a seu paradigma histórico.

A visita de Obama representaria, assim, uma espécie de redenção do Brasil, que voltaria a ocupar seu lugar secundário na história. Daí a cobertura deslumbrada. Daí esse verdadeiro “oba-oba” abobado da velha mídia.

Mas, afora todo esse delírio ideológico, o que esperar da visita?

Na realidade, pouco. Em primeiro lugar, não ocorrerá uma correção de rumos significativa nas relações bilaterais, até mesmo porque tal correção, do ponto de vista dos interesses brasileiros, não é necessária. Não houve “desvios ideológicos”. Portanto, não há necessidade de correções substanciais, embora sempre haja espaço para aprimoramentos.

A bem da verdade, foi a recente política externa que elevou substancialmente o patamar do Brasil no cenário mundial. Por isso mesmo, o próprio embaixador norte-americano no Brasil reconhece que a nossa nação “não é mais um país emergente, mas sim um país que já emergiu”.  É justamente esse novo patamar que motiva a visita de Obama.

Para um presidente com popularidade em baixa e muito abalado politicamente depois da grande derrota nas últimas eleições legislativas dos EUA, a visita ao Brasil representa uma oportunidade para mostrar algum prestígio internacional a seu público interno.

Além disso, a recuperação da economia dos EUA tem se revelado lenta. Os EUA precisam desesperadamente reduzir seu déficit comercial com o mundo e seu desemprego interno. O Brasil, uma economia em ascensão –a sétima do mundo–, representa amplas oportunidades para os norte-americanos. Eles estão muito interessados no pré-sal, ainda mais agora, quando as ditaduras pró-ocidentais do Oriente Médio estão ruindo. Também há interesse na participação da construção da infraestrutura brasileira, inclusive aquelas relativas às Olimpíadas e à Copa do Mundo.

Para o Brasil, a visita possibilita a superação de algum mal-estar recente na relação bilateral, embora as posições fundamentais devam continuar as mesmas, inclusive no que se refere às divergências referentes ao Iraque e ao Irã.  Ademais, tais visitas sempre podem possibilitar maior comércio e mais investimentos.

Não de deve esperar muito, no entanto. A expectativa é de que seja assinado um acordo para simplificar as trocas comerciais e evitar barreiras técnicas e administrativas ao fluxo comercial. Isso implicaria o reconhecimento mútuo dos certificados emitidos pelo Inmetro e pelo órgão norte-americano correspondente da área. As divergências e as imensas barreiras tarifárias e não-tarifárias relativas ao protecionismo agrícola, antidumping, picos tarifários e quotas, que afetam boa parte das nossas exportações para os EUA (aço, suco de laranja, etanol, carnes, frutas, algodão, soja e derivados, etc.), continuarão a vigorar, impedindo uma ampliação significativa do comércio bilateral.

Saliente-se que os EUA perderam muita importância comercial e econômica para o Brasil. Em 2002, os EUA absorviam cerca de 24% das nossas exportações. Em 2010, essa participação caiu para 9,6%. Hoje, China, América Latina e União Europeia são mais relevantes para nós.

Do ponto de vista político-diplomático, existe a possibilidade de que Obama anuncie seu apoio à pretensão brasileira a uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, como fez com a Índia no ano passado. Embora simpático e importante, um eventual apoio não geraria nenhum efeito imediato, já que a mudança da estrutura do conselho, que reflete arcaicamente o mundo pós-Segunda Guerra Mundial, ainda não está na pauta atual das Nações Unidas.

Deverão também ser assinados acordos nas áreas de energias renováveis, aviação civil, espacial e de combate à discriminação de raça e gênero. São acordos relevantes, mas que não mudam a natureza das relações bilaterais, como quer dar a entender a velha mídia.

O Brasil vem se tornando um grande país graças, em boa parte, a uma política externa ousada e criativa, que diversificou parcerias estratégicas, diminuiu nossa dependência em relação a parceiros tradicionais, abriu espaços para nossas exportações e investiu na integração regional e na cooperação Sul-Sul. Foi exatamente essa política externa independente que nos tornou importantes no cenário mundial, inclusive para os EUA. Quaisquer retrocessos nessa política poderiam redundar na fragilização do nosso protagonismo internacional.

Os EUA são um país de grande peso internacional, e o aprimoramento da nossa relação bilateral é sempre bem–vindo. Esse aprimoramento jamais deveria implicar no abandono de nossas justas posições e do nosso rumo próprio, no contexto das nações. Países que investiram numa relação de dependência dos EUA, como o México, por exemplo, hoje pagam um alto preço econômico e político pela decisão equivocada.

É do interesse nacional do Brasil manter uma política externa exitosa. O aprimoramento das relações Brasil-EUA, sempre conveniente, deve se balizar pelas diretrizes dessa política, e não pelo desejo ideológico de setores conservadores, que ainda não entenderam o que aconteceu no Brasil e no mundo.

Não nos deslumbremos, portanto, com essa pirotecnia ideológica da velha mídia, até mesmo porque, espetáculo por espetáculo, certamente os shows da Shakira terão maior sucesso.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul

PS do Viomundo: Hoje, ouvindo a CBN no táxi, capturei o caco de um comentário segundo o qual o Brasil tinha se tornado “adulto” e, portanto, o PT carioca tinha razão ao desencorajar manifestações contra Obama. Vejam bem, caros leitores, o Brasil tinha se tornado “adulto” aparentemente por receber o Obama, quando todos sabemos que se isso de fato aconteceu foi como resultado de uma política externa independente e soberana. Perigas de o PT, em sua nova encarnação, pedir silêncio obsequioso ao deputado Rosinha.

Banquete conservador

Da Carta Capital

Banquete conservador Segundo economista Gonçalves, o ditador Médici é o rei do PIB

A presidenta Dilma Rousseff comemorou o crescimento do País de 7,5% em 2010, ano que marcou a despedida do presidente Lula. Simultaneamente, ela alertou que a porcentagem não se repetiria este ano.

O aumento foi importante. Significou, entre outras coisas, que a riqueza material do País cresceu mais do que a população, gerou mais empregos etc. e tal. No entanto, o que os governos fazem com isso é que é – como se dizia outrora – o “ó do borogodó”. Note-se que sem a vogal a palavra não existe. Esse “ó” é o cidadão, que deve ser a razão de se governar uma nação.

Sobre este crescimento alentado, circula nos meios políticos, econômicos, acadêmicos e jornalísticos estudo feito pelo economista Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, figura de prestígio em parte da esquerda carioca. Ele foi formulador e militante do Partido dos Trabalhadores até a “diáspora” que houve no PT, provocada pelo chamado “mensalão”.

O trabalho de Gonçalves tem um paladar inconfundível. Foi um banquete para a direita e, por isso, abriu espaço para que o autor debutasse na tela da Globo, em horário nobre, e discorresse sobre o tema no Jornal Nacional.

A cobiça conservadora em torno do artigo tem como um dos focos a posição de Lula no ranking comparativo do PIB elaborado pelo economista. Lula ocupa a 19ª posição, na lista de 29 ex-presidentes elencados por Gonçalves, com o modesto crescimento médio anual de 4%.

“O desempenho do governo Lula é fraco pelos padrões históricos brasileiros”, afirma o economista e “muito fraco” quando comparado com outros presidentes, são duas das conclusões do trabalho.

As taxas de crescimento por períodos administrativos oferecem possibilidade para  determinar a escolha do presidente melhor sucedido ao gosto do freguês. O topo do elenco organizado pelo professor Gonçalves é ocupado, por exemplo, por um ditador: Emílio Garrastazu Médici, expoente dos anos de chumbo.  É o rei do PIB.

O general era da linha dura, mas não era bobo. O colunista, mesmo a contragosto, registra a frase dele: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. Poderia ser gravada no diploma de alguns economistas.

Durante o período Médici, o salário mínimo real teve queda de 18%, segundo o Dieese. Depois de Getúlio Vargas na fase constitucional, foi no governo Lula que o mínimo teve o maior crescimento: 50% em termos reais.

E economia foi bem em 2010. O povo continuou mal. Poderia, no entanto, estar pior. Isso porque, na administração Lula, quase 13 milhões saíram da miséria. Um número inédito, no espaço de seis anos, segundo dados do Ipea.

Em 2003, Lula assumiu o poder com um total de 26.069.035 miseráveis no País. Em 2009, esse número tinha caído para 13.474.983. Talvez não haja razão para comemorar enquanto houver algum brasileiro indigente. Mas esses números dimensionam a preocupação do governo com o problema social.

O estudo de Gonçalves, segundo alguns economistas, tem um erro metodológico eliminatório. Não leva em conta a população de cada período. Eles sugerem que o melhor seria estabelecer o renda média per capita.

Se a má vontade do professor Reinaldo Gonçalves com Lula fosse um pouco maior, ele poderia empurrar o ex-presidente petista do 19º para o 21º lugar. Bastava, para isso, incluir no ranking os ex-presidentes Carlos Luz (governou por quatro dias) e Delfim Moreira (excluído da lista de Gonçalves, embora tenha ficado oito meses no poder e superado Jânio Quadros, incluído com quase sete meses) com uma simples conta pro rata.