The Economist

Os recentes desastres no arquipélago intensificam as dificuldades de uma nação em crise
O Japão ainda está se recuperando dos efeitos do poderoso terremoto e tsunami que devastaram o nordeste do país em 11 de março. Com 9 graus de magnitude, o terremoto, próximo da costa, foi um dos maiores já registrados. O tsunami arrasou cidades e vilas, resultando em uma destruição massiva de propriedades, deixando centenas de milhares de pessoas desabrigadas. Com milhares ainda não contabilizados, as taxas de mortalidade tendem a subir rapidamente. O desastre também prejudicou uma usina de energia nuclear, resultando em uma série de explosões e induzindo a evacuação da população ao redor. A The Economist Inteligence Unit resume, a seguir, as principais implicações do desastre. Sobretudo, mesmo que não tenha nenhuma catástrofe nuclear, o impacto do crescimento do PIB é modesto se comparado com a escala do trauma humanitário.
Crescimento Econômico
Nas notícias inicias sobre os danos do terremoto e do tsunami, nós reduzimos levemente as expectativas de crescimento econômico em 2011 de 1,6% para 1, 4%. Nas áreas mais afetadas, a atividade econômica virtualmente parou e o consumo e investimento privados permanecerão fracos até a segunda metade deste ano. De todo modo, a reconstrução deve fornecer um impulso para o próximo ano, de forma que elevamos nossas previsões para 2012 de 1,4% para 1,5%.
Nossas expectativas atuais assumem que o impacto nacional do desastre será limitado, tão logo os maiores centros econômicos como Toquio evitem a interrupção prolongada. Por exemplo, esperamos que suprimentos poderosos estejam restaurados completamente nas áreas econômicas-chaves em maio. A manutenção dessa suposição dependerá de quanto tempo durará a crise na usina nuclear de Fukushima Daiichi. O estado atual de risco elevado e a incerteza podem atrasar o crescimento conduzido pela reconstrução que nós esperamos atualmente que se inicie na segunda metade de 2011. Nesse caso, nossas expectativas de crescimento para 2011 serão reduzidas, mas nossas previsões para 2012 crescem.
Política
O primeiro ministro Naoto Kan e o Partido Democrático do Japão estão encarando seu maior teste. Uma deterioração dramática na posição do governo é anulada pelo fato de que este já estava sombriamente impopular antes do desastre. A insatisfação pública em relação à ajuda e esforços de reconstrução é um risco, mas, num balanço, a reação das autoridades foi rápida e competente. Diferente da letárgica resposta ao terremoto de Kobe em 1995, operações de auxílio em larga escala iniciaram imediatamente e assistência estrangeira foi recebida. Sr. Kan arriscou-se quando assumiu o comando pessoal da crise na usina de Fukushima – um passo que pode queimá-lo se a situação dos lugares afetados piorar. De qualquer forma, a ira pública tende a se focar na empresa que opera a Usina, a TEPCO, que é notória por ser econômica com a verdade em relação aos acontecimentos nucleares.
Acima de tudo, se a administração de Kan pode evitar compartilhar a culpa de outros percalços radioativos, e se as autoridades continuarem a orquestrar um resgate de crédito e esforços de reconstrução, os efeitos do desastre na estabilidade governamental parece ir do neutro ao positivo. Mais do que isso, a administração pode ser beneficiada nas frentes políticas. Um senso de emergência e solidariedade nacional pode mitigar a obstrução da oposição sobre a receita para o ano fiscal que chega – ou mesmo galvanizar suporte para as arrojadas reformas que o senhor Kan propôs para resolver os problemas econômicos do Japão.
Posição Fiscal
O desastre inevitavelmente atraiu comparações com o tremor de Kobe em 1995, mas a maior diferença é que a situação fiscal do Japão era muito mais saudável em meados de 1990. Em 1994, o débito público alcançou 79% do PIB, mas em 2010 essa conta subiu para 198% do PIB. Em teoria, o governo é agora não somente menos capaz de atender a emergência e a reconstrução, como também mais vulnerável para uma perda de confiança em seus empréstimos.
Isso significa que o terremoto e o tsunami se provarão desastrosos para as finanças públicas? A resposta não é clara, mas o mais provável é que o país continue – como antes – num curioso limbo do risco. As finanças públicas do Japão já estavam em um caminho de deterioração para além do que seria sustentável na maioria dos outros países. O governo evitou com facilidade grandes empréstimos na crise, e pode financiar ele mesmo com taxas muito baixas de interesse. Isso reflete em parte a composição do débito público, mantido em 95% domesticamente, e o fato de que taxas baixas de interesse e uma economia lenta ao longo dos anos tenham limitado opções de investimento alternativas. Nossas expectativas apontam que o desastre machuque a posição fiscal do Japão. Como o déficit financeiro do Japão já era quase 8% do PIB em 2010 devido os efeitos tardios da crise financeira global, é um momento ruim para uma política fiscal expansiva.
Negócios
Os negócios no nordeste do Japão sofreram uma série de prejuízos, principalmente nos setores automotivo, eletrônico, entre outros manufaturados. Corporações japonesas poderosas como Canon, Sony e Toshiba fecharam muitas fábricas nas regiões afetadas. Uma série de marcas de carro, incluindo a Toyota, a maior do mundo, suspendeu toda produção no Japão. No outro final da escala, incontáveis pequenos negócios foram fechados.
Os efeitos indiretos nos negócios como resultado de danos em infraestrutura foram muitos. Racionamento de energia e cortes na água forçaram fábricas a recalcular a produção e escritórios por todo país permanecem fechados em estado de emergência e com medo de outros choques. Serviços de trem foram cortados, aeroportos fechados e estradas maiores fechadas para o tráfico do público. Em um curto período, esses fatores refletem nas indústrias japonesas, muitas delas usando o método de produção Just-in-time que se apóiam nessas lógicas. Isso, em contrapartida, está tendo um efeito dominó nos estoques globais, uma vez que as firmas japonesas fornecem componentes cruciais para equipamentos de alta tecnologia, de semi-condutores a iPhones. De todo modo, o impacto na produção global não parece ser tão severa ao menos que a produção japonesa de componentes vitais seja significantemente prejudicada por semanas, meses ou dias. Em muitos casos, inventários dos produtos afetados são amplos e um certo número de fábricas reabrirá em 17 de março.
Mercado Financeiro
O terremoto produziu efeitos colaterais significantes no Mercado de ações japonês, nos títulos públicos e capital. Entre 11 e 15 de março, a Nikkei 225 caiu 11,3% e o índice Topix desceu 10,7%, ainda que os dois índices tiveram algum ganho em 16 de março. O governo tentou limitar o dano financeiro injetando uma liquidez recorde. Entre outras coisas, o banco do Japão (BOJ) injetou trilhões de yens em mercados monetários e dobrou seu programa de poder de compra. Lucros de títulos de 10 anos do governo japonês caíram, somando-se ao fato de que o desastre exacerba o já conturbado panorama fiscal do governo. Enquanto isso, o yen teve uma valorização inclinada, subindo de ¥82,9:US$1 em 10 de março para ¥78.1:US$1 em 16 de março, com expectativas de que fundos serão doados ao Japão para pagar a reconstrução. Um yen mais forte vai piorar as exportações que já estão se debatendo com a infraestrutura danificada e as reservas quebradas. O governo talvez tente intervir para parar o crescimento do yen, mas tais medidas são raramente efetivas. Muitas semanas voláteis virão nas trocas cambiais estrangeiras, títulos e lucros.
Sem surpresas, o setor de segurança também está programada para a desordem. Cálculos preliminares das perdas de seguros como resultado do terremoto começam a aparecer. AIR Worldwide, uma firma de modelagem de desastre, colocou a perda potencial de seguros entre US$14.5bn e US$34.6bn. Seguros domésticos contabilizam mais de 90% do mercado de seguro e vida no Japão, então eles serão atingidos com força. De toda forma, a maioria passou seu risco para seguradoras globais, então o desastre será sentido em todo planeta. Ocorrendo logo depois das enchentes e ciclone na Austrália e dos terremotos na Nova Zelândia, o terremoto e o tsunami japonês falaram prontamente que os preços de seguros globais, que caíram por anos, começarão a subir outra vez.
Mercado de Commodities
O Mercado internacional de commodities ainda está digerindo uma variedade de possíveis implicações conflituosas do desastre japonês. Em commodities leves, por exemplo, um frágil crescimento econômico pode reduzir a demanda de importação em um período curto, mas participantes de mercados podem antecipar um crescimento de demanda enquanto os estoques são reconstruídos. De forma similar, o mercado de metal tende a beneficiar quando a reconstrução começar, mas sofrerá a curto prazo por causa do fechamento de fábricas e da baixa atividade econômica. No mercado de combustível, a interrupção nas redes de transporte sugere menos consumo, mas pode haver uma troca para atender necessidades imediatas do poder. O mercado de combustível inicialmente focou em menos consumo no terceiro maior consumidor, com o preço do Brent bruto caindo de US$110 por barril em 15 de março. De qualquer forma, os preços tiveram subidas leves subsequentes no Oriente Médio instável. O Japão tem poucos recursos naturais e é muito dependente de importações, logo a reconstrução gera um aumento na demanda de commodities no mercado internacional.
Energia
O terremoto e o tsunami interromperam drasticamente o fornecimento de energia nuclear, que representa perto de 30% do total da produção de energia do país. As informações continuam incertas e contraditórias, mas ao menos 10 reatores se desligaram automaticamente em função do terremoto, o que significa que o Japão encara uma potencial perda de 15 a 20% do total de sua capacidade nuclear. Também houve relatos que várias usinas térmicas desligaram. A TEPCO disse que metade da capacidade térmica desligada nos eventos da última sexta-feira 11, voltarão em uma semana, mas a perspectiva para o equipamento afetado na usina de Fukushima é menos confiante. Água do mar foi jogada em reatores para controlar a temperatura, fazendo da sua recuperação impossível.
Como o Japão se recuperará do corte no abastecimento de energia? Precedentes históricos sugerem que o crescimento na dependência em gás natural tende a ser a última saída. Em 2007, na recuperação do terremoto que desligou a usina de Kashiwazaki-Kariwa, a maior do mundo, a demanda japonesa por gás cresceu. De qualquer forma, a natureza fragmentada da indústria de gás japonesa e a infraestrutura de gás subdesenvolvida irá dificultar a mudança. Grandes navios de petróleo bruto, óleo diesel e carvão são também plausíveis.
*Matéria publicada originalmente no The Economist Intelligence Unit