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Cortando o povo

Publicado em A Nova Democracia, nº 75 – março de 2011

Adriano Benayon * – 21.02.2011

Agora uma presidente. Muda alguma coisa importante no Brasil? Nada.  A Sra. Dilma já mostrou a que veio. Fez elevar as taxas de juros e sinaliza mais privatizações. Determina cortes no orçamento federal, para pagar mais juros da dívida pública, cujo “serviço” (juros e amortizações) é privilegiado no Orçamento através de dispositivo inserido, fraudulentamente, na Constituição de 1988.

2. Assim, de 1989 a 2010, o País já atirou pelo ralo 6 trilhões de reais (em valores monetários atualizados).  Alguém já imaginou o que é isso? São doze zeros antes da vírgula: R$ 6.000.000.000.000,00.

3. Como sempre, difunde-se aos quatro ventos a mentira surrada, de que os juros são mantidos altos e, ainda por cima, aumentados, porque isso faria conter a inflação.

4. Já expliquei, em muitos artigos, por que a elevação dos juros resulta em maior, e não, menor inflação. Além disso, os juros altos agravam os defeitos estruturais da economia. Para mostrar isso mais uma vez, está sendo republicado um artigo de 2008.

5. Quando é que se vai deixar de tentar fugir à realidade? Fugir mesmo é  impossível, e quem tenta só faz se alienar. Aí vão juntas a alienação política e a alienação mental, característica da demência. Justamente por isso todo o sistema de formação de opinião no Brasil, operado pela grande mídia (TV, jornalões, revistas de todo tipo etc.), funciona, sem parar, a fim de tornar dementes os brasileiros.

6. Desse modo, os concentradores do poder financeiro mundial garantem seus objetivos: fazer do Brasil cada vez mais uma estupenda zona livre de extração de recursos naturais, dependente de tecnologias controladas por empresas estrangeiras. E cada vez mais indefeso, sob todos os aspectos: cultural, econômico, político e militar.

7. Leonel Brizola dizia, à época dos governos militares, que a função destes era segurar a vaca (figuradamente o Brasil), para as empresas multinacionais extraírem o leite dela.

8. Após a grande ilusão das “diretas-já”, o poder econômico concentrador, que tem regido as instituições políticas no Brasil, aperfeiçoou o mecanismo: em vez de controlar a vaca à força, passou a hipnotizá-la, especialmente com a desinformação.

9. Com isso e com a corrupção de atacado, e as eleições movidas a grana, além de pela mídia, a oligarquia imperial pôs a seu serviço os presidentes eleitos “democraticamente”. Collor e FHC superaram os recordes brasileiro e mundial de entrega do patrimônio nacional, fazendo ademais o País pagar – e pagar muitíssimo – para entregá-lo.

10. Os últimos oito anos e o início de 2011 confirmam, mais uma vez, a  continuidade do processo de destruição do Brasil e que esse processo é planejado. FHC foi recrutado aí por 1969/1970, com vultosa doação de fundação norte-americana ao “centro de estudos” dele. Lula e o PT surgiram de maquinações durante a “transição” no início dos anos 80, dirigidas por serviços secretos estrangeiros.

11. Ora, o desenvolvimento dos desequilíbrios está assegurado não só pela estrutura econômica, praticamente toda nas mãos de transnacionais, como pela dinâmica da dívida. Aquela estrutura leva inexoravelmente a déficits nas transações correntes com o exterior, cujo financiamento acumulado é a fonte da dívida externa.

12. Quando esta não cresce, é a dívida interna que vai para as nuvens, realimentada pelos juros mais altos do mundo pagos pelos títulos públicos brasileiros, sem qualquer razão que o justifique. Daí resultou a cifra apontada no início deste artigo, superior a 6 trilhões de reais.

13. Outra fonte de atraso para o País decorre do baixíssimo nível quantitativo e qualitativo do investimento público. Fala-se muito do crescimento da economia chinesa, mas poucas vezes lembra-se que o governo chinês investe anualmente o equivalente a quase 20% do PIB, enquanto, no Brasil, o governo federal não investe mais que 1% do PIB.

14. Se o investimento público já tem sido miserável, e isso há mais de trinta anos, que faz o governo que se diz dos trabalhadores? Corta inclusive o já pífio investimento, além de outros gastos. A tesourada noticiada, da ordem de  R$ 50 bilhões, seria para “reverter a aceleração da inflação este ano”, segundo os enganadores ministeriais, repetidos pelos jornalões.

15. Radicalizando também a perda qualitativa, os cortes atingem a educação básica, a reestruturação das redes de ensino profissional e as pesquisas em ciência e tecnologia, ademais de unidades especializadas em saúde.

16. Também, como se o Brasil já não estivesse à mercê da IV Frota dos EUA, trafegando à vontade diante de nossas costas, e das bases militares dos EUA disseminadas por toda a América do Sul, a proposta orçamentária retira recursos de programas de defesa, inclusive os de positivo impacto tecnológico para a indústria, como a construção do submarino de propulsão nuclear. Essa construção já teria sido concluída há mais de vinte anos, não fosse a continuidade da política entreguista.

 

* Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. abenayon@brturbo.com.br

 

 

 

Obama ‘perdeu oportunidade’ ao não dar apoio explícito ao Brasil, diz Amorim

Júlia Dias Carneiro


Da BBC Brasil no Rio de Janeiro


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “perdeu uma grande oportunidade” em sua visita ao Brasil ao não dar apoio explícito ao ingresso do país no Conselho de Segurança da ONU, na opinião do embaixador Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores.


“Ele teria criado uma aliança mais sólida e isso teria contribuído para uma relação de confiança profunda”, disse Amorim à BBC Brasil, afirmando que agora “vai continuar tudo como estava”.


Para Amorim, se os Estados Unidos estão preocupados com a crescente presença comercial da China no Brasil, o país deve tomar medidas concretas para abrir seu mercado a produtos brasileiros – como o etanol – e reduzir o desequilíbrio comercial nas relações bilaterais.


“É desta maneira que você neutraliza a influência dos outros”, diz Amorim. “O Brasil tem o maior superavit comercial com a China. O maior deficit comercial é com os Estados Unidos”.


Ministro das Relações Exteriores durante os oito anos do governo Lula, Amorim recebeu a BBC Brasil em seu apartamento em Copacabana, na Avenida Atlântica, onde já organizou seus livros, gravatas e a coleção de obras de arte e esculturas de diversos países que acumulou durante a carreira diplomática.


Ele agora divide seu tempo entre Rio de Janeiro, Brasília e os convites internacionais que recebe, como o que o levará a Washington nesta sexta-feira para uma palestra.


O embaixador se diz muito satisfeito “por ter sido ministro de um governo que transformou o Brasil”, e vem recebendo convites “para falar na Harvard ou falar na UNE (União Nacional dos Estudantes)”. “Pretendo atender aos dois”, diz o embaixador.


Leia abaixo os principais trechos da entrevista.


BBC Brasil – O senhor escreveu um artigo para a revista Foreign Policy antes da visita de Obama dizendo que seria uma decepção se ele não aproveitasse a ocasião para apoiar concretamente a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Ele veio e manifestou apenas “apreço” pelo pleito do Brasil. O senhor está decepcionado?


Celso Amorim – Acho que a democracia brasileira fez o que pôde. Não sei nem se eu teria conseguido tanto. A Condoleezza (Rice, Secretária de Estado durante o governo George W. Bush) várias vezes conversou comigo sobre o assunto, mas ele nunca tinha figurado num comunicado conjunto. Isso é um avanço.


Agora, quando se compara com o que os americanos fizeram em relação à Índia, evidentemente é decepcionante. Qual é o sinal que os Estados Unidos estão dando? Qual é a diferença fundamental entre Brasil e Índia?


A Índia é mais populosa que o Brasil, mas o Brasil em compensação tem três vezes o território indiano. Ambos são democracias estáveis, com influência regional. A diferença fundamental é que a Índia tem bomba atômica e o Brasil não tem. Como você pode ser ao mesmo tempo a favor da não proliferação (de armas nucleares), e, no caso de dois países que são razoavelmente comparáveis, apoiar um país e não apoiar o outro?


Para falar a verdade, não vou dizer que eu fiquei decepcionado porque eu não tinha grandes expectativas de que Obama viesse a fazer isso. Mas acho que, do ponto de vista norte-americano, ele perdeu uma grande oportunidade. Os EUA continuam imbuídos daquela visão de hemisfério. Traduzido em bom português, hemisfério, no fundo, é o quintal. E no quintal você tem que tratar todos mais ou menos igual.


O fato de ele não entender que o Brasil tem hoje um trânsito internacional mundial… Isso você vê na opinião das outras pessoas. Por que convidaram a mim e uma semana depois ao presidente Lula para falar na Al-Jazeera? Quando isso acontecia antes? O Brasil está ali, é tido como um exemplo.


BBC Brasil – Mas quais oportunidades o senhor acha que Obama perdeu em sua visita?


Amorim – A grande coisa que ele podia ter feito era dar um apoio explícito e claro ao Brasil. Um reconhecimento de que o Brasil pode contribuir no mundo. Ele teria criado uma aliança mais sólida, e isso teria contribuído para uma relação de confiança profunda. Essa coisa assim, com a xícara meio cheia, meio vazia… Vai continuar tudo como estava.


O Obama simbolicamente é um presidente muito importante, porque é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Tem um apelo natural para a população brasileira, o que é bom. Antes da visita, analistas americanos diziam que essa era grande coisa que ele poderia fazer, uma vez que na área comercial os avanços seriam limitados.


Os EUA estão vivendo um momento de dúvida sobre o próprio poder. Mesmo na questão da Líbia, apesar de estarem engajados, há dúvida de quem está liderando.


Os EUA precisarão de outros países, precisarão discutir mais. Você não pode pensar que a pluralidade no mundo se obtém pela terceirização. “Ah, você faz isso, mas faz do jeito que eu quero.” Não. “Você faz isso, então vou ter que levar em conta a sua opinião.” É uma realidade diferente, e países como o Brasil, a Turquia, a Índia, totalmente diversos, podem atuar. Então, acho que ele perdeu essa oportunidade.


BBC Brasil – Em abril, a presidente Dilma Rousseff faz sua primeira visita de Estado à China. Há notícia de que os Estados Unidos se preocupam com a crescente influência da China na América Latina e nos países africanos. Como o Brasil se encaixa nesse contexto?


Amorim – Se os Estados Unidos estão preocupados com isso, podia ter feito duas coisas: uma é apoiar o Brasil para o Conselho de Segurança. Outra é abrir o mercado de etanol. Porque é dessa maneira que você neutraliza a influência dos outros. Não é só ficar preocupado em teoria.


As pessoas criticam que o nosso comércio com a China não é bom do ponto de vista qualitativo. Mas o Brasil tem, como país individual, o maior superavit comercial com a China. O maior deficit comercial é com os Estados Unidos.


Quando dizem que a bola está no nosso campo, eu discordo totalmente. A bola ainda está do lado dos americanos, eles é que têm que fazer os gestos que resultem numa mudança. Eles que abram os seus mercados, não como a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) queria fazer – porque ia abrir muito parcialmente o mercado americano e fazia exigências tremendas.


BBC Brasil – O Brasil exporta principalmente commodities para a China, e importa manufaturados. Há uma grita em setores da indústria brasileira, que se sentem prejudicados pela entrada de produtos chineses…


Amorim – Primeiro, é preciso reconhecer que, quando falamos de commodities hoje, não é como no início do século 20, quando eram produtos de baixíssimo valor agregado. Seja no agronegócio, no etanol, em outros produtos, há um alto grau de pesquisa tecnológica agregado ali.


Mas veja bem. Os grandes deficits comerciais que o Brasil tem hoje não são com a China, são com os países desenvolvidos, os países produtores de manufaturados, EUA, Alemanha… O maior deficit que o Brasil tem é com os EUA, de quase US$ 10 bilhões. E o maior superávit que os EUA tem no mundo é com o Brasil.


Se eles querem mudar a relação, o que tem que ser reformado é por aí. Facilitar a importação do etanol brasileiro, concluir a Rodada de Doha. Com isso, ele nos conquistaria no bom sentido. Ainda que a China esteja comprando commodities, a gente precisa vender para sustentar o nível de vida que se alcançou no Brasil. Se ele (Obama) não faz isso, aí não pode evitar que a influência chinesa aumente.


 

A adesão do Brasil à lógica de Washington

do Opera Mundi

Voto do Brasil contra Irã provoca polêmica sobre nova política externa do governo

do Opera Mundi

O voto do Brasil a favor das investigações sobre violação de direitos humanos no Irã criou polêmica a respeito dos rumos da política externa do governo Dilma Rousseff. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o ex-chanceler Celso Amorim afirmou que “provavelmente” não votaria pela medida, que prevê a nomeação de um relator especial para participar das investigações no país persa, mas garantiu que confia no chanceler Antonio Patriota, seu ex-chefe de gabinete.

“As pessoas acham que sobre cada ação há apenas uma decisão moral. Mas a decisão é também política, não no sentido de agir em interesse próprio, mas de saber se o resultado será o que você deseja”, disse.

Amorim, porém, afirmou que não fará “julgamento” da atual política externa, nem mencionou uma mudança explícita nos objetivos do governo brasileiro.

Procurados pelo Opera Mundi, especialistas em relações internacionais classificaram como “precipitada” a avaliação sobre uma possível mudança de gestão na política externa de Dilma Rousseff.

“Ainda é muito cedo para falar ou para supor uma alteração importante na política brasileira. Essas análises só poderão ser feitas de acordo com o decorrer dos fatos”, afirmou o professor de Relações Internacionais da Unifesp, Flávio Rocha de Oliveira.

Para ele, a posição do Brasil representa a defesa dos interesses do país no cenário internacional, o que foi impulsionado de forma crescente durante o governo Lula. “No que diz respeito à busca pela colocação dos assuntos prioritários para o Brasil na pauta mundial e à busca de espaço de decisão em âmbito global, o governo Dilma está dando continuidade ao de Lula”, argumentou.

A professora de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília) e da UNESP (Universidade Estadual de São Paulo), Cristina Pecequilo, concorda com Flávio, mas considera a decisão brasileira representa uma “alteração positiva” na política externa brasileira no campo dos direitos humanos.

“Desde o início, Dilma foi enfática ao dizer que o Brasil passaria a ter uma preocupação diferenciada com o respeito aos direitos humanos. Portanto, a decisão foi bastante coerente com o que foi proposto”, disse.

O ex-chanceler Celso Amorim, por sua vez, questionou a coerência da posição brasileira, não com o plano de governo da atual administração, mas em relação às violações de direitos humanos que acontecem em outros países.

“Se quisermos ser absolutamente coerentes, temos que mandar um relator especial para o Irã, outro para Guantánamo, outro para ver a situação dos imigrantes na Europa. Se você for agir dessa maneira, eu até poderia ser a favor, mas acontece que não é assim”, argumentou.

Para Amorim, a nomeação de um relator corta qualquer possibilidade de diálogo. “Se você começar a entrar numa política condenatória, esquece o diálogo, você opta por ela”, completou.

Os dois professores de Relações Internacionais entrevistados discordam de Amorim, e ainda acreditam na possibilidade de diálogo com o Irã. “Por enquanto, o Brasil ainda não condenou o Irã e a possível violação dos direitos humanos, demos apenas o primeiro passo sendo partidários à investigação. É preciso tomar cuidado com isso”, alerta Cristina Pecequilo.

Ela acredita que, caso o Brasil condene veementemente o Irã, as relações entre os países podem ser alteradas, mas que isso não acontecerá se a atitude brasileira for apenas em torno de uma investigação.

“Temos que esperar o resultado das investigações e aguardar a posição brasileira no caso de termos que fazer uma condenação. Se o Brasil mudar efetivamente sua posição em relação ao Irã, é claro que isso terá algum custo na relação”, acrescentou.

Já Flávio não acredita que a decisão brasileira irá interferir diretamente no diálogo com o Irã. “Veja o caso dos EUA, por exemplo. Eles constantemente condenam a China mas, por interesses próprios, mantém uma série de diálogos comerciais com os chineses”, argumenta.

“É evidente que a manutenção de uma boa relação entre Brasil e Irã depende das partes envolvidas, mas ainda acredito na possibilidade de o governo brasileiro vir a ter um papel na mediação da questão da nuclear. Além disso, precisamos ser convidados por outros atores envolvidos para exercer essa função”, afirmou.

Já Pecequilo acha que essa possibilidade se manterá viva apenas se o Brasil “não recair em posturas influenciadas pelos Estados Unidos, se manter isento e limitar sua atuação no campo de investigação e não da condenação”.

Nesta quinta-feira (24/03), o Brasil votou favoravelmente ao envio de um relator especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU ao Irã. A medida determina uma investigação detalhada de denúncias de violação de direitos humanos.

Outros 20 países votaram como o Brasil. Entre os contrários ao envio de um emissário para o Irã estão Cuba, Bangladesh, China, Cuba, Equador, Mauritânia, Paquistão e Rússia.

Nos últimos dez anos, o Brasil se absteve ou votou contra resoluções que condenavam o Irã. Em junho de 2010, o Brasil e a Turquia votaram contra as sanções impostas pelo Conselho de Segurança em decorrência do programa nuclear iraniano.

Líbia

Questionada sobre a relação entre o voto do Brasil a favor das investigações sobre violação de direitos humanos no Irã e a abstenção do país no Conselho de Segurança sobre a determinação de uma zona de exclusão aérea na Líbia, os especialistas divergiram.

Enquanto Flávio acha que os votos não estão diretamente relacionados e expressam a posição do Brasil sobre situações e momentos distintos, Pecequilo acredita que ambos expressam a coerência brasileira com sua ideologia e interesses.

“Ficou claro que o Brasil não tolera abuso tanto das grandes potências, ao se abster e não votar a favor de uma intervenção internacional, quanto de países considerados aliados, como no caso do Irã”, disse a professora.


A ausência de Lula

da CartaCapital

Mino Carta

O ausente foi mais presente do que os presentes. A frase não é minha, é do professor Delfim Netto, e diz respeito às reações da mídia nativa à ausência de Lula no almoço oferecido pela presidenta Dilma a Barack Obama. Os jornalões mergulharam no assunto em colunas e reportagens por três dias a fio, entregues com sofreguidão à tarefa de aduzir o porquê daquela cadeira vazia sem receio de provar pela enésima vez sua vocação onírica.

Neste espaço, o sonho midiático foi meu tema da semana passada, mas os especialistas em miragens insistem em mostrar a que vêm, sem contar o complexo de inferioridade tão explicitamente exposto com a visita do presidente americano apresentada como um celebrity show. As emissoras globais ficaram no ar 24 horas para contar todos os passos de Obama ou mesmo para esperar que ele os desse. A certa altura vimos um perdigueiro da informação aguardar no Galeão, por mais de uma hora, a chegada do avião que levava o visitante de Brasília ao Rio, em proveito exclusivo de uma visita instrutiva dos telespectadores a um aeroporto às moscas.

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É o recalque do vira-lata, e esta definição também não é minha, já caiu da boca de Lula. Quanto à sua ausência no almoço de Brasília, li entre as versões que ele não apareceu para “não ofuscar” a anfitriã, a mostrar toda a sua pretensão, acompanhada pela dúvida de um colunista: “ao recusar o convite”, foi malandro ou zé mané? Textos de calibres diversos clamam contra “a descortesia”. Uma colunista do Estadão aventa a seguinte hipótese: o ex-presidente quis evitar o constrangimento “de ouvir sem compreender a conversa na mesa, da qual fazia parte Fernando Henrique Cardoso”. Ah, o príncipe dos sociólogos, este é um poliglota. E não falta quem convoque a inveja de Lula por Dilma, que recebe Obama em lugar dele, embora o tivesse convidado em 2008.

Segundo um colunista do Valor Econômico, o ex também foi descortês com Obama, que já o tratou tão bem. A Folha localizou “um amigo de Lula” disposto à revelação: ele está irritado “com os elogios excessivos da mídia a Dilma”. Uma colunista da Folha vislumbra na ausência de Lula a demonstração “do contraste de estilos” e até a torna mais evidente. Neste esforço concentrado no sentido de provocar algum desentendimento entre o ex e a atual, imbatível o editorial do Estadão de domingo 20, provavelmente escrito por um aluno de Maquiavel incapaz de entender a ironia do mestre.

Fala-se em “mudança de mentalidade que emana do Planalto”, “sobriedade em lugar de espalhafato”, “distanciamento das inevitáveis servidões” do ofício presidencial. Transparente demais a manobra. Não escapa, porém, ao ato falho, ao discordar da presidenta no que se refere à posição de Dilma quanto “ao atual surto inflacionário”, embora formulada a objeção com suave cautela, para aplaudir logo o propósito do governo de abrir os aeroportos à iniciativa privada em regime de concessão.

São teclas antigas de quem professa a religião do Deus Mercado e enxerga nas privatizações os caminhos da Graça. Os praticantes brasileiros dos jogos financeiros não estão sozinhos: de fato, para variar, trata-se de pontuais discípulos, ou imitadores. Os Estados Unidos ensinam, por lá os vilões do neoliberalismo, responsáveis pela crise mundial, continuam a postos para atiçar a doença. O exemplo seduz. Aí se origina a tentativa, levada adiante obviamente pela mídia, de derrubar o ministro Guido Mantega, representante da continuidade que a tigrada gostaria de ver interrompida de vez.

As consequências da aventura neoliberal, que deixaria o próprio Adam Smith em pânico, atingem inclusive o Brasil. No ano passado crescemos 7,5%, este ano a previsão fica bastante abaixo, entre 4% e 4,5%. Será um bom resultado no confronto com outros, mas dirá que ninguém está a salvo. CartaCapital confia na permanência de Mantega e na continuidade, ainda que, desde a posse, reconheça na presidenta a capacidade de imprimir à linha do governo características da sua personalidade.

É simplesmente tolo imaginar a ruptura almejada pela mídia, perfeita intérprete de um sentimento que sobe das entranhas de burgueses e burguesotes contra o metalúrgico nordestino eleito à Presidência duas vezes por larga maioria e destinado a passar à história como o melhor e mais amado desde a fundação da República. Pelo menos até hoje. Os senhores do Brazil zil zil ainda cultivam o ódio de classe. O mesmo Lula, que frequentemente mantém contatos com a sucessora, a qual, do seu lado, sabia previamente da ausência do antecessor ao almoço, observa: “Quando me elegi, me apresentaram como a continuidade de FHC, agora dizem que Dilma não dá continuidade ao meu governo”.

O ex-presidente tucano formula, aliás,- a sua hipótese sobre a ausência de Lula: inveja dele mesmo, FHC. Quem sabe o contrário se dê de fato quando, dentro de poucos dias, Lula receber o canudo honoris causa da Universidade de Coimbra.

Teste final: se Lula fosse ao almoço, que diria a mídia? Foi para: A. Não ficar atrás de FHC; B. Pronunciar um discurso de improviso em louvor a Chávez, Fidel e Ahmadinejad. C. Ofuscar Dilma.

 

Diálogo Desenvolvimentista No 27: o PAC e a Greve

Leandro Aguiar

O alto volume de investimentos nas obras do PAC, os arrojados projetos para a Copa 2014 e Olimpíadas 2016, e a grandiloqüência do discurso “nunca antes na história desse país”, deixado como herança por Lula, já renderam algumas comparações entre Dilma Roussef e JK, como por exemplo a alcunha pouco isenta pela qual o jornalista Paulo Henrique Amorim se refere à presidenta, “JK de saias”. Maneirismos jornalísticos a parte, o fato é que se calcula que, quando o PAC estiver em pleno funcionamento, 1 milhão de pessoas estarão a serviço do Estado, nos diversos canteiros de obras espalhados pelo país.

Se por um lado a idéia de um Estado empregador parece interessante, por outro se mostra uma verdadeira dor de cabeça para o governo. Já somam 80 mil o número de operários da construção civil que estão em greve, parte deles nas hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio, em Porto Velho (RO), e outros no porto de Suape (PE) e Pecém (CE) *. O governo já se articula para evitar uma paralisação ainda maior, que poderia empecar o PAC, um dos carros chefe de Dilma, e, segundo alguns, seu filho legítimo.

Para a CUT, Central Única dos Trabalhadores, que tem se arranjado em uma quase-plena sintonia com o governo desde a posse de Lula em 2002, o problema é o grande contingente de trabalhadores juntos, e sem devida organização. Já o Sindescun-SP, Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo, julga que as paralisações se devem a escassez de mão de obra. Os operários então, por serem poucos, se vêem na condição de exigir melhores salários e condições de trabalho.

O Desenvolvimentistas discutiu brevemente a questão das paralisações nas obras do PAC. As impressões dos participantes da discussão apontaram para motivos bastante diversos dos apresentados pela CUT e pelo Sindescun-SP para as greves dos trabalhadores. Veja:

 

“Todos os que lutam por mais igualdade e justiça social deveriam posicionar-se a favor desses operários, e solidários com suas lutas e idéias, formulando ao mesmo tempo propostas de melhorias da vida do trabalhador brasileiro. Por exemplo, apesar de estarem trabalhando no mesmo país, o nosso Brasil, qualquer operário que trabalhe a mais de 1.000 km de seu domicílio encontra-se na verdade em condição similar a de um ‘expatriado’, fazendo jus a, por exemplo, salário em dobro ou em triplo. Deveríamos aproveitar a ocasião também para defender um transporte ferroviário de passageiros para o povo brasileiro, em lugar de outras inovações destinadas ao turismo e ao apoio à privatização de aeroportos. Um país de dimensões continentais como o Brasil precisa de transporte de massa rápido seguro e confiável – só o trem o é na verdade – ligando suas principais capitais.”

Ceci Juruá, economista

“As denúncias abaixo, em grande parte, são conseqüências da visão mercantilista sobre energia que domina o nosso governo. Como tenho defendido em vários fóruns, usinas hidroelétricas não são apenas fábricas de kWh, que precisam vender energia a qualquer conseqüência e tempo. No Brasil, toda a ótica do setor é talibanescamente dominada pela filosofia do “negócio”. Ora, usinas térmicas são fábricas de kWh, eólicas também, nucleares idem. Hidráulicas não! Estas são intervenções geográficas de grande porte. Deveriam ser construídas como parte de um projeto regional, onde, pela oportunidade, o estado organiza várias atividades dessas regiões que, na maioria dos casos, estiveram sempre à margem de qualquer visão estratégica. Em torno dos projetos de Sto Antônio e Jirau deveriam estar os Ministérios de Transportes, da Agricultura, da Integração Regional, da Justiça, do Turismo, da Habitação e até o da Reforma Agrária. Países desenvolvidos e beneficiados com essa dádiva da natureza não estão construindo sob essa filosofia faz tempo. Perguntem aos índios das comunidades atingidas pela usina de La Romaine no Canadá se eles querem a interrupção do projeto. Isso não é de hoje! Vejam o que foi feito no Tenesse pela TVA na década de 30. Certamente, com empresas “públicas” que atuam exatamente como as privadas, suas sócias compulsórias, vamos assistir esses conflitos ainda muito tempo. Também não é para menos. Para o país que vai ser o eterno produtor de matéria prima e produtos básicos da indústria, é isso ai mesmo.”

Roberto D’Araújo, engenheiro eletricista

*informações do Valor Econômico

 

A nova repartição colonial do mundo (2)

do Conversa Afiada

por Mauro Santayana


Os norte-americanos sempre criam, estimulam e financiam movimentos oposicionistas em todos os paises nos quais é de seu interesse desestabilizar os governos e os sistemas políticos. Estamos, nestes dias, lembrando-nos de 1964. Poderíamos nos lembrar de todos os anos anteriores, sobretudo do período entre 1945 e 1954 quando Vargas, eleito presidente, criou os instrumentos econômicos necessários ao desenvolvimento independente, com as grandes empresas estatais. Depois de morto o grande presidente, Juscelino conseguiu equilibrar-se, graças à sábia opção política de mobilizar a nação para as tarefas do crescimento acelerado.


Assim, não é de surpreender que seus agentes e aliados, nos países muçulmanos, tenham estimulado o movimento que se iniciou, de maneira aparentemente acidental, na Tunísia. Os jovens dos países islâmicos se encontram insatisfeitos com a vida. Faltam-lhes oportunidades de realização profissional e pessoal. Sua liberdade é limitada, e seus sonhos se desfazem, diante de uma sociedade fechada em si mesma.


No último dia 21, o New York Times publicou artigo de um jovem de 24 anos, e bem sucedido colaborador do respeitável Council of Foreign Relations, de Nova Iorque. Mattew C. Klein analisa a situação dos jovens norte-americanos, mostrando que a sua situação de desemprego é semelhante à dos jovens dos países pobres, e que os seus sonhos são também limitados. Ele poderia ter discutido também o desencanto da parcela não alienada da juventude de seu país com o governo, com a corrupção parlamentar e com o indecente comportamento das grandes corporações que têm a sua cabeça em Wall Street, com o belicismo de seu país.  O fato de que haja liberdade de imprensa e eleições periódicas não reduz o absolutismo essencial do sistema norte-americano. O povo vota, de quatro em quatro anos, a imprensa é livre, o sistema judiciário funciona, embora nem sempre a Suprema Corte julgue com isenção. Mas, ainda assim, a liberdade, ali, como em outros lugares, é um bem de mercado. É preciso comprá-la.


Os direitos humanos, ainda que proclamados em declarações altissonantes, são também violados nos Estados Unidos e nos países que lhes fazem coro. Basta lembrar o que se passa em Guantanamo, o que foi documentado em Abu Ghraib, e as condições a que está submetido, em uma prisão naval, o soldado norte-americano Bradley Manning.


O discurso de que a intervenção na Líbia se faz em nome dos direitos humanos e da proteção aos civis é imoral. É considerada insensata até mesmo a parlamentares britânicos, como o deputado Rory Stewart, em artigo publicado no dia 18, pela London Review of Books. Stewart não é um homem de esquerda. Deputado por um dos tradicionais redutos conservadores do Noroeste da Inglaterra, o de Penrith and the Border, o parlamentar revela  conhecimento do tema. Ele participou das tropas britânicas no Iraque, e, depois disso, atravessou a pé o Afeganistão, como parte de uma viagem maior, da Turquia ao Nepal, por 6.000 quilômetros e que durou dois anos. Embora conservador, Stewart considera um erro a participação de seu país nas cruzadas anti-islâmicas. Justifica, em parte, a intervenção na Iugoslávia, em nome da proteção das populações civis, ali ameaçadas de genocídio – mas não concorda com as demais. Reproduzimos alguns textos de seu artigo, publicado com o titulo de “Here we go again”:


Parecia duplamente improvável que a Inglaterra algum dia interviria militarmente em país como a Líbia. Embora pobre em petróleo, o Afeganistão, na Ásia Central, foi visto por muitos muçulmanos como objeto de ocupação por cruzados infiéis, comandados por Israel, e com o objetivo  de implantar bases militares ou de arranjar petróleo barato. Qualquer movimento contra a Líbia – país árabe, muçulmano, obcecado numa luta sem tréguas contra o colonialismo e suando petróleo – dava a impressão de que seria visto como movimento extremamente hostil e sinistro, primeiro pelos seus próprios vizinhos árabes; mas também pelo mundo desenvolvido e até pelos próprios líbios.


A Líbia não atende, sequer, aos critérios do direito internacional, como alvo de intervenção militar. Kadáfi é o poder soberano, não os rebeldes; não praticava nem genocídio nem limpeza étnica. Na Bósnia, a situação era diferente: em algumas semanas, haviam morrido 100 mil pessoas. E a própria Bósnia – estado soberano não reconhecido pela ONU – pediu formalmente a intervenção. O caso do Kôssovo foi menos claro, mas a intervenção visou Milósevic e veio depois das guerras dos Bálcãs, iniciadas por ele, e do deslocamento forçado de 200 mil pessoas, com provas abundantes de atrocidades movidas por preconceitos étnicos. Esse tipo de concepção do que seja uma intervenção militar legal, e que em 1999 parecia ser a quintessência da governança e do consenso global, deixou de ser a concepção dominante no Ocidente.

Como deputado à Câmara dos Comuns, ocorreu-me que talvez seja hora de lembrar às pessoas  que, apesar da desgraça do Afeganistão, a Inglaterra ainda pode ter papel construtivo no mundo.


No fim de seu artigo, o parlamentar é pessimista e vai fundo na exposição dos pretextos dos colonialistas:


“Nada me tira da cabeça que o perigo maior não é o desespero, mas as decisões irrefreáveis, quase hiperativas: o senso de alguma obrigação moral, o medo de estados-bandidos, de estados fracassados, de perdermos nossa “credibilidade”. Isso, sim, me faz temer que estejamos no início de mais uma década de superintervenção militar”.


Rory Stewart (nascido em Hong Kong, de pais ingleses, educado na Inglaterra) confirma assim o objetivo de outro movimento colonialista,  de novo “manu militari” dos velhos dominadores. Acuados pela falta de petróleo barato, eles se agarram ao passado, em busca de sua segurança e de seu orgulho, como donos do mundo.


Uma derrota do povo


Ao decidir, pelo voto do novo ministro Luis Fux, pela não validade da Lei da Ficha Limpa no pleito passado, o STF contribui para o desalento do povo e sua descrença no processo político nacional. Espera-se que, diante da decisão, o STF dê prioridade aos processos já instaurados e acelere o julgamento dos ladrões do Erário, que agora se acobertam pela decisão do tribunal. Os cidadãos honrados (entre eles os políticos decentes) sentem-se pessoalmente ofendidos pela impunidade dos corruptos, corruptores e peculatários.


A nação pode sentir-se consolada pelo fato de que cinco dos ministros foram sensíveis ao seu clamor pela moralização da atividade política.


 

O discurso de Dilma, a Liga de Democracias e a submissão voluntária

do VioMundo

por Luiz Carlos Azenha

A presidenta Dilma Rousseff fez um excelente discurso de boas vindas ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Usando o tom diplomático que a ocasião exige, Dilma reclamou das barreiras comerciais impostas a produtos brasileiros, da enxurrada de dólares que o Tesouro americano imprime, da lentidão na reforma dos organismos multilaterais e, indiretamente, afirmou que a América do Sul é “nossa”, ao mencionar a Unasul.

Estadão, obviamente, destacou o “apreço” de Obama pela pretensão brasileira de fazer parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas, deixando em segundo plano o discurso de Dilma.

Continuo acreditando que a calibragem da política externa brasileira, em andamento no governo Dilma, tenta colocar o país no papel de parceiro privilegiado dos Estados Unidos — com as vantagens e desvantagens implícitas nisso.

Do ponto-de-vista dos Estados Unidos, o governo Obama parece ter adotado uma das propostas de campanha do republicano John McCain, que este herdou do governo Bush Jr.: o estabelecimento de uma Liga das Democracias.

O objetivo não declarado da Liga: dar a volta no “terceiro mundismo” da Assembleia Geral da ONU e turbinar a política externa dos Estados Unidos diante de Rússia e China.

Os Estados Unidos fariam concessões a estes parceiros (Brasil, Índia, Indonésia) em troca de apoio político internacional.

Não é por outro motivo que o Estadão deste domingo vibra com a diplomacia de Dilma Rousseff, com editorial elogioso e tudo.

“O estilo Lula foi um momento, e já passou”, diz o professor Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins, entrevistado pelo jornal.

“Ficará na história, como ponto importante, que Lula estabeleceu o Brasil como um dos Brics. O país apareceu na arena global, com mais exportações, com muitas viagens, encontros no G-20. Lula é uma pessoa especial, é carismático. Não é um grande administrador, mas entendeu esse momento e o usou a favor do Brasil. Mas foi um momento, e passou. Não vai deixar recall.”

“É difícil imaginar o Patriota como um homem de partido”, alfineta o professor ao falar do atual chanceler Antônio Patriota, obviamente numa referência ao ex-chanceler Celso Amorim, que ingressou no PT.

“Com Dilma, há sinais de um certo ajuste de rumo”, diz Fernando Henrique Cardoso na página seguinte.

O fato é que os Estados Unidos sempre se opuseram à entrada do Brasil no Conselho de Segurança, entre outros motivos por serem depositários do medo que os vizinhos do Brasil expressam, privadamente, a respeito de nossas supostas pretensões expansionistas. Qualquer brasileiro disposto a ouvir vai encontrar reticências a respeito da postura internacional do Brasil na Bolívia, no Paraguai, na Colômbia, na Venezuela…

O Itamaraty sabe disso e aparentemente trabalha em busca de um equilíbrio entre as relações com a vizinhança imediata e os Estados Unidos.

O risco, sempre, é o de trocar coisas concretas e importantes por “apreço”.

Talvez fosse o caso de não considerar assim tão importante a entrada do Brasil no Conselho de Segurança. Ou de pelo menos se perguntar: a que custo?

Aqui eu posso falar de cátedra, depois de ter vivido e acompanhado de perto, durante quase 20 anos, como funcionam os Estados Unidos: estejam republicanos ou democratas no poder, Washington sempre coloca seus interesses econômicos acima de tudo e joga duro na defesa deles.

A ponto de o Departamento de Estado criar centenas de listas, condenando este ou aquele país por uma infinidade de motivos. Qual é a função das listas? Negociar a retirada dos países em troca de concessões reais. É a tática de colocar o bode na sala alheia, para negociar a retirada.

E é aí que entra a tendência à “submissão voluntária”, como notou um comentarista deste site.

Não conheço documento tão eloquente sobre ela quanto o telegrama do WikiLeaks que flagrou tucanos e tucanófilos falando mal do governo Lula a diplomatas americanos. Seria impensável nos Estados Unidos: jamais republicanos ou democratas se aliaram a estrangeiros para adiantar seu lado. Americano defende, sempre e em primeiro lugar, o interesse dos Estados Unidos.

Se, de um lado, a presidenta Dilma Rousseff fez um discurso impecável, a “submissão voluntária” ficou explícita nesta breve visita de Barack Obama: nos dirigentes do PT que desautorizaram manifestações de militantes do partido, na permissão dada a agentes estrangeiros para revistar autoridades brasileiras em Brasília, na ideia maluca de permitir um comício de Obama na Cinelândia e na cobertura dos jornais, que hierarquizaram o Brasil como o “menos igual” na suposta parceria estratégica.

Para evitar nossa tendência à submissão voluntária, seria o caso de se perguntar, sempre: o que é que vamos ganhar com isso?

PS do Viomundo: Outra diferença gritante entre Brasil e Estados Unidos. Lá, os políticos e candidatos expõem publicamente seus pontos-de-vista sobre política externa. No Brasil, é tudo decidido entre quatro paredes e as posturas só ficam explícitas depois das eleições.