Diálogo Desenvolvimentista No 27: o PAC e a Greve

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Leandro Aguiar

O alto volume de investimentos nas obras do PAC, os arrojados projetos para a Copa 2014 e Olimpíadas 2016, e a grandiloqüência do discurso “nunca antes na história desse país”, deixado como herança por Lula, já renderam algumas comparações entre Dilma Roussef e JK, como por exemplo a alcunha pouco isenta pela qual o jornalista Paulo Henrique Amorim se refere à presidenta, “JK de saias”. Maneirismos jornalísticos a parte, o fato é que se calcula que, quando o PAC estiver em pleno funcionamento, 1 milhão de pessoas estarão a serviço do Estado, nos diversos canteiros de obras espalhados pelo país.

Se por um lado a idéia de um Estado empregador parece interessante, por outro se mostra uma verdadeira dor de cabeça para o governo. Já somam 80 mil o número de operários da construção civil que estão em greve, parte deles nas hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio, em Porto Velho (RO), e outros no porto de Suape (PE) e Pecém (CE) *. O governo já se articula para evitar uma paralisação ainda maior, que poderia empecar o PAC, um dos carros chefe de Dilma, e, segundo alguns, seu filho legítimo.

Para a CUT, Central Única dos Trabalhadores, que tem se arranjado em uma quase-plena sintonia com o governo desde a posse de Lula em 2002, o problema é o grande contingente de trabalhadores juntos, e sem devida organização. Já o Sindescun-SP, Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo, julga que as paralisações se devem a escassez de mão de obra. Os operários então, por serem poucos, se vêem na condição de exigir melhores salários e condições de trabalho.

O Desenvolvimentistas discutiu brevemente a questão das paralisações nas obras do PAC. As impressões dos participantes da discussão apontaram para motivos bastante diversos dos apresentados pela CUT e pelo Sindescun-SP para as greves dos trabalhadores. Veja:

 

“Todos os que lutam por mais igualdade e justiça social deveriam posicionar-se a favor desses operários, e solidários com suas lutas e idéias, formulando ao mesmo tempo propostas de melhorias da vida do trabalhador brasileiro. Por exemplo, apesar de estarem trabalhando no mesmo país, o nosso Brasil, qualquer operário que trabalhe a mais de 1.000 km de seu domicílio encontra-se na verdade em condição similar a de um ‘expatriado’, fazendo jus a, por exemplo, salário em dobro ou em triplo. Deveríamos aproveitar a ocasião também para defender um transporte ferroviário de passageiros para o povo brasileiro, em lugar de outras inovações destinadas ao turismo e ao apoio à privatização de aeroportos. Um país de dimensões continentais como o Brasil precisa de transporte de massa rápido seguro e confiável – só o trem o é na verdade – ligando suas principais capitais.”

Ceci Juruá, economista

“As denúncias abaixo, em grande parte, são conseqüências da visão mercantilista sobre energia que domina o nosso governo. Como tenho defendido em vários fóruns, usinas hidroelétricas não são apenas fábricas de kWh, que precisam vender energia a qualquer conseqüência e tempo. No Brasil, toda a ótica do setor é talibanescamente dominada pela filosofia do “negócio”. Ora, usinas térmicas são fábricas de kWh, eólicas também, nucleares idem. Hidráulicas não! Estas são intervenções geográficas de grande porte. Deveriam ser construídas como parte de um projeto regional, onde, pela oportunidade, o estado organiza várias atividades dessas regiões que, na maioria dos casos, estiveram sempre à margem de qualquer visão estratégica. Em torno dos projetos de Sto Antônio e Jirau deveriam estar os Ministérios de Transportes, da Agricultura, da Integração Regional, da Justiça, do Turismo, da Habitação e até o da Reforma Agrária. Países desenvolvidos e beneficiados com essa dádiva da natureza não estão construindo sob essa filosofia faz tempo. Perguntem aos índios das comunidades atingidas pela usina de La Romaine no Canadá se eles querem a interrupção do projeto. Isso não é de hoje! Vejam o que foi feito no Tenesse pela TVA na década de 30. Certamente, com empresas “públicas” que atuam exatamente como as privadas, suas sócias compulsórias, vamos assistir esses conflitos ainda muito tempo. Também não é para menos. Para o país que vai ser o eterno produtor de matéria prima e produtos básicos da indústria, é isso ai mesmo.”

Roberto D’Araújo, engenheiro eletricista

*informações do Valor Econômico

 

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