Diálogo Desenvolvimentista Nº25: A esquerda e a direita brasileira

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Leandro Aguiar

A dicotomia esquerda/direita é antiga, data da revolução francesa, e, óbvio, sempre representou muito mais do que a simples preferência por sentar-se de um ou do outro lado Rei: o desacordo mora no campo das idéias, no modo como as questões fundamentais são tratadas.

Em alguns países, a exemplo dos Estados Unidos, a oposição entre as duas correntes é facilmente sentida. Basta acompanhar as atuações do partido Republicano e Democrata para entender o quão inconciliáveis são, entre si, suas idéias. No Brasil, entretanto, excetuando-se os termos usados por alguns blogueiros na mútua referência, como “demotucanos”, para o PSDB/DEM e “petralhas” para o PT, a divergência entre esquerda e direita é imprecisa, confusa. Quando se analisa as atuações dos governos, então, fica praticamente impossível traçar uma linha divisória entre os defensores de uma ou de outra ideologia.

Um fato atual que ilustra bem a pouca consistência ideológica dos políticos de carreira no Brasil, em benefício do pragmatismo eleitoral, é a aproximação entre o governador pernambucano Eduardo Campos, presidente do PSB, partido tradicionalmente de “esquerda”, e Gilberto Kassab, do DEM, legenda considerada por alguns a representante da extrema direita brasileira. A possibilidade da criação de um partido, por Kassab, que num futuro próximo se aglutinaria ao PSB, causou comoção em grande parte dos esquerdistas, como pode ser percebido no texto de Edilson Silva, do PSOL, que faz oposição ao governo de Eduardo Campos.

Como sempre, o Desenvolvimentistas debateu a questão. Acompanhe:

“Valeria mais o colega (Edilson Silva), que é de Pernambuco, fazer uma avaliação das políticas públicas daquele estado e apontar as fragilidades. Mas o objetivo do texto não é esse, é apenas marcar posição, sem muitos argumentos objetivos. A participação em um partido cheio de contradições como o PSB (ou ainda o PDT, ou o PT) é mais interessante nesse momento, já que num ambiente de tanto trabalho a fazer, cujas certezas são tão frágeis, apenas marcar posição não basta.”

“O problema de dar continuidade ao debate sobre tal aproximação Campos-Kassab é tomá-la como definida. Não está! O que os militantes à esquerda no PSB tem de fazer é se posicionar contra esse eventual movimento e não tomá-lo como favas contadas.”

Rômulo Neves, sobre o artigo de Edilson Silva

“Até agora não vi ninguém demonstrar que o Kassab é ladrão ou algo do tipo. Se o defeito dele for apenas estar filiado ao DEM não me parece nada tão preocupante. Quem deve estar preocupado com isso são os tucanos alquimistas e seus amigos formadores de opinião. Mas concordo que o ideal seria que os partidos tivessem alguma democracia interna ao tratar de temas como esse, conforme reivindica a Erundina. Só q isso apenas reforça, a meu ver, a necessidade de que as pessoas insatisfeitas com o modus operandis dos partidos entrem neles para contribuir com essa democracia interna.”

“No Brasil para certo pluralismo político, mas a maioria das pessoas que dizem se preocupar com as questões públicas pouco fazem para participar do processo político. Se limitam a acompanhar o noticiário e reagir com um ceticismo distanciado, julgando os movimentos de quem tenta se articular, apresentar propostas e agregar apoios.”

Márcio Oliveira, analista político

“O problema do Kassab não é só ser filiado ao DEM. Obviamente que esse é também um problema, por tudo que o DEM tem representado no atual debate político nacional, na radicalização conservadora, se não lhe bastar a história do partido. Além disso, não podemos nos esquecer que seu aliado primeiro, padrinho, foi e é José Serra, que sabemos muito bem para qual lado mira.

O que acompanho de alguns militantes da esquerda de São Paulo é sua truculência com os movimentos sociais. Caso concreto recente foi a questão do aumento do preço do transporte coletivo, ou uma questão envolvendo os moradores de rua, Mas tem questões de ineficiência administrativa, divididas com o estado, relacionadas ao caos que se instala com as chuvas e enchentes, os tantos incêndios ocorridos recentemente nas favelas paulistanas, e as denúncias relacionadas ao metrô que, se não direcionadas diretamente a ele, envolvem o grupo do qual faz.”

Leandro Couto, analista político

“Os ditos de esquerda hoje fazem o jogo do grande capital na maior felicidade contra os interesses do povo. isso vale para o PT, PSOL, PSB e PSTU. O PT porque fez um governo de direita (com alguns toques de centro), apesar de se dizer de esquerda. Os radicais também acabam fazendo esse jogo ao tentar interditar o debate real (o que é tudo o que o grande capital quer) o rótulo nominal (e não real) entre esquerda e direita não tem contribuindo muito para o debate político brasileiro, porque virou só peça de marketing e de falsas divisões.

Uma política desenvolvimentista com viés social democrata (real e não de gogó) e aberta às adesões da política real (eleita pelo povo) é a única coisa que pode unir o país em um projeto comum. ”

Gustavo Santos, economista

“Essa polêmica de esquerda x direita, que já sofreu um desgaste evidente a nível mundial, aqui no Brasil, me parece bastante vazia. O velho debate sobre o capital, mais valia, luta de classes e mesmo outros temas mais modernos parecem fora do contexto por aqui. Primeiro porque o fantástico débito educacional brasileiro alija grande parte da população do simples entendimento das questões. Segundo porque a polêmica não se traduz em propostas concretas de ambos os lados. Hoje, se um Marciano politizado visitar o Brasil e quiser entender quem é “de direita” e “de esquerda” vai ser difícil explicar.”

Roberto D’Araújo, engenheiro eletricista

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