Diálogos Desenvolvimentistas Nº 22: 0% de crescimento?

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Leandro Aguiar

O capitalismo que vivemos hoje se baseia em grande parte no aumento contínuo dos níveis de consumo. Foi esse aumento que ajudou os EUA a retomar, mesmo que timidamente, suas taxas de crescimento econômico, e parece ser o consumo das famílias, também, que puxou a alta nada tímida do PIB brasileiro, estimado em 7% para o ano de 2010.  

Para alguns economistas, entretanto, a idéia de que crescimento econômico e consumo são inerentemente bons deve ser revista imediatamente.

Quanto ao consumo, nada de novo. Filmes, festivais de música e candidatos a presidente já defenderam a idéia de um consumo mais consciente. Todos sabemos que a água deve ser usada com parcimônia, que eletrodomésticos com o selo do Inmetro são preferíveis aos que não possuem o selo, e não há quem não seja a favor da diminuição dos níveis de gases estufa expelidos pela indústria.

O que esses economistas chamados de “economistas ecológicos” defendem, no entanto, é bem mais polêmico que o politicamente-correto “crescimento sustentável”. Para alguns desses estudiosos, como o canadense Peter Victor, a solução para o problema ambiental é o crescimento zero, além de uma mudança radical no modo como as pessoas encaram o consumo, que hoje é visto como fator indispensável para bem estar social. (leia a matéria da Época sobre crescimento zero).   

O Desenvolvimentistas discutiu a necessidade de se remodelar a economia para atingir a sustentabilidade. Foi chamada a atenção para o fato de que os países desenvolvidos são aqueles que possuem maiores níveis de consumo insustentável, ambientalmente falando, e de que eles dificilmente estariam dispostos a diminuir tal ritmo. Sobraria, portanto, para os países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e China, brecar seu crescimento. Alternativas também foram apontadas: o desenvolvimento tecnológico, por exemplo, pode ser uma forma de contornar o problema ambiental.

A seguir, os principais momentos do debate:

“(…) Trata-se de um debate bem polêmico. Ouso, entretanto, dizer que se John M. Keynes estivesse vivo ele provavelmente acrescentaria no capítulo 24 da sua ‘Teoria geral’ os problemas ambientais.

Para quem não se recorda da famosa citação de Keynes: “Os dois principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas”. (cap. 24, I).”

(…)

“A aposta no desenvolvimento tecnocientífico é uma mitologia do tipo Prometeu. Pode ajudar na eficiência energética com certeza, porém o desenvolvimento econômico busca elevar o padrão de vida médio de uma sociedade, que, por sua vez, irá consumir mais energia per capita.”

Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

(…) Quem vai pagar o preço?: 1) o pobres vão continuar relativamente mais pobres e ou desinteressados em se reproduzir até sua população decrescer (como querem os conservadores e já está tendendo a acontecer em muitos países, inclusive o Brasil, Índia, China e boa parte da áfrica subsaariana)? 2) ou os países ricos vão reduzir sua renda até se igualar aos atuais pobres em um ponto médio? 3) ou é melhor apostar no desenvolvimento tecnológico?”

Gustavo Santos, economista

“Acredito que o desenvolvimento passa por aumento do consumo nos países mais pobres simultaneamente com a diminuição do consumo nos países mais ricos. Provavelmente há países com nível de consumo per capita sustentável, ainda que desigual e injusto internamente. O Brasil deve ser um exemplo desse tipo de país.

Desenvolvimento tecnológico é sem dúvida necessário, mas é evidente que há limites para o consumo total no planeta. A aposta que o desenvolvimento tecnológico é a resposta para todos os problemas é a aposta do Capital, que não conhece limites e quer continuamente se expandir na sua lógica competitiva.”

Mauro Patrão, professor do departamento de matemática da UNB

Em termos globais, depois dos fracassos das convenções internacionais, parece evidente que as lideranças mundiais são insensíveis ao problema. Agora, aqui no Brasil, a questão é tratada de forma equivocada há muito tempo. O fato de termos uma matriz mais renovável não nos deveria “isentar” do problema.”

Roberto Pereira D´Araújo, engenheiro eletricista

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