Arquivo mensais:fevereiro 2011

O Egipto à beira do sangue

por Thierry Meyssan

De há uma semana a esta parte os meios de comunicação ocidentais fazem-se eco das manifestações e da repressão que agitam as grandes cidades egípcias. Traçam um paralelo com as que levaram ao derrube de Zine el-Abidine Ben Ali na Tunísia e evocam um vendaval de revolta no mundo árabe. Segundo eles, este movimento podia estender-se à Líbia e à Síria. Devia favorecer os democratas laicos e não os islamitas, prosseguem eles, porque a influência dos religiosos foi sobrestimada pela administração Bush e o “regime dos molllah” no Irão é um dissuasor. Assim se concretizariam os votos de Barack Obama na Universidade do Cairo:   a democracia reinará no Próximo Oriente.

Esta análise é falsa segundo todas as perspectivas.

  • Primeiro, as manifestações começaram no Egipto já há alguns meses. Os meios de comunicação ocidentais não lhes prestaram atenção porque pensavam que elas não levariam a nada. Os egípcios não foram contaminados pelos tunisinos, mas foram os tunisinos que abriram os olhos dos ocidentais sobre o que se passa naquela região.
  • Em segundo lugar, os tunisinos revoltaram-se contra um governo e uma administração corruptos que foram espoliando gradualmente toda a sociedade, privando de qualquer esperança classes sociais cada vez mais numerosas. A revolta egípcia não é dirigida contra esse modo de exploração, mas contra um governo e uma administração que estão tão ocupados em servir os interesses estrangeiros que já não têm energia para satisfazer as necessidades básicas da sua população. No decurso dos últimos anos, o Egipto assistiu a inúmeros motins, quer contra a colaboração com o sionismo, quer provocados pela fome. Estes dois assuntos estão intimamente ligados. Os manifestantes evocam indistintamente os acordos de Camp David, o bloqueio a Gaza, os direitos do Egipto às águas do Nilo, a partilha do Sudão, a crise de habitação, o desemprego, a injustiça e a pobreza.

 

  • Além disso, a Tunísia era administrada por um regime policial, enquanto que o Egipto é-o por um regime militar. Digo aqui ‘administrado’ – e não ‘governado’ – porque em ambos os casos, trata-se de Estados sob uma tutela pós-colonialista, privados de política estrangeira e de defesa independente.

    Segue-se que na Tunísia, o exército pôde interpor-se entre o Povo e a polícia do ditador, enquanto que no Egipto, o problema será resolvido pelo fuzil automático entre militares.

  • Em terceiro lugar, se o que se passa na Tunísia e no Egipto serve de encorajamento para todos os povos oprimidos, estes últimos não são os que os meios de comunicação ocidentais imaginam. Para os jornalistas, os maus são os governos que contestam – ou fingem contestar – a política ocidental. Enquanto que para os povos, os tiranos são os que os exploram e humilham. É por isso que penso que não iremos assistir às mesmas revoltas em Damasco. O governo de Bachar el-Assad é o orgulho dos sírios: alinhou do lado da Resistência e soube preservar os seus interesses nacionais sem nunca ceder às pressões. Acima de tudo, soube proteger o país do destino que Washington lhe reservava: ou o caos à moda iraquiana, ou o despotismo religioso à moda saudita. Claro que é muito contestado em muitos aspectos da sua gestão, mas desenvolve uma burguesia e os procedimentos democráticos que a acompanham. Pelo contrário, estados como a Jordânia e o Iémen são instáveis no que se refere ao mundo árabe, e o contágio também pode atingir a África negra, por exemplo o Senegal.
  • Em quarto lugar, os meios de comunicação ocidentais descobrem tarde demais que o perigo islamista é um espantalho. No entanto é preciso reconhecer que foi activado pelos Estados Unidos de Clinton e pela França de Miterrand nos anos 90 na Argélia, e depois foi exagerado pela administração Bush na sequência dos atentados de 11 de Setembro, e alimentado pelos governos neo-conservadores europeus de Blair, Merkel e Sarkozy.

    Também é preciso reconhecer que não há nada em comum entre o wahhabismo à saudita e a Revolução islâmica de Rouhollah Khomeiny. Qualificá-los a ambos de ‘islamitas’ não só é absurdo como é impedir que se compreenda o que se está a passar.

    Os Seoud financiaram, de acordo com os Estados Unidos, grupos muçulmanos sectários que defendem o regresso à imagem que têm da sociedade do século VII, no tempo do profeta Maomé. Já não têm mais impacto no mundo árabe do que têm os amish nos Estados Unidos, com as suas carroças puxadas a cavalos.

    A Revolução de Khomeiny não pretende instaurar uma sociedade religiosa perfeita, mas derrubar o sistema de dominação mundial. Afirma que a acção política é um meio para o homem se sacrificar e se transcender e, por conseguinte, que é possível encontrar no Islão a energia necessária à mudança.

    Os povos do Próximo Oriente não querem substituir as ditaduras policiais ou militares que os esmagam por ditaduras religiosas. Não há perigo islamita. Simultaneamente, o ideal revolucionário islâmico que já produziu o Hezbollah na comunidade xiita libanesa, influencia agora o Hamas na comunidade sunita palestina. Pode de facto desempenhar um papel nos movimentos em curso, e já o desempenha no Egipto.

  • Em quinto lugar, por muito que desagrade a certos observadores, apesar de assistirmos a um regresso da questão social, este movimento não pode ser reduzido a uma simples luta de classes. É verdade que as classes dominantes receiam as revoluções populares, mas as coisas são mais complicadas. Assim, sem surpresas, o rei Abdallah da Arábia Saudita telefonou ao presidente Obama para lhe pedir que faça parar a desordem no Egipto e proteja os governos existentes na região, prioritariamente o seu. Mas este mesmo rei Abdallah acaba de favorecer uma mudança de regime no Líbano pela via democrática. Abandonou o multimilionário líbano-saudita Saad Hariri e apoiou a coligação de 8-Março, Hezbollah incluído, para o substituir como primeiro-ministro por um outro multimilionário líbano-saudita Najib Mikati. Hariri tinha sido eleito por parlamentares que representavam 45% do eleitorado, enquanto que Mikati acaba de ser eleito por parlamentares representando 70% do eleitorado. Hariri estava enfeudado a Paris e a Washingtom, Mikati anuncia uma política de apoio à Resistência nacional. A questão da luta contra o projecto sionista é actualmente superdeterminante em relação aos interesses de classe. Além disso, mais do que a distribuição da riqueza, os manifestantes põem em causa o sistema capitalista pseudoliberal imposto pelos sionistas.
  • Em sexto lugar, para voltar ao caso egípcio, os meios de comunicação ocidentais lançaram-se em volta de Mohamed ElBaradei que designaram por líder da oposição. É ridículo. M. ElBaradei é uma personalidade com uma reputação simpática na Europa, porque resistiu algum tempo à administração Bush, sem se lhe opor totalmente. Personifica pois a boa consciência europeia face ao Iraque, que se opunha à guerra e acabou por apoiar a ocupação. No entanto, objectivamente, M. ElBaradei é a água morna que recebeu o Prémio Nobel da Paz para que Hans Blix não o recebesse. É sobretudo uma personalidade sem qualquer eco no seu próprio país. Não existe politicamente a não ser porque a Irmandade Muçulmana o escolheu para seu porta-voz nos meios de comunicação ocidental.

    Os Estados Unidos fabricaram adversários mais representativos, como Ayman Nour, que não tarda muito vai ser tirado do chapéu, apesar de as suas posições a favor do pseudo-liberalismo económico o desqualificarem perante a crise social que o país atravessa.

    Como quer que seja, na realidade, só existem duas organizações de massas, implantadas na população, que há muito se opõem à política actual: a Irmandade Muçulmana, por um lado, e a Igreja cristã copta, por outro lado, (apesar de S.B. Chenoudda III distinguir a política sionista de Mubarak que ele combate, do rais [1] com que se entende). Este ponto escapou aos meios de comunicação ocidentais porque fizeram crer há pouco tempo ao público que os coptas estavam a ser perseguidos pelos muçulmanos quando estavam a ser perseguidos pela ditadura de Mubarak.

  • Aqui torna-se útil um parêntesis: Hosni Mubarak acaba de nomear Omar Suleiman para vice-presidente. É um gesto claro que pretende tornar mais difícil a sua eventual eliminação física pelos Estados Unidos. Mubarak chegou a presidente porque tinha sido designado vice-presidente e os Estados Unidos mandaram assassinar o presidente Anuar el-Sadate pelo grupo de Ayman al-Zawahri. Portanto, sempre se recusou até agora a arranjar um vice-presidente com medo de ser assassinado por sua vez. Ao designar o general Suleiman, escolheu um dos seus cúmplices com quem manchou as mãos no sangue de Sadate. A partir de agora, para conquistar o poder, não bastará matar apenas o presidente, será preciso executar também o seu vice-presidente. Ora, Omar Suuleiman é o principal artífice da colaboração com Israel. Washington e Londres vão pois protegê-lo como às meninas dos seus olhos.

    Além do mais, Suleiman pode apoiar-se em Tsahal [2] contra a Casa Branca. Já começou por chamar atiradores de elite e material israelwnses que estão prontos para matar os cabecilhas da multidão.

    O general-presidente Hosni Mubarak e o seu general-vice-presidente Omar Suleiman apareceram na televisão com os seus generais conselheiros para dar a entender que o exército tem o poder e vai mantê-lo.

  • Em sétimo lugar, a situação actual revela as contradições da administração americana. Barack Obama estendeu a mão aos muçulmanos e apelou à democracia aquando do seu discurso na universidade do Cairo. No entanto, agora, vai utilizar todo o seu empenho para impedir eleições democráticas no Egipto. Se pode aceitar um governo legítimo na Tunísia, não pode fazê-lo no Egipto. As eleições beneficiariam a Irmandade Muçulmana e os coptas. Escolheriam um governo que abriria a fronteira de Gaza e libertaria o milhão de pessoas que lá estão encerradas. Os palestinos, apoiados pelos seus vizinhos, o Líbano, a Síria e o Egipto, derrubariam o jugo sionista.

    É preciso assinalar aqui que, no decurso dos dois últimos anos, estrategas israelenses conceberam um golpe retorcido. Considerando que o Egipto é uma bomba social, que a revolução é inevitável e está iminente, conceberam favorecer um golpe de estado militar em benefício de um oficial ambicioso e incompetente. Este lançaria uma guerra contra Israel e seria vencido. Tel-Aviv poderia assim reencontrar o seu prestígio militar e recuperar o monte Sinai e as suas riquezas naturais. Sabe-se que Washington se opôs decididamente a este cenário demasiado difícil de controlar.

    O que é certo é que o Império anglo-saxão se mantém agarrado aos princípios que fixou em 1945: é favorável às democracias que fazem uma ‘boa escolha’ (a do servilismo), e opõe-se aos povos que fazem a ‘má escolha’ (a da independência).

    Por conseguinte, se acharem necessário, Washington e Londres apoiarão sem reservas um banho de sangue no Egipto, desde que o militar que levar a melhor se comprometa a perpetuar o statu quo internacional.

  • 31/Janeiro/2011

    NT
    [1] Rais: título usado pelos dirigentes de estados muçulmanos na Índia, no Médio Oriente e na Ásia do Sul.
    [2] Tsahal: nome dado às forças armadas de Israel.

  • Imagens do Egipto em http://totallycoolpix.com/2011/01/the-egypt-protests/
  • [*] Analista político francês, presidente-fundador do Réseau Voltaire da conferência Axis for Peace . Publica toda semana crónicas de política estrangeira na imprensa árabe e russa. Última obra publicada: L’Effroyable imposture 2 , éd. JP Bertand (2007).

    O original encontra-se em http://www.voltairenet.org/article168311.html . . Tradução de Margarida Ferreira.

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

China dispara na corrida pela energia nuclear limpa

Por Richard Martin

Tradução: Marcos O. Costa

A China anunciou oficialmente que vai lançar um programa para desenvolver um reator nuclear de sal fundido a base de tório, dando um passo decisivo para transformar a energia nuclear em uma fonte primária limpa.

O projeto foi apresentado na reunião anual da Academia Chinesa de Ciências em Xangai na semana passada, e relatada no jornal Wen Hui Bao (Google Inglês tradução aqui ).

Se o reator funcionar como o planejado, a China poderá realizar um sonho longamente adiado de produzir-se energia nuclear limpa. Os Estados Unidos poderiam se tornar dependentes da tecnologia chinesa, ficando drasticamente para trás na corrida pelo desenvolvimento de energias verdes.

“O presidente Obama falou sobre uma reação americana,  semelhante à ocorrida após o lançamento da Sputnik “, escreveu Charles Barton, criador do blog Nuclear Green Revolution.

Enquanto quase todos os atuais reatores nucleares funcionam com urânio, o elemento radioativo tório é conhecido como um combustível alternativo mais seguro, mais limpo e abundante. O tório é particularmente adequado para uso em reatores de sal fundido, ou MSRs. As reações nucleares ocorrem dentro de um núcleo líquido ao invés de barras de combustível sólido, e não há risco de colapso.

Além de sua segurança, os MSRs podem consumir vários tipos de combustível nuclear, incluindo as reservas existentes de resíduos nucleares. Seus derivados não são adequados para a fabricação de armas de qualquer tipo. Eles também podem atuar como breeders, produzindo mais combustível do que consomem.

Na década de 1960 e 70, os Estados Unidos fizeram uma extensa pesquisa sobre tório e MSRs no Oak Ridge National Laboratory. Este trabalho foi abandonado, em parte porque os reatores com base em urânio geram, como subproduto, plutônio para bombas. Hoje, com menos demanda por armas nucleares e diante do crepúsculo do petróleo barato, vários países – incluindo Portugal, França e Noruega – estão perseguindo os ciclos à base de tório  como combustível nuclear. (O movimento popular para promover um reator americano alimentado por tório foi abordado na revista Wired de Dezembro de 2009 ).

O novo programa chinês é a maior iniciativa nacional de tório-MSR até hoje. A República Popular da China já havia anunciado planos para construir dezenas de novos reatores nucleares nos próximos 20 anos, aumentando a sua oferta de energia nuclear em 20 vezes , e se desprendendo do carvão, do qual ela é uma das maiores consumidoras do mundo.  Projetar um reator de sal fundido à base de tório pode colocar a China na vanguarda da corrida para construir reatores ambientalmente seguros, eficazes e politicamente palatáveis.

“Precisamos de um forno capaz de queimar mais combustível”, diz Xu Hongjie, investigador principal do Instituto de Física Aplicada de Xangai, segundo o Wen Hui Bao.

O programa especial da China é liderado por Jiang Mianheng, filho do ex-presidente chinês Jiang Zemin. Vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências, o jovem Jiang é Ph.D. em Engenharia Elétrica pela Drexel University. Uma delegação chinesa liderada por Jiang revelou os planos com o tório para os cientistas de Oak Ridge, durante uma visita ao laboratório nacional no ano passado.

O anúncio oficial acontece no momento em que o governo Obama comprometeu-se a financiar fundos de pesquisa para a próxima geração de tecnologia nuclear. O presidente mencionou especificamente Oak Ridge National Laboratory, no seu discurso de 25 de janeiro, mas o fato é que, atualmente, não há nenhum programa financiado pelo governo para o desenvolvimento do tório como combustível alternativo nuclear.

Uma fonte de energia nuclear chinesa à base de tório é vista por muitos analistas como uma ameaça à competitividade econômica dos EUA. Durante uma apresentação em Oak Ridge em 31 de janeiro, Jim Kennedy, CEO da St. Louis Wings Enterprises (que está tentando ganhar a aprovação para iniciar uma mina de terras raras e tório em Pea Ridge, Missouri) retratou o desenvolvimento de tório chinês como potencialmente devastador.

“Se perdermos o barco sobre isso, como poderemos competir na economia mundial?” Kennedy perguntou. “O que mais teremos para exportar?”

De acordo com especialistas, os Estados Unidos poderiam ser obrigados, daqui a 20 anos, a importar uma tecnologia  que foi, originalmente, desenvolvida em um de seus principais institutos de pesquisa. A versão alarmista da estratégia chinesa sobre a próxima geração de energia nuclear pode ser assim resumida: Se você gosta de dependência do petróleo estrangeiro, você vai amar a dependência externa nuclear.

“Quando ouvi isso, pensei: já  aconteceu”, disse Kirk Sorensen, tecnólogo nuclear-chefe do Teledyne Brown Engineering e criador do blog Energy From Thorium. “Talvez isso possa chamar atenção das pessoas em Washington”.

Embora a iniciativa internacional “Geração IV” inclui um grupo de trabalho sobre MSRs  de tório, a China deixou claro sua intenção de ir sozinha. O anúncio da Academia Chinesa de Ciências afirma, explicitamente, que a  China pretende desenvolver e controlar a propriedade intelectual em torno de tório para seu próprio benefício.

“Isso permitirá à China deter, em suas mãos, o controle firme da produção de energia”, afirmou a reportagem  do Wen Hui Bao.

 Imagem: Usina Nuclear torres de resfriamento em Byron, Illinois ( Doug Bowman / Flickr)

http://www.wired.com/wiredscience/2011/02/china-thorium-power/?utm_sourc…

obs: a tradução carece de uma revisão  feita  por especialista em energia nuclear. Faço apenas um comentário: a China possui metade das reservas mundiais de Tório

Produção industrial tem maior alta em 24 anos, diz IBGE

 FIESP – Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos

A produção industrial brasileira cresceu 10,5% em 2010 em relação ao ano anterior. Esta é a maior alta desde 1986, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ao longo do ano passado, todas as 14 regiões pesquisadas registraram crescimento. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (2).

O bom desempenho em 2010 vem após retração de 7,4% em 2009, quando a economia brasileira sofria com os efeitos da crise econômica mundial.

Entre as atividades, a maior elevação foi dos setores de veículos automotores (24,2%) e de máquinas e equipamentos (24,3%), seguidos por metalurgia básica (17,4%), indústrias extrativas (13,4%), outros produtos químicos (10,2%), produtos de metal (23,4%), alimentos (4,4%), borracha e plástico (12,5%) e bebidas (11,2%).

Somente os setores de produtos do fumo (com queda de 8%) e de outros equipamentos de transporte (0,1%) apontaram taxas negativas.

No quarto trimestre de 2010, a atividade cresceu 3,3% sobre igual período do ano anterior, mas teve variação negativa de 0,1% sobre o terceiro trimestre de 2010.

Dezembro

A produção em dezembro de 2010 cresceu 2,7% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Na comparação com novembro de 2009, houve queda de 0,7%.

Em dezembro na comparação com o mesmo mês de 2009, houve crescimento em 19 dos 27 setores, com destaque para veículos automotores (12,1%), indústrias extrativas (10,4%) e máquinas e equipamentos (6,2%).

Nas categorias de uso, todos os segmentos foram positivos, sendo as maiores altas de bens de capital (6,2%) e bens de consumo duráveis (6%).

A atividade de bens intermediários cresceu 2,7% e a de bens de consumo semi e não duráveis, 0,4%.

Na comparação entre dezembro e novembro, 11 setores tiveram queda e 15 apuraram crescimento da produção.

Os destaques de baixa foram material eletrônico e equipamentos de comunicações (13,3%) metalurgia básica (4,2%) e edição e impressão (2,5%).

Entre as categorias de uso, três registraram recuo: bens de consumo duráveis (0,6%), bens de consumo semi e não duráveis (0,4%) e bens de capital (0,5%), enquanto a produção de bens intermediários ficou estável.

(Com informações da Reuters)

Fora dos trilhos

David Kupfer

 

Em meio a tantas notícias, uma matéria publicada pelo Valor em 17 de janeiro último merece registro pela simplicidade com que desnuda um velho problema do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro. De acordo com o texto, o Ministério dos Transportes, por intermédio de uma de suas empresas públicas, a Valec, acabara de lançar um edital internacional para aquisição de cerca de 250 mil toneladas de trilhos a serem utilizados na construção de novos trechos das ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste, totalizando quase 2 mil quilômetros até o final de 2012.

O que chama atenção na notícia é o fato de que, de acordo com a empresa, a busca de fornecedores estrangeiros deve-se à ausência de empresas brasileiras interessadas em produzir os trilhos. Pequeno detalhe: considerando-se os preços médios de 2010, o país espera pagar US$ 864 por tonelada aos fornecedores, presumidamente, chineses ou de países do Leste Europeu, que fabricarão os trilhos com minério de ferro comprado no Brasil a US$ 130 por tonelada.

Não é difícil entender porque a produção nacional de trilhos no Brasil sucumbiu nos idos de 1996, quando a Companhia Siderúrgica Nacional desativou o último laminador para produção desses produtos em atividade no país devido à falta de encomendas, de vez que a construção ferroviária via-se virtualmente interrompida há anos e apresentava pouca ou nenhuma perspectiva de expansão. Não tão fácil, porém, é compreender porque a forte retomada dos projetos ferroviários em curso nos últimos anos não tem se mostrado suficiente para estimular as empresas locais a ocuparem essa demanda. E mais ainda, quando se sabe que uma empresa multinacional já produz locomotivas no país e que outras estão em fase de pré-investimento, buscando locais para instalação de suas fábricas, o desinteresse na produção de trilhos ganha contornos de um verdadeiro enigma.

Claro está que razões de escala, regularidade no curto prazo e perenidade no longo prazo da demanda podem ser arroladas como fatores redutores da atratividade da produção de trilhos. No entanto, especialistas sugerem que a escala mínima eficiente de produção, que é de 500 mil toneladas por ano, já foi atingida em 2010, quando as importações de trilhos se aproximaram desse limite, e que a tendência é de forte ampliação das encomendas pelo menos até o final dessa década. Pode-se alegar ainda que os requerimentos de capital para financiar os projetos sejam muito vultosos. Também com relação a esse aspecto, os especialistas acreditam que os valores e prazos de maturação, não muito superiores ao bilhão de reais e a 12 meses, respectivamente, estão dentro de faixas usuais para o sistema empresarial brasileiro. Restam ainda os obstáculos sistêmicos, relacionados ao custo Brasil. Contudo, ao menos no que diz respeito ao fornecimento ao mercado interno, esses custos podem ser compensados pois é prevista o retorno da cobrança de todos os impostos encargos sobre o produto importado no caso de fabricação de similar no país, algo em torno de US$ 250 por tonelada.

Entretanto, resta um fator que talvez exerça influência central no problema que se quer compreender: a tecnologia. A princípio, parece pouco razoável supor que um país no estágio de desenvolvimento industrial em que se encontra o Brasil não reúna capacidade tecnológica para produzir trilhos, um produto que está tão somente a meio caminho na escala de agregação de valor ao aço. Porém, é provavelmente aí que está o X da questão. Após quinze anos de interrupção da produção, superar a defasagem tecnológica de produto e processo pode requerer capacidades e recursos hoje inexistentes e que as empresas brasileiras não parecem dispostas a assumir os riscos visando mobilizá-los.

Nos últimos anos houve um esforço considerável de constituição de um sistema nacional de inovação no Brasil. Por um lado, os recursos para ciência e tecnologia, que eram muito escassos, cresceram substantivamente e, embora ainda estejam aquém dos níveis requeridos para emparelhar o país com outras nações mais avançadas, já permitem atingir massa crítica em alguns campos. Por outro lado, foram criados instrumentos, como os fundos setoriais, a lei da inovação, as subvenções, etc. que, embora recentes, são subutilizados. É sintomático que tanto os programas públicos de financiamento à P&D quanto algumas empresas que estrategicamente decidem por uma atuação mais intensa na área de ciência e tecnologia não consigam executar totalmente os recursos destinados a essas finalidades.

Uma das principais causas para o retrocesso industrial vivido por nações tão diversas como Inglaterra ou Argentina foi a recorrente opção pelo rentismo praticada por uma fração importante da classe empresarial desses países, que abriu mão do espírito empreendedor, que deveria ser a sua marca, em troca dos ganhos mais fáceis proporcionados pelo circuito financeiro. O Estado pode chamar para si a tarefa de estruturas as bases do desenvolvimento científico e tecnológico mas o protagonista do processo de inovação é a empresa. Sem a participação ativa da empresa – nacional, multinacional, estatal, o que for – não há como colocar as necessárias conexões entre os avanços científicos e tecnológicos nos trilhos.

David Kupfer – é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ).  Escreve mensalmente às quartas-feiras. www.ie.ufrj.br/gic.

Sarney é reeleito presidente do Senado

Redação Carta Capital 1 de fevereiro de 2011 às 13:44h

Com os votos de 70 senadores, José Sarney (PMBD-AP), de 80 anos, foi reeleito à presidência do Senado, para cumprir o quarto mandato no comando da Casa. O parlamentar foi escolhido em votação secreta concluída há pouco no Plenário, realizada após cerimônia de posse dos novos senadores.

Dentre os 81 votos, 8 foram para Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), que também disputava a presidência, além de dois brancos e um nulo.

Por falta de acordo entre as lideranças, ainda não foram definidos os nomes dos demais integrantes da Mesa para o biênio 2011-2012, que devem também ser submetidos à votação. Estão em disputa duas vice-presidências e quatro secretarias.

Os líderes partidários voltam a se reunir nesta tarde para buscar o entendimento em torno da distribuição dos cargos. Também continuam em discussão as indicações para a presidência das comissões permanentes do Senado.

Os 54 senadores eleitos em outubro de 2010 tomaram posse nesta terça-feira para um mandato de oito anos, que termina em 31 de janeiro de 2019. Desses, 17 já eram senadores e foram reeleitos.

Outros 27 senadores, eleitos em 2006 para um mandato que termina em 2015, compõem o quadro do Senado. A Casa tem 81 parlamentares, ou seja, três para cada uma das 27 unidades da federação. Já na Câmara, onde todos os mandatos são renovados a cada quatro anos, tomaram posse – entre eleitos e reeleitos – 513 deputados federais.

A primeira sessão do Congresso de 2011, quando ocorrerá a abertura oficial dos trabalhos legislativos, está marcada para as 16h desta quarta-feira 2.

Itens como veículos e eletroeletrônicos deu um salto de 76% entre 2004 e 2010 – enquanto a produção local cresceu só 40%‏

Levantamento da Abimaq mostra que o consumo de itens como veículos e eletroeletrônicos deu um salto de 76% entre 2004 e 2010 – enquanto a produção local cresceu só 40%

Da Agência Estado

A indústria brasileira perde espaço em ritmo acelerado para produtos importados nos setores mais dinâmicos da economia nacional. Nos últimos seis anos, quase triplicou a importação de produtos do chamado grupo média-alta tecnologia, que inclui de veículos automotores e outros equipamentos de transporte a eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos.

Um levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), entregue há cerca de duas semanas ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, mostra que o consumo desses itens deu um salto de 76% entre 2004 e 2010, mas a produção local cresceu só 40%. A diferença foi suprida por importações, cujo crescimento atingiu 177% nos seis anos.

A situação é agravada pelo desempenho no grupo de produtos de alta tecnologia, que em boa parte já é dominado pelos importados. No entanto, o diagnóstico acaba sendo dificultado pelos produtos de menor intensidade tecnológica, cujo quadro ainda favorável puxa para baixo a média da participação de importados no consumo global de industrializados.

“Todo mundo fala que a indústria está indo bem, mas precisa ver de qual indústria está se falando”, diz o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto. O real valorizado encarece as exportações ao mesmo tempo em que torna as importações mais baratas. Com os custos da produção pressionados para cima pela carga tributária, logística, energia e mão de obra, entre outros fatores que compõem o chamado custo Brasil, as empresas alegam não ter como competir com os importados. Para manter parte do mercado, os fabricantes locais importam componentes e até produtos totalmente fabricados no exterior.