Heloisa Villela: Wisconsin canta que o povo não é bobo

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por Heloisa Villela, de Washington, para o VioMundo

O vídeo que está aqui me lembrou os tempos de “O povo não é bobo…”, na Candelária, no Rio de Janeiro. Eu trabalhava no jornal O Globo naquela época. Não levava laudas com o logotipo do jornal para as assembléias de sindicatos de jeito nenhum. Se me perguntassem, dizia que era de outro jornal qualquer. A Fox, aqui nos Estados Unidos, já está tão associada com os radicais de direita, com as idéias defendidas por Sarah Palin e seus colegas do Tea Party, com a insistente distorção dos fatos até que virem verdade (como chamar a reforma da saúde proposta por Obama de socialista) que os manifestantes, em Wisconsin, gritaram durante quase toda a transmissão ao vivo do repórter da Fox, dizendo que a rede mente. E por que o protesto?

O governador Scott Walker é republicano. Foi eleito em novembro. Durante a campanha, nunca falou em combater os sindicatos ou pagar as contas do estado com a ajuda compulsória dos funcionários públicos. (Detalhe: Wisconsin não está no vermelho como tantos outros estados. E acaba de dar corte de impostos de presente aos pequenos empresários). Mas o governador propôs mudanças que provocaram reação violenta. O que está em jogo: reduzir, e muito, o poder de barganha dos sindicatos que representam o funcionalismo público estadual  e aumentar o percentual de desconto em folha para programas de saúde e aposentadoria. Scott Walker tomou posse em janeiro e, com ele, uma câmara estadual dominada pelos republicanos. Juntos, eles decidiram botar em prática, no estado, a plataforma republicana para o país.

O ex-presidente Teddy Roosevel  costumava se referir a Wisconsin como laboratório da democracia. Foi em Wisconsin que nasceu, em 1930, a AFSCME, maior central sindical de funcionários públicos e profissionais de saúde do país. O sindicato dos professores do estado é dos mais fortes dos Estados Unidos. E Wisconsin está entre os dez estados do país onde o sindicalismo é mais ativo. Não é coincidência. Se os republicanos conseguirem enfraquecer os sindicatos de Wisconsin, o efeito dominó é certo. O que está acontecendo em Wisconsin pode dar uma ideia do que vem por aí. Das iniciativas republicanas e da resposta popular.

Para combater a recessão, os republicanos pregam redução de impostos (para empresas e pessoas físicas), cortes nos programas sociais e ataque aos sindicatos, para impedir que conquistem aumentos salariais.

Em Wisconsin, a primeira tentativa de votar a mudança proposta pelo governador foi adiada e os manifestantes foram até o parlamento local, em passeata, no dia 14, segunda-feira. Daí em diante, a manifestação só aumentou. Mais e mais gente está se juntando ao protesto. Os democratas, que são minoria, cruzaram a fronteira do estado. Estão em um hotel, em Illinois, para obrigar o adiamento da votação. E dizem que só voltam a Wisconsin quando os republicanos oferecerem algum tipo de acordo que leve em conta as reivindicações dos manifestantes. Eles aceitam o aumento das contribuições, mas são contra o ataque aos sindicatos.

É uma luta que está apenas começando, mas já reflete o que pode acontecer em Washington. O presidente Barack Obama enviou uma proposta de orçamento bastante conservadora ao Congresso. Ainda assim, a Câmara, agora dominada pelos republicanos, cortou 60 bilhões de dólares do projeto. Mas no Senado, quem tem maioria são os democratas. Eles devem barrar as mudanças. E o Presidente, que tem poder de veto, já prometeu usar a prerrogativa. Acontece que o orçamento precisa ser aprovado nas duas casas para entrar em vigor. Se não houver acordo, Obama pode se ver na mesma situação que o ex-presidente Bill Clinton enfrentou no primeiro mandato: a paralisação do governo. Por falta de orçamento, as atividades públicas param.

Na época, o Congresso culpou o presidente pela paralisação e Clinton culpou o Congresso. E foi ele que saiu ganhando. A popularidade de Clinton subiu e os republicanos tiveram que ceder. Mas Barack Obama não é Bill Clinton. E a conjuntura é bastante diferente. O atual governo tomou posse no momento em que o país já estava mergulhado em uma crise econômica da qual ainda não saiu. O desemprego aumentou, o medo do amanhã é grande, muita gente perdeu a casa em que morava…

Existe muita desilusão e raiva no ar. Os índices de popularidade do Congresso e do Presidente continuam caindo. Se mantiver uma postura firme, Obama ainda pode sair ganhando. Mas se Wisconsin é mesmo o grande laboratório da democracia americana, é bom ficar de olho em Russ Feingold. Depois de passar 18 anos no Senado, ele perdeu a eleição em novembro passado.

Feingold contrariou a regra. Ao contrário de se tornar consultor de Wall Street, lobista ou algo que o valha, como todos os ex-políticos fazem, ele foi dar aula na universidade, está escrevendo um livro sobre política externa e, na semana passada, lançou um novo movimento político chamado Progressistas Unidos. Feingold tem um grande inimigo na mira: a decisão da Suprema Corte, chamada Citizens United, que autorizou o investimento das corporações nas campanhas eleitorais sem que os políticos tenham que listar de quem receberam dinheiro. E foi assim que ele explicou, ao Huffington Post, a decisão:

“Na minha visão – e na de muitas outras pessoas – foi uma das decisões mais ilegais da história do nosso país. A idéia de permitir que as corporações tenham influência ilimitada na nossa democracia é muito perigosa, obviamente. As coisas eram assim há 100 anos, nos Estados Unidos, com um grande poder das coporações, dos negócios, das empresas de petróleo e outras. Mas agora, é a Era do Ouro turbinada com esteróides”.

O ex-senador está na rua, com os manifestantes de Wisconsin.

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