Diálogos desenvolvimentistas Nº18: energia nuclear, tório, China

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Leandro Aguiar

Seja por apresentar taxas estratosféricas de crescimento econômico, sediar as Olimpíadas, cercear direitos humanos ou por seus recorrentes problemas com Tawain, a China está sempre em evidência. O que garantiu ao país a atenção internacional, nas últimas semanas, foi o anúncio do governo a respeito da implementação do programa nuclear chinês: a China está, oficialmente, empenhada a produzir energia nuclear a partir do Tório, pretenso substituto do Urânio.  

Segundo o Wen Hui Bao, uma espécie de Folha de São Paulo chinês, o sucesso dos reatores a base de Tório seria duplamente bom para o país: o sonho de produzir energia nuclear “limpa” seria realizado, e os EUA se tornariam dependentes dessa tecnologia. Ainda de acordo com o periódico, o Tório é um combustível mais seguro, limpo, e mais abundante que o Urânio. Além disso, tem a vantagem de não produzir Plutônio como derivado – que é a “matéria prima” das armas nucleares. Atualmente, a matriz energética chinesa é centrada no carvão, o que torna o país o maior emissor de CO2 do mundo.  

Qual o impacto estratégico disso? Essa é a indagação do economista Gustavo Santos, que se pergunta, também, se as reservas de Tório serão abundantes o bastante para substituir o carvão. O jornalista Rogério Lessa, por sua vez, disse estar bastante otimista com a possibilidade de a energia nuclear se desenvolver na China, sobretudo quando levada em conta a quantidade de carvão queimado pelo país.    

Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, Paulo Metri questiona os termos usados pelo jornal Wen Hui Bao. Ele lembra que a energia nuclear gerada a partir do urânio também é limpa, e portanto o Tório gerará, caso o projeto dê certo, uma energia tão limpa quanto a do urânio, na melhor das hipóteses. Para o engenheiro, a China investe na tecnologia do Tório por deter grande parte das reservas deste elemento químico, e por não ter Urânio. Ele questiona também o porquê de os Estados Unidos, que já pesquisou a aplicabilidade do Tório na geração de energia, ter abandonado tais pesquisas.       

Engenheiro, que trabalha na área de energia nuclear, Carlos afirma que esse é um passo estratégico para a China, atualmente muito dependente do carvão. Ele diz também que, apesar de a produção efetiva de energia a base de Tório ainda demandar muitos esforços, o país tem know-how para fazê-lo. Carlos exemplifica algumas práticas chinesas, que capacitaram o país a começar a desenvolver tal tecnologia:

“A China aplica, em todas as áreas tecnológicas e de produção, uma interessante estratégia, que implica basicamente em: 

1- Uma empresa para se instalar na China deverá estar associada a uma
empresa chinesa (quase sempre estatal). Assim, a tecnologia é “absorvida”.

2- Fazem contratos de aquisição milionários, sempre com a contrapartida da transferência de tecnologia, implicando no desenvolvimento e fabricação por empresas locais. Por exemplo, na área nuclear, eles compraram e estão construindo: 4 usinas modelo AP 1000 (Westinghouse – EUA) + 2 (com opção de + 2) EPR 1600 (AREVA – França) com a transferência da tecnologia e pesada fatia de fornecimento local incluída nos respectivos contratos.

Assim, isto somado ao conhecimento que eles já têm com os reatores russos e
canadenses + o que já desenvolvido pela própria China, podemos imaginar o
que poderão oferecer ao mundo, no futuro, quando toda esta tecnologia tiver
sido “absorvida”.”

No entanto, os resíduos gerados pela geração nuclear de energia, e os perigos de um desastre, levam muitos a relativizar o termo “energia limpa” que é conferido à energia nuclear. Dentre eles, Atenágoras, funcionário público, que, chineses a parte, não acha “sensato expandir esta forma de gerar energia elétrica, especialmente em um país como o Brasil, dotado de tão ampla capacidade de geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis e não geradoras de resíduos nocivos como a energia eólica e a energia solar”. Ele lembra que falhas técnicas e humanas acontecem com relativa freqüência em hidrelétricas, mas que basta um erro numa usina nuclear para que um desastre de proporções dantescas aconteça.

Carlos, especialista em energia nuclear, diz que os riscos envolvendo a produção de energia nuclear não são tão grandes quanto se imagina. Isso porque “O projeto de uma usina nuclear contempla diversos níveis de barreiras de segurança, tornando-a intrinsecamente segura”, e quanto aos rejeitos, ele tranqüiliza os ambientalistas:

“Os chamados rejeitos de alta (elemento combustível “queimado”) ficam armazenados na própria usina, dentro da contenção metálica, em total segurança. Fiz uso da palavra “chamados” porque as novas tecnologias, em desenvolvimento, levarão a que estes elementos possam vir a ser reaproveitados.

Por outro lado, os rejeitos de baixa (filtros, ferramentas, resinas, etc) são armazenados em local seguro e sofrem permanente controle. Também aqui, novas tecnologias têm propiciado processos de reprocessamento e redução dos volumes.”

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