Abaixo os “mercados emergentes”

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Jim O’Neil

Do Valor Econômico, 08/02/2011:

Passaram-se nove anos desde que cunhei o acrônimo “Bric”, que se tornou sinônimo da ascensão de Brasil, Rússia, Índia e China. Passaram-se mais de sete anos desde que meus colegas de Goldman Sachs e eu publicamos as perspectivas para 2050, na qual sugerimos que as quatro economias dos Bric poderiam ficar maiores que as economias do G-7 e que juntamente com os Estados Unidos seriam as cinco maiores do mundo.

Também se passaram mais de cinco anos desde o surgimento da expressão os “Próximos 11″, ou “N-11″ como ficou conhecida em inglês. O termo agrupava os próximos 11 maiores países em população e buscava determinar seu potencial do tipo Bric.

Esses 15 países são responsáveis pela maior parte do impulso positivo por trás da economia mundial atualmente. A China superou o Japão como segunda maior economia do mundo, com uma produção aproximadamente igual à dos outros três países dos Bric combinados. Seu Produto Interno Bruto (PIB) somado gira em torno aos US$ 11 trilhões, cerca de 80% do verificado nos EUA.

A demanda interna dos países dos Bric é ainda mais impressionante. O valor coletivo em dólares dos consumidores dos Bric é estimado, de forma conservadora, em pouco mais de US$ 4 trilhões, possivelmente US$ 4,5 trilhões. O mercado de consumidores dos EUA vale mais que o dobro disso – cerca de US$ 10,5 trilhões -, mas o poder de consumo dos Bric cresce atualmente a uma taxa anual, em dólares, de aproximadamente 15%, o que significa em torno de US$ 600 bilhões anualmente.

Se o ritmo for mantido, os consumidores dos Bric terão agregado outro US$ 1 trilhão à economia mundial em meados desta década. Até o fim da década, valerão mais que os consumidores dos EUA.

De fato, em algum momento desta década, as economias dos Bric combinadas serão maiores que a dos EUA, com o PIB da China chegando a quase 70% do americano. Os quatro países serão responsáveis por pelo menos metade do crescimento real do PIB mundial e possivelmente por até 70%.

Além dos Bric, os mais prováveis dez maiores contribuintes para o crescimento do PIB mundial nesta década deverão incluir Coreia do Sul, México e Turquia. Do chamado mundo desenvolvido, apenas os EUA terão lugar garantido na lista – e os vinte primeiros poderão incluir Irã, Nigéria, Filipinas e Vietnã.

Os países do grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) junto com a Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia, cada um representando pelo menos 1% do PIB global, e várias economias em crescimento, devem emergir nos próximos 20 anos.

Então, como devemos pensar agora no termo “mercados emergentes”?

Há poucas semanas, decidi adotar com meus colegas o termo “economias de crescimento”, que o Goldman Sachs usou em 2010 para descrever como tratar muitos dos mercados mais dinâmicos do mundo. Em sua definição mais simples, uma economia de crescimento deve ser considerada como tal quando tem probabilidade de ter aumento de produtividade que, aliada a questões demográficas favoráveis, indica crescimento econômico acima da média mundial.

Mas uma economia também precisa tamanho e profundidade suficientes para permitir que investidores não apenas invistam, mas também saiam quando for apropriado. Então, optamos pelo seguinte: dever ser definida como economia de crescimento qualquer uma fora do chamado mundo desenvolvido que represente pelo menos 1% do PIB mundial.

Com esse tamanho, que atualmente seria de US$ 600 bilhões, aproximadamente, uma economia seria suficientemente grande para permitir que investidores e empresas operem como operam em países avançados, mas também manteria probabilidade de ter maior crescimento. Todas as outras economias deveriam continuar sendo definidas como mercados emergentes. Atualmente, oito países entram nessa definição: os Bric, Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia. Outros, como Arábia Saudita, Irã, Nigéria e Filipinas, podem juntar-se à lista nos próximos 20 anos.

Também é hora de os investidores começarem a usar referências mais apropriadas em suas carteiras de investimento. Nas últimas décadas, tornou-se convencional para aos investidores em renda fixa basear suas decisões em referências neutras, determinadas pelo valor de mercado das empresas e índices acionários. Isso, contudo, dá muito mais peso à economia dos EUA e a suas companhias em relação aos chamados países emergentes.

Uma abordagem alternativa é usar um referencial baseado no PIB. Para os investidores agressivos e ousados, um referencial que incorpore a previsão de PIB futuro daria muito mais peso aos mercados emergentes, especialmente para as economias de crescimento.

O índice Growth Environment Score (GES), que o Goldman Sachs calcula todos os anos para cerca de 180 países, é usado para monitorar a produtividade e a probabilidade de crescimento sustentável. O índice varia de zero a dez, com 13 subíndices para crescimento total e produtividade. Atualmente, por exemplo, o GES da Coreia do Sul está em 7,5 pontos em comparação aos 6,9 dos EUA.

As economias que continuam pequenas e possuem notas baixas no GES são apropriadamente tratadas como mercados emergentes, com grandes riscos. Embora possam crescer de forma significativa e sair de sua situação atual, são vulneráveis a acontecimentos adversos nos países desenvolvidos centrais – especialmente os EUA – e nos mercados financeiros desses países.

Os países com baixas notas no GES precisam adotar políticas que lhes permitam crescer. Por exemplo, prevemos que nos próximos 20 anos a Nigéria, lar de cerca de 20% da população africana, pode representar 1% do PIB mundial. Sua nota atual no GES, no entanto, é de 3,9 e está bem abaixo da média dos Bric e do N-11. Por outro lado, a economia da Nigéria quase dobrou de tamanho nos últimos 13 anos. Se mantiver esse progresso, antes de 2030, não será mais uma “economia emergente”.

Seria um acontecimento estimulante para a Nigéria – e para a África. Ainda mais estimulante é a probabilidade de que a Nigéria não esteja só quando comemorar sua formatura como economia de crescimento.

Jim O’Neill é presidente do Goldman Sachs Asset Management e membro do conselho do instituto de estudos Bruegel.

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