Arquivos anuais: 2010

Novos investimentos na indústria naval superam R$ 12 bilhões

Em dezembro, 165 projetos serão avaliados pelo Fundo da Marinha Mercante
Por Sabrina Lorenzi, no iG Rio de Janeiro

O Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (FMM) analisa no dia 17 de dezembro 165 projetos que concorrem a recursos da instituição para a indústria naval. Estimadas entre R$ 12 bihões e R$ 13 bilhões, são propostas de expansão de estaleiros, construção de novas unidades, fabricação de navios, entre outros negócios que deslancharam a partir 2003 com as encomendas de plataformas e navios para a Petrobras.
A corrida das empresas pelo financiamento do governo surpreendeu Amaury Neto, diretor do FMM, que comparou a demanda atual com o volume praticado no início da década. “Para se ter uma ideia da expansão do setor, no ano 2000 não chegamos a analisar nem R$ 1 bilhão em projetos”, afirmou. “A demanda anual era da ordem de R$ 800 milhões naquela época”, acrescentou. Sérgio Machado, presidente da Transpetro, lembra que os recursos do FMM acabavam caindo nos cofres o Tesouro por falta de demanda.
A análise de crédito pelo FMM funciona como um termômetro do setor. Após a primeira aprovação , o projeto ainda passa por mais nove fases, até contar efetivamente com o recurso liberado.
No ano passado, foram contratados – passaram pela primeira fase de avaliação – 196 projetos com recursos de mais da ordem de R$ 8 bilhões, quase metade de tudo o que fora incluído na carteira do FMM nos sete anos anteriores.
Nos últimos oito anos, foram contratados R$ 17 bilhões, distribuídos em 406 projetos. Para os próximos quatro anos, Neto avalia que R$ 13 bilhões serão contratados – num total de R$ 30 bilhões em projetos da indústria naval com aval do FMM durante os governos de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff.
“Foi uma iniciativa muito interessante e eficiente promover, nas duas pontas, o renascimento da indústria naval. Criou-se demanda e oferta. Em 2000 o setor empregou menos de dois mil trabalhadores. Hoje são 50 mil empregos. Um salto gigantesco, fantástico, coisa única no mundo”, afirmou.
Amaury participou de entrevista coletiva na sede da Transpetro. A subsidiária da Petrobras antecipou informações sobre o terceiro navio do Programa e Modernização e Ampliação da Frota da Petrobras (Promef), batizado de Sérgio Buarque de Holanda. O petroleiro será lançado em solenidade que contará com a presença do presidente Lula.
Machado lembra que a “indústria naval no inicio do governo não existia”. “Com isso outras empresas passaram a acreditar, a partir das encomendas da Petrobras.” Fizemos um choque tecnológico na indústria naval”, acrescentou.

Novos investimentos na indústria naval superam R$ 12 bilhões

Em dezembro, 165 projetos serão avaliados pelo Fundo da Marinha Mercante

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro | 18/11/2010

O Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (FMM) analisa no dia 17 de dezembro 165 projetos que concorrem a recursos da instituição para a indústria naval. Estimadas entre R$ 12 bihões e R$ 13 bilhões, são propostas de expansão de estaleiros, construção de novas unidades, fabricação de navios, entre outros negócios que deslancharam a partir 2003 com as encomendas de plataformas e navios para a Petrobras.
A corrida das empresas pelo financiamento do governo surpreendeu Amaury Neto, diretor do FMM, que comparou a demanda atual com o volume praticado no início da década. “Para se ter uma ideia da expansão do setor, no ano 2000 não chegamos a analisar nem R$ 1 bilhão em projetos”, afirmou. “A demanda anual era da ordem de R$ 800 milhões naquela época”, acrescentou. Sérgio Machado, presidente da Transpetro, lembra que os recursos do FMM acabavam caindo nos cofres o Tesouro por falta de demanda.
A análise de crédito pelo FMM funciona como um termômetro do setor. Após a primeira aprovação , o projeto ainda passa por mais nove fases, até contar efetivamente com o recurso liberado.
No ano passado, foram contratados – passaram pela primeira fase de avaliação – 196 projetos com recursos de mais da ordem de R$ 8 bilhões, quase metade de tudo o que fora incluído na carteira do FMM nos sete anos anteriores.
Nos últimos oito anos, foram contratados R$ 17 bilhões, distribuídos em 406 projetos. Para os próximos quatro anos, Neto avalia que R$ 13 bilhões serão contratados – num total de R$ 30 bilhões em projetos da indústria naval com aval do FMM durante os governos de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff.
“Foi uma iniciativa muito interessante e eficiente promover, nas duas pontas, o renascimento da indústria naval. Criou-se demanda e oferta. Em 2000 o setor empregou menos de dois mil trabalhadores. Hoje são 50 mil empregos. Um salto gigantesco, fantástico, coisa única no mundo”, afirmou.
Amaury participou de entrevista coletiva na sede da Transpetro. A subsidiária da Petrobras antecipou informações sobre o terceiro navio do Programa e Modernização e Ampliação da Frota da Petrobras (Promef), batizado de Sérgio Buarque de Holanda. O petroleiro será lançado em solenidade que contará com a presença do presidente Lula.
Machado lembra que a “indústria naval no inicio do governo não existia”. “Com isso outras empresas passaram a acreditar, a partir das encomendas da Petrobras.” Fizemos um choque tecnológico na indústria naval”, acrescentou.

Política externa altiva e ativa

Decisão mais importante da diplomacia do Brasil foi rejeitar a Alca sem entrar em conflito com os EUA

por Luiz Carlos Bresser-Pereira,  publicado na Folha de S. Paulo

Em entrevista para a Folha (15/11) o ministro Celso Amorim afirmou que o presidente Lula e ele procuraram fazer uma política externa “altiva e ativa”. Terão sido bem-sucedidos?

Estou convencido que sim, mas para responder a esta questão é preciso considerar que vivemos na era da globalização na qual os Estados-nação experimentam uma contradição essencial.

Nunca foi tão intensa a competição entre eles, mas, em contrapartida, nunca foi tão necessário que cooperassem e coordenassem suas ações.

Os grandes países não mais se ameaçam com guerras, mas, como os mercados foram abertos e as exportações cresceram mais do que a produção, a competição econômica entre eles aumentou.

E, visando regular essa competição e resolver uma série de problemas globais como o aquecimento global, as máfias das drogas, as epidemias globais, as catástrofes e tsunamis, a cooperação entre as nações é cada vez mais necessária.

Por outro lado, os EUA, a Europa rica e o Japão (o Império) continuaram a dificultar o desenvolvimento econômico dos países que se industrializaram tardiamente.

Suas armas são seus conselhos e pressões.

O mais danoso deles é o de que procurem crescer apoiados na “poupança externa” e, portanto, aumentem seu endividamento externo. Dessa forma os países ricos dão vazão a seu excesso de capital ao mesmo tempo em que nos fragilizam financeiramente e nos tornam dependentes.

As decisões que os países em desenvolvimento precisam tomar para enfrentar essas pressões são internas, mas uma política externa nacionalista e cooperativa pode ajudar nessas tarefas.

A decisão mais importante foi a de rejeitar a Alca -o Acordo de Livre Comércio das Américas- sem entrar em conflito com os EUA.

Quando o Brasil condicionou sua entrada na Alca ao respeito a uma série de princípios de autonomia nacional, os EUA desistiram.

As políticas de fortalecimento do Mercosul, de criação da Unasul, e de solidariedade ativa, mas limitada aos países pobres da América Latina governados por partidos nacionalistas e de centro-esquerda foram também bem-sucedidas.

Na relação com a Bolívia, que precisava renegociar contratos danosos, o Brasil mostrou a diferença entre ser imperial e imperialista.

Os críticos afirmam que ao negociar com países com governos autoritários que não respeitam os direitos humanos o Brasil estaria fortalecendo esses governos.

Não há, entretanto, nenhum governo de grande país que estabeleça essa condição para negociar.

Ela é apenas lembrada para justificar pressão e intervenção em países com governos nacionalistas.

Afirmam também que a política externa fracassou em relação à candidatura ao Conselho de Segurança da ONU.

Em compensação, o Brasil passou a participar do G20, e, depois de sua tentativa de intermediação do problema Irã, tornou-se claro para todos que sua participação nos principais foros internacionais é necessária.

Naturalmente o Império não aceitou a intermediação, mas Brasil e Turquia marcaram um ponto.

Na verdade, nestes oito anos, o Brasil marcou muitos pontos no plano internacional.

O patinho feio da área econômica?

Por Pedro Henrique Nogueira

Desde o governo FHC, o Ministério do Planejamento tem perdido importância e sido relegado a uma posição limitada ao orçamento. Por isso, a grande disputa política na área econômica inclui principalmente os dois bancos – BNDES e BACEN – e o Ministério da Fazenda. Apesar disso, a pasta do Planejamento tem importância estratégica. Por isso, a escolha de um ministro adequado para esta pasta diz muito da possibilidade de contribuição do Governo Dilma para um debate desenvolvimentista – e para uma evolução pragmática no desenvolvimento do País.

Tânia Bacelar

Alguns analistas defendem o nome de Tânia Bacelar para assumir a pasta a partir de 2011 e comandar uma reorganização no Planejamento. Pernambucana, economista e especialista em Desenvolvimento Regional, Tânia atuou durante vinte anos na Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, é também filiada ao PSB, o que já seria uma forma de preencher o espaço destinado ao partido na equipe da Presidenta. Paulo Cavalcanti avalia que o perfil de Tânia é operacional e indicado para ocupar a pasta. “[Tânia] foi secretária de estado três vezes, duas na Fazenda e uma no Planejamento, se não me engano. Ninguém fica tanto tempo nestas pastas se não for operacional: o governador demite!” avalia.

Analistas da área de Planejamento e Orçamento avaliam que o importante é o Ministério do Planejamento ser empoderado pela presidenta eleita, para efetivamente trabalhar com planejamento. Esta tarefa esta tem sido relegada a segundo plano em função do foco nas questões de curto prazo associadas à execução orçamentária.  E isso não é culpa dos ministros. É apenas o reflexo de uma sociedade que deixou de reivindicar que a construção de um projeto nacional de desenvolvimento se consolidasse como missão principal do Ministério. Com a meta de juros reais de 2% ao ano em 2014, recursos significativos poderão ser alocados na erradicação da miséria e na realização de investimentos, principalmente nas áreas de  infra-estrutura, saúde e educação. Fazer isso estimulando a desconcentração espacial e a interiorização do desenvolvimento é tarefa que exige planejamento com foco nas questões regionais. A inspiração que os analistas do desenvolvimento sugerem para a atuação da pasta é o economista Celso Furtado foi quem ocupou pela primeira vez a pasta.

O Governo Lula investiu no planejamento setorial, principalmente nos campos de energia, educação e transportes. Ainda neste governo, iniciativas de planejamento de longo prazo, como a criação da Secretaria de Assuntos Estratégicos, e a articulação com os entes federativos e a sociedade civil também merecem destaque. A indicação de Tânia pode significar uma abertura à revisão do perfil do Ministério e um avanço nessas iniciativas. A idéia é afastar o Planejamento da tarefa única e burocrática de construir os Planos Plurianuais. Analistas avaliam que esta função, da maneira como está sendo administrada, pode estar desligada da realidade política do país. O argumento é que falta articular os vários órgãos que exercem alguma função de planejamento, e Tânia teria um perfil adequado para a tarefa. Além disso, é preciso conhecer o lado prático, para não instituir políticas descoladas da realidade.

A nomeação de Tânia para o Planejamento pode fomentar as políticas para o desenvolvimento regional. Em entrevista à Revista Rumos, em 2009, Tânia descreveu as duas linhas mestras para a redução das desigualdades regionais no Brasil. A primeira, segundo ela, é desenvolver políticas nacionais ousadas para diminuir as desigualdades sociais em nível nacional. A segunda, ainda de acordo com a economista, é combater a desigualdade também de maneira inter-regional, tanto entre Estados quanto nas sub-regiões. Ela destaca, por exemplo, os programas sociais do Governo Federal e o aumento real do salário mínimo. Sobre o desenvolvimento regional, Márcio Oliveira acredita ainda que a nomeação de alguém como Tânia seria uma indicação clara de que a Presidenta acredita que os dois  aspectos andam juntos: o desenvolvimento nacional e o regional. ” ’Resolver a questão regional’ quer dizer ter um país onde a indústria (de baixa, média e alta tecnologia) esteja espacialmente distribuída, para que sejam desnecessárias “transferências governamentais”, para que a escolaridade média do trabalhador seja similar em todas as regiões, para que a mortalidade infantil seja baixa em todas as localidades”, diz.

Além do destaque para as políticas regionais, Tânia apoiou também a iniciativa do PSB que aconselhou a então candidata Dilma Rousseff a incorporar ao programa de governo medidas de reforma tributária, como a taxação extra das grandes fortunas. Ceci Juruá julga que o Planejamento é espaço para inovação e julga indispensável que seja uma mulher a comandar a pasta, e que venha de um estado historicamente identificado com a causa brasileira. Tânia se encaixa no perfil descrito pela analista. “De preferência alguém da terceira idade e que esteja, portanto, munida de conhecimento sobre nossas experiências de planejamento até 1975.   De preferência também,” Continua Ceci “uma economista e discípula de Celso Furtado”.

Muito melhor do que empresa de petróleo!

Por   Roberto  Pereira  d’ Araújo

Imagine a seguinte situação. Você comprou uma geladeira em 10 prestações mensais. Inadvertidamente, esqueceu de pagar uma parcela, por exemplo, a quinta. Paga a sexta sem saber que esqueceu uma. De repente, batem à sua porta e, sem aviso, truculentos funcionários da loja vêm retirar o produto. Você protesta, diz que paga a conta esquecida, mas,… não há contemplação! A loja, com toda a truculência, leva a geladeira de volta. Mesmo depois de pagar, o produto não vai voltar por dois dias! Não é revoltante?

Pois troque geladeira por energia elétrica e esse pesadelo vira realidade sob o olhar complacente das autoridades, principalmente da pomposa Agência Reguladora, ANEEL. De nada adianta a consideração de que o serviço de energia elétrica é considerado “essencial” pela legislação. Afinal, a essencialidade e continuidade são obrigações impostas pela lei às concessionárias, tendo em vista a relevância do serviço que prestam, bem como o significado e o alcance da continuidade do serviço público para a sociedade. Só que, para as distribuidoras, sob proteção da ANEEL, tudo isso é letra morta.

Ora, se você deixa de pagar uma prestação de um bem, ou mesmo de um serviço, que nem é considerado essencial, ninguém tem o direito de cometer a truculência que as distribuidoras cometem no Brasil. O que pode ocorrer é que seu nome fique sujo na praça, o que já é um enorme transtorno! Só que isso não vale para distribuidoras de energia brasileiras! Não! Isso é para geladeira, fogão, TV, roupas, móveis, etc. A energia elétrica no Brasil é uma atividade especial! Quem presta pode fazer o que bem entende da maneira que quiser.

Basta dizer que essas empresas consideram avisados os clientes que recebem a conta seguinte com um simples carimbo! Mesmo que o consumidor pague essa conta sem perceber o aviso, mostrando que há boa fé, a truculência está justificada. Também não vale para as concessionárias de energia elétrica a exigência legal de avisar o consumidor por carta que explicite claramente o problema e que a mesma seja recebia com assinatura do mesmo. Isso é lei para os outros!

E acham que acabou? Nada disso! Suponha que você esteja em casa, mostre que há um incapaz na sua residência, uma criança ou um idoso, e que esse argumento iria sensibilizar a concessionária para adiar o corte, até porque você está disposto a pagar imediatamente. Nada disso diminui a truculência. O corte será realizado, e a ligação só será refeita depois de você passar pelo péssimo atendimento telefônico que, também, complacentemente a agência finge que não vê. E, mesmo após horas de desgaste, você pode ficar sem luz por dois dias!

Dizem que o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo, dado o poder e a penetração desse produto em toda economia. Tenho minhas dúvidas. Acho que ninguém se debruçou sobre o caso da concessão de serviço público de energia elétrica no Brasil. Aqui, nem evidentes ganhos de escala pelo aumento do número de consumidores deixa a agência reguladora atenta. As tarifas brasileiras, mesmo sem impostos, muito superiores às tarifas de países cuja produção de eletricidade também vem da água, também não atraem a atenção de quem é responsável por “regular” preço. Salve-se quem puder!

Roberto Pereira d’Araujo

Engenheiro Eletricista – CREA 23763-D

Autor do livro “Setor elétrico brasileiro – uma aventura mercantil”. CONFEA, 2009.

Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas

Crescimento Mundial e interesse americano

Em 1944, mesmo ano que Polanyi publica a Grande Transformacao, Kalecki escreve um clássico texto de economia política “Aspectos políticos do pleno emprego” que tenta mostrar porque não é do interesse da elite de um país que o governo resolva o problema do desemprego. O argumento é que isso, apesar de aumentar o lucro dos capitalistas, iria diminuir seu poder político tanto em relação aos trabalhadores e ao governo. E isso é um perigo maior para os capitalistas do que os prejuízos econômicos de uma depressão.

Ao transpor do plano nacional para mundial, poderemos verificar que não é do interesse das grandes potencias, o crescimento econômico acelerado, pois isso poderá propiciar o surgimento de novas potencias mundiais. Pode-se notar que o desenvolvimento a convite de satélites militares dos EUA – Alemanha, Japão, Cor autonomia a moeda.política em grande parte da periferia. Alem disso, o desejo de éia e Taiwan – é bastante coerente com a idéia do Kalecki (1944) de que apenas no facismo é permitido o pleno emprego, pois o acesso dos trabalhadores ao poder está bloqueada.

Por outro lado, se for observado outro texto também publicado em 1944, no caso o livro a Grande Transformacao, pode-se notar que também não interessa a elite a depressão econômica a nível mundial ou nos países desenvolvidos. A Grande Depressão destruiu o que restava da Civilização do século XIX. Para o liberalismo econômico e para as elites internacionais não há nada mais perigoso do que o nacionalismo econômico e a descoberta do Estado como o principal solucionador dos problemas sociais. Esses dois fatores limitaram a haute finance durante cerca de trinta anos. Continue lendo

Setor Elétrico

Por Roberto D’Araújo

Introdução

Este é um  livro sobre oportunidades  perdidas e caminhos  tortuo- sos. Expõe apenas um dos muitos aspectos onde o velho estigma de “gigante adormecido” fica, mais uma vez, evidente. É uma aventura às avessas. Uma história do anti-herói, um “personagem” que tinha tudo para representar uma vantagem, mas por “adormecer” sobre suas pró- prias qualidades, mete os pés pelas mãos e, espelhando-se em experiên- cias alheias, desventura-se em caminhos incompreensíveis e resultados decepcionantes. O fato de o livro versar sobre o setor elétrico é porque, no caso, é ele o personagem. Mas, a “tragédia” é a mesma de outros setores. Séculos de políticas equivocadas.

Medido pelo coeficiente de Gini para a distribuição de renda, a desigualdade no Brasil aumentou de 0,57 em 1981 para 0,62 em 1989. Depois dessa piora, a disparidade de renda figurava como a segunda mais alta do mundo, atrás somente de Sierra Leoa. Em 2005 esse coe- ficiente se reduziu para 0,56, basicamente o mesmo de 1981. Apesar dessa melhora, o índice de 2005 ainda colocava o país entre os 10 mais desiguais, ainda atrás da Bolívia, Guatemala, Haiti, Lesotho, Namíbia, África do Sul e Zimbabwe. Independente de atualizações, o que é grave é que esse vergonhoso índice ocorre na décima economia do planeta. Somos “um ponto fora da curva’.

Por mais clichê que possa parecer, a pergunta sobre como um país naturalmente tão rico pode ostentar tal nível de desigualdade, ainda é a secular questão brasileira. Evidentemente, muitas razões contribuem para a manutenção dessa incômoda posição. Mas, é no mínimo estra- nho que a natureza exuberante, tão pródiga em produzir tanta riqueza, não tenha contribuído para a diminuição dessa disparidade.

Mas que tipo de exploração das nossas vantagens naturais é tão franco em produzir rendas? Ora, somos o país dos rios e, já que a pro- dução de energia nas usinas hidroelétricas só depende de água e gravi- dade, nada mais “exuberante” do que nossa eletricidade. A indústria de produção de energia elétrica é filha direta dos rios brasileiros com nossa geografia de planaltos. Com certeza, no cenário mundial, deveríamos ter a enorme vantagem de energia barata e renovável. Essa riqueza exige que se pergunte como ela é apropriada, porque, hoje, temos a energia hidroelé- trica mais cara do planeta. Por isso, se quisermos assistir os descaminhos profetizados por Sergio Buarque de Holanda através de um exemplo con- creto, medido em energia, nada melhor do que o nosso setor elétrico.

A globalização da economia é um fato e não pretendo contestar aqui o que parece inevitável. Mas, muito além da inserção dos setores econômicos numa realidade mundial, o país parece passar por um com- portamento  de globalização das mentes. Como se fosse um neo-colo- nialismo, fundamentado em experiências alheias, assume-se existir uma única verdade, um só caminho, uma única conduta para tratar de reali- dades distintas.

Para que sirva para alguma reflexão útil, é preciso se desven- cilhar de certos preconceitos que associam idéias que, bem entendi- das, são bastante diferentes. Reconhecer processos industriais como “monopólios” não  significa necessariamente  um  malefício para  a sociedade.

Uma vez reconhecida essa característica, é preciso saber como direcionar as vantagens em benefício de todos. Isso não significa que, necessariamente, se esteja defendendo a estatização de qualquer coisa. Por último e mais urgente, é preciso não confundir a presença do estado em setores da economia com socialismo. Infelizmente, rotulagens tos- cas dessa ordem são comuns no Brasil.

Muitos  países capitalistas mantêm  organizações monopolistas quando elas favorecem a sociedade sem passar pelo dilema existen- cial tão comum no Brasil. A grande maioria dos nossos formadores de opinião são ligeiros em apontar defeitos em empresas estatais quando, na realidade, as mazelas são do próprio governo que manipula essas organizações em desacordo com seus estatutos. Ao invés de condenar empresas públicas, deveríamos perguntar  por que motivos o estado brasileiro não pode tê-las eficientes.

Portanto, o que aconteceu ao setor elétrico no Brasil é um sintoma de que ainda estamos com algumas semelhanças com o personagem Macunaíma. Agora, estamos estigmatizados não apenas pela caricatu- ral “preguiça” do personagem de Mario de Andrade. Hoje, mais do que nunca, estamos absorvidos pela idéia de que somos incapazes de criar a nossa própria identidade renegando a evidência de que o Brasil é real- mente diferente. Aliás, como todos os países e povos o são.

É importante ressaltar que o racionamento de 2001, evento recorde no mundo e um prejuízo para milhões de brasileiros, abriu uma enorme oportunidade para que mudanças que resgatassem o caráter público do setor. Alguma coisa foi feita, mas ainda de modo tímido e incompleto. O que é imprescindível deixar registrado é que, assim como em outros setores, outras opções seriam possíveis.

O livro é também um resgate da competência técnica dos enge- nheiros, geólogos, economistas, administradores e trabalhadores das empresas públicas. A gestação de um inconsciente coletivo que rejeita o  próprio  estado e suas instituições acabou por cometer uma grave injustiça para com esse corpo técnico das empresas públicas. A política governamental de privatização do setor elétrico brasileiro tem várias promessas não cumpridas em seu passivo. Mas, além destas, de modo implícito, havia a promessa de livrar a sociedade brasileira da incom- petência dos “empregados” das estatais, sempre vistos como um peso para o contribuinte,  convenientemente “confundidos” como funcio- nários públicos, outra categoria vítima de preconceito e desinforma- ção. O que se verá no livro é que, com todas as mudanças conceituais e institucionais exigidas pela adoção de modelos mercantis exógenos, a metodologia, base de tudo, é a mesma criada no período estatal. Afinal, não se conseguiu alterar a natureza.

Finalmente, é possível que as propostas alternativas feitas formas- sem um cenário politicamente inviável. É uma análise legítima, ape- sar de ser baseada em avaliações subjetivas sobre possíveis reações do “mercado”, essa “ameaçadora” entidade virtual sempre presente na vida pública brasileira. O que me parece incompreensível é que essas pro- postas alternativas sejam completamente descartadas e tratadas como se fossem terríveis adversárias. Afinal, não fosse o choque do raciona- mento, nem as alterações hoje implantadas, apesar de suas obviedades, seriam “politicamente” viáveis.

Infelizmente, a glorificação de receitas exógenas que, apesar de atenuadas, ainda permanecem, é uma carência psicossocial da nossa elite que imagina ser mandatório acatar outras experiências como uma demonstração de que somos “modernos, inseridos no mundo desen- volvido, aceitáveis, confiáveis. O irônico é que quanto mais nos esforça- mos, mais nos afastamos de nosso presumido destino glorioso.