Diálogos desenvolvimentistas: o peso da indústria

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Acompanhe a síntese da discussão, em que temas como a indústria, macroeconomia e crescimento econômico foram levantados.

O crescimento da economia brasileira pode estar sob ameaça, conforme estudo realizado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Isso porque a Indústria de transformação, a que converte matéria prima em produto final ou intermediário, estaria perdendo espaço na produção da econômica no Brasil, como apontam dados da ONU.

O estudo relaciona o crescimento da economia com o alto desempenho da indústria de transformação; a observação foi feita levando-se em conta as taxas de crescimento da China, Coréia do Sul, Indonésia e outros emergentes, que tem na indústria de transformação importância expressiva no valor adicionado total da economia – na Coréia do Sul, chegam a 38,4%, e na China ultrapassam os 50%-. No Brasil, que na década de 70 teve na indústria de transformação 30% do valor adicionado total da economia, tem hoje 23,73%. Além disso, a balança comercial da indústria de transformação, no país, trabalha em déficit desde 2008. Reflexo da valorização do câmbio, segundo Passos e Souza, pesquisadores do IEDI. Foram esses dados que estimularam o dialogo nos Desenvolvimentistas.

“Estamos nos desindustrializando”, afirmou o economista Gustavo Santos. “(Apesar de) parecer abstrato falar em desindustrialização em um país que observou, nos últimos anos, avanço no emprego e melhorias sociais.”

Nos próximo governo, porém, as conseqüências serão sentidas, caso a presidente eleita Dilma não tome medidas enérgicas o bastante para reverter à situação, segundo analisou Gustavo Santos. Na mesma linha, o analista político Creomar Souza enxerga na desindustrialização um desafio urgente para o próximo governo, e sugeriu que uma política industrial proativa é fundamental para que a participação do Brasil nos mercados internacionais aumente.

Por outro lado, Mauro Patrão, professor do departamento de matemática da Universidade de Brasília, questionou os dados que apontam o enfraquecimento da indústria de transformação no Brasil. Ele chamou atenção para o fato de o patamar na participação industrial ter se mantido em no 1º mandato de Lula, e discutiu o porquê de números sobre o 2º mandato do atual presidente não terem entrado no gráfico. Ainda, ele defendeu que os indicadores utilizados pelo IEDI não são os mais interessantes.

Independentemente dos indicadores, porém, os participantes dos Diálogos Desenvolvimentistas concordam que políticas públicas que fomentem a indústria de transformação têm de ser prioridade nos próximos anos. Iniciativas como a da Petrobrás, que passou a adotar um percentual de nacionalização dos componentes de plataformas e navios, foram citadas como exemplos a serem seguidos. Na fala do analista político Creomar Souza: “O Brasil está pronto para consolidar uma posição confortável quanto país de economia moderna. Contudo, a janela de oportunidade não estará aberta para sempre.” O pré-sal, como lembrou o professor Mauro Patrão, pode se configurar como essa janela.

Mas a indústria é mesmo mais interessante que setores como a agricultura e os serviços, e deve de fato ser tratada como prioridade? Esse foi o questionamento lançado pelo economista Gustavo Santos, logo respondido por Mauro:

“(A indústria interessa mais que os outros setores) por conta do seu valor estratégico em articular educação, ciência e tecnologia para o melhor aproveitamento das riquezas humanas e naturais do país. Precisamos ter auto-suficiência científica e tecnológica se quisermos ser de fato soberanos politicamente. E quem viabiliza isso é uma poderosa indústria com forte conteúdo nacional.”

Mauro lembrou também que uma agricultura bem desenvolvida tecnologicamente, tal como a extração vegetal e os serviços, dependem do alto desenvolvimento técnico da indústria.

Nesse ponto, Gustavo diz haver uma diferenciação, aos olhos do Estado, entre a política industrial e a política voltada para ciência e desenvolvimento. Segundo o economista, a função primordial da política industrial é gerar divisas em dólares, daí setores da indústria, que em pouco somam para a tecnologia sofisticada, serem apoiados pelo governo, como o têxtil, frigorífico e o de móveis. Porque, no fim das contas, a real importância da indústria é gerar divisas, tomar mercado exterior e substituir importações.

Enfaticamente contra, Mauro Patrão considera datada a idéia de gerar divisas, sobretudo no marco em que se encontra o capitalismo. Quais são os objetivos socialmente justificados de uma economia e o que significa uma economia sustentável: essas são, para o professor, as questões importantes a serem discutidas.

Entretanto, não existe consenso quando se fala dos “objetivos sociais da economia” ou de “economia sustentável”. Esses assuntos serão tratados nos Diálogos Desenvolvimentistas no futuro próximo.

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