Arquivo mensais:novembro 2010

Política externa altiva e ativa

Decisão mais importante da diplomacia do Brasil foi rejeitar a Alca sem entrar em conflito com os EUA

por Luiz Carlos Bresser-Pereira,  publicado na Folha de S. Paulo

Em entrevista para a Folha (15/11) o ministro Celso Amorim afirmou que o presidente Lula e ele procuraram fazer uma política externa “altiva e ativa”. Terão sido bem-sucedidos?

Estou convencido que sim, mas para responder a esta questão é preciso considerar que vivemos na era da globalização na qual os Estados-nação experimentam uma contradição essencial.

Nunca foi tão intensa a competição entre eles, mas, em contrapartida, nunca foi tão necessário que cooperassem e coordenassem suas ações.

Os grandes países não mais se ameaçam com guerras, mas, como os mercados foram abertos e as exportações cresceram mais do que a produção, a competição econômica entre eles aumentou.

E, visando regular essa competição e resolver uma série de problemas globais como o aquecimento global, as máfias das drogas, as epidemias globais, as catástrofes e tsunamis, a cooperação entre as nações é cada vez mais necessária.

Por outro lado, os EUA, a Europa rica e o Japão (o Império) continuaram a dificultar o desenvolvimento econômico dos países que se industrializaram tardiamente.

Suas armas são seus conselhos e pressões.

O mais danoso deles é o de que procurem crescer apoiados na “poupança externa” e, portanto, aumentem seu endividamento externo. Dessa forma os países ricos dão vazão a seu excesso de capital ao mesmo tempo em que nos fragilizam financeiramente e nos tornam dependentes.

As decisões que os países em desenvolvimento precisam tomar para enfrentar essas pressões são internas, mas uma política externa nacionalista e cooperativa pode ajudar nessas tarefas.

A decisão mais importante foi a de rejeitar a Alca -o Acordo de Livre Comércio das Américas- sem entrar em conflito com os EUA.

Quando o Brasil condicionou sua entrada na Alca ao respeito a uma série de princípios de autonomia nacional, os EUA desistiram.

As políticas de fortalecimento do Mercosul, de criação da Unasul, e de solidariedade ativa, mas limitada aos países pobres da América Latina governados por partidos nacionalistas e de centro-esquerda foram também bem-sucedidas.

Na relação com a Bolívia, que precisava renegociar contratos danosos, o Brasil mostrou a diferença entre ser imperial e imperialista.

Os críticos afirmam que ao negociar com países com governos autoritários que não respeitam os direitos humanos o Brasil estaria fortalecendo esses governos.

Não há, entretanto, nenhum governo de grande país que estabeleça essa condição para negociar.

Ela é apenas lembrada para justificar pressão e intervenção em países com governos nacionalistas.

Afirmam também que a política externa fracassou em relação à candidatura ao Conselho de Segurança da ONU.

Em compensação, o Brasil passou a participar do G20, e, depois de sua tentativa de intermediação do problema Irã, tornou-se claro para todos que sua participação nos principais foros internacionais é necessária.

Naturalmente o Império não aceitou a intermediação, mas Brasil e Turquia marcaram um ponto.

Na verdade, nestes oito anos, o Brasil marcou muitos pontos no plano internacional.

O patinho feio da área econômica?

Por Pedro Henrique Nogueira

Desde o governo FHC, o Ministério do Planejamento tem perdido importância e sido relegado a uma posição limitada ao orçamento. Por isso, a grande disputa política na área econômica inclui principalmente os dois bancos – BNDES e BACEN – e o Ministério da Fazenda. Apesar disso, a pasta do Planejamento tem importância estratégica. Por isso, a escolha de um ministro adequado para esta pasta diz muito da possibilidade de contribuição do Governo Dilma para um debate desenvolvimentista – e para uma evolução pragmática no desenvolvimento do País.

Tânia Bacelar

Alguns analistas defendem o nome de Tânia Bacelar para assumir a pasta a partir de 2011 e comandar uma reorganização no Planejamento. Pernambucana, economista e especialista em Desenvolvimento Regional, Tânia atuou durante vinte anos na Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, é também filiada ao PSB, o que já seria uma forma de preencher o espaço destinado ao partido na equipe da Presidenta. Paulo Cavalcanti avalia que o perfil de Tânia é operacional e indicado para ocupar a pasta. “[Tânia] foi secretária de estado três vezes, duas na Fazenda e uma no Planejamento, se não me engano. Ninguém fica tanto tempo nestas pastas se não for operacional: o governador demite!” avalia.

Analistas da área de Planejamento e Orçamento avaliam que o importante é o Ministério do Planejamento ser empoderado pela presidenta eleita, para efetivamente trabalhar com planejamento. Esta tarefa esta tem sido relegada a segundo plano em função do foco nas questões de curto prazo associadas à execução orçamentária.  E isso não é culpa dos ministros. É apenas o reflexo de uma sociedade que deixou de reivindicar que a construção de um projeto nacional de desenvolvimento se consolidasse como missão principal do Ministério. Com a meta de juros reais de 2% ao ano em 2014, recursos significativos poderão ser alocados na erradicação da miséria e na realização de investimentos, principalmente nas áreas de  infra-estrutura, saúde e educação. Fazer isso estimulando a desconcentração espacial e a interiorização do desenvolvimento é tarefa que exige planejamento com foco nas questões regionais. A inspiração que os analistas do desenvolvimento sugerem para a atuação da pasta é o economista Celso Furtado foi quem ocupou pela primeira vez a pasta.

O Governo Lula investiu no planejamento setorial, principalmente nos campos de energia, educação e transportes. Ainda neste governo, iniciativas de planejamento de longo prazo, como a criação da Secretaria de Assuntos Estratégicos, e a articulação com os entes federativos e a sociedade civil também merecem destaque. A indicação de Tânia pode significar uma abertura à revisão do perfil do Ministério e um avanço nessas iniciativas. A idéia é afastar o Planejamento da tarefa única e burocrática de construir os Planos Plurianuais. Analistas avaliam que esta função, da maneira como está sendo administrada, pode estar desligada da realidade política do país. O argumento é que falta articular os vários órgãos que exercem alguma função de planejamento, e Tânia teria um perfil adequado para a tarefa. Além disso, é preciso conhecer o lado prático, para não instituir políticas descoladas da realidade.

A nomeação de Tânia para o Planejamento pode fomentar as políticas para o desenvolvimento regional. Em entrevista à Revista Rumos, em 2009, Tânia descreveu as duas linhas mestras para a redução das desigualdades regionais no Brasil. A primeira, segundo ela, é desenvolver políticas nacionais ousadas para diminuir as desigualdades sociais em nível nacional. A segunda, ainda de acordo com a economista, é combater a desigualdade também de maneira inter-regional, tanto entre Estados quanto nas sub-regiões. Ela destaca, por exemplo, os programas sociais do Governo Federal e o aumento real do salário mínimo. Sobre o desenvolvimento regional, Márcio Oliveira acredita ainda que a nomeação de alguém como Tânia seria uma indicação clara de que a Presidenta acredita que os dois  aspectos andam juntos: o desenvolvimento nacional e o regional. ” ’Resolver a questão regional’ quer dizer ter um país onde a indústria (de baixa, média e alta tecnologia) esteja espacialmente distribuída, para que sejam desnecessárias “transferências governamentais”, para que a escolaridade média do trabalhador seja similar em todas as regiões, para que a mortalidade infantil seja baixa em todas as localidades”, diz.

Além do destaque para as políticas regionais, Tânia apoiou também a iniciativa do PSB que aconselhou a então candidata Dilma Rousseff a incorporar ao programa de governo medidas de reforma tributária, como a taxação extra das grandes fortunas. Ceci Juruá julga que o Planejamento é espaço para inovação e julga indispensável que seja uma mulher a comandar a pasta, e que venha de um estado historicamente identificado com a causa brasileira. Tânia se encaixa no perfil descrito pela analista. “De preferência alguém da terceira idade e que esteja, portanto, munida de conhecimento sobre nossas experiências de planejamento até 1975.   De preferência também,” Continua Ceci “uma economista e discípula de Celso Furtado”.

Muito melhor do que empresa de petróleo!

Por   Roberto  Pereira  d’ Araújo

Imagine a seguinte situação. Você comprou uma geladeira em 10 prestações mensais. Inadvertidamente, esqueceu de pagar uma parcela, por exemplo, a quinta. Paga a sexta sem saber que esqueceu uma. De repente, batem à sua porta e, sem aviso, truculentos funcionários da loja vêm retirar o produto. Você protesta, diz que paga a conta esquecida, mas,… não há contemplação! A loja, com toda a truculência, leva a geladeira de volta. Mesmo depois de pagar, o produto não vai voltar por dois dias! Não é revoltante?

Pois troque geladeira por energia elétrica e esse pesadelo vira realidade sob o olhar complacente das autoridades, principalmente da pomposa Agência Reguladora, ANEEL. De nada adianta a consideração de que o serviço de energia elétrica é considerado “essencial” pela legislação. Afinal, a essencialidade e continuidade são obrigações impostas pela lei às concessionárias, tendo em vista a relevância do serviço que prestam, bem como o significado e o alcance da continuidade do serviço público para a sociedade. Só que, para as distribuidoras, sob proteção da ANEEL, tudo isso é letra morta.

Ora, se você deixa de pagar uma prestação de um bem, ou mesmo de um serviço, que nem é considerado essencial, ninguém tem o direito de cometer a truculência que as distribuidoras cometem no Brasil. O que pode ocorrer é que seu nome fique sujo na praça, o que já é um enorme transtorno! Só que isso não vale para distribuidoras de energia brasileiras! Não! Isso é para geladeira, fogão, TV, roupas, móveis, etc. A energia elétrica no Brasil é uma atividade especial! Quem presta pode fazer o que bem entende da maneira que quiser.

Basta dizer que essas empresas consideram avisados os clientes que recebem a conta seguinte com um simples carimbo! Mesmo que o consumidor pague essa conta sem perceber o aviso, mostrando que há boa fé, a truculência está justificada. Também não vale para as concessionárias de energia elétrica a exigência legal de avisar o consumidor por carta que explicite claramente o problema e que a mesma seja recebia com assinatura do mesmo. Isso é lei para os outros!

E acham que acabou? Nada disso! Suponha que você esteja em casa, mostre que há um incapaz na sua residência, uma criança ou um idoso, e que esse argumento iria sensibilizar a concessionária para adiar o corte, até porque você está disposto a pagar imediatamente. Nada disso diminui a truculência. O corte será realizado, e a ligação só será refeita depois de você passar pelo péssimo atendimento telefônico que, também, complacentemente a agência finge que não vê. E, mesmo após horas de desgaste, você pode ficar sem luz por dois dias!

Dizem que o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo, dado o poder e a penetração desse produto em toda economia. Tenho minhas dúvidas. Acho que ninguém se debruçou sobre o caso da concessão de serviço público de energia elétrica no Brasil. Aqui, nem evidentes ganhos de escala pelo aumento do número de consumidores deixa a agência reguladora atenta. As tarifas brasileiras, mesmo sem impostos, muito superiores às tarifas de países cuja produção de eletricidade também vem da água, também não atraem a atenção de quem é responsável por “regular” preço. Salve-se quem puder!

Roberto Pereira d’Araujo

Engenheiro Eletricista – CREA 23763-D

Autor do livro “Setor elétrico brasileiro – uma aventura mercantil”. CONFEA, 2009.

Ex-membro do Conselho Administrativo de Furnas