Arquivo mensais:novembro 2010

Dá para combinar o “feijão com arroz” econômico com o PMDB?

As possibilidades americanas de estender sua influência global estão ligadas não só ao seu poderio bélico, mas certamente às ferramentas econômicas das quais os EUA dispõem. Em artigo publicado no Valor Econômico, o professor José Luiz Fiori, da UFRJ, explica que a estratégia americana de desvalorizar a moeda enquanto aumenta sua presença militar em diferentes localidades não é nova. Ela já foi utilizada em 1973, quando os Estados Unidos abandonaram o regime de Bretton Woods, causando a primeira grande recessão desde o fim da Segunda Grande Guerra. No mesmo artigo, o professor Fiori explica que há diferenças fundamentais entre os dois cenários, já que agora o principal rival econômico dos EUA é a China, e não mais a União Soviética, o que determina uma relação econômica diferente. O desafio agora é claro, de acordo com outra analista da área, a professora Vera Thorstensen da FGV: empoderar a OMC enquanto mediadora da chamada “guerra cambial”.essa é,ainda de acordo coma professora Vera, uma das tarefas da diplomacia brasileira. Mas como a nova equipe econômica deve se portar em tempos tão complicados para o cenário cambial?

O trio Míriam-Mantega-Tombini, somados ao presidente do BNDES que, muito provavelmente, deve continuar Luciano Coutinho, dá o tom da continuidade para a economia no país, mas tende a deslocar as decisões mais para a presidente eleita do que deixá-la nas mãos dos ministros. É ela que deve direcionar decisões e soluções sobre como cumprir a alta meta de crescimento em meio à valorização do câmbio e às tendências de inflação. Contar com o apetite dos chineses pelas nossas exportações é suficiente? A expectativa geral é que Dilma não conte com os mesmos bons ventos que sopraram para Lula, considerando, por exemplo, a agitação dos europeus com a crise fiscal, que cobra revisões de cada um dos países do continente. Além do cenário global, o trio econômico pode esbarrar no principal desafio da presidente eleita: as relações com o PMDB, que saiu enorme das eleições 2010.

O analista Leandro Couto avalia que a nomeação de Miriam Belchior é positiva para o Ministério do Planejamento. “[Míriam] é gestora, vai pra tocar o PAC, acho que não vai deixar o orçamento criar empecilhos pra que as principais obras do governo sejam tocadas” explica. Ele afirma ainda que Míriam não deve interferir nas principais políticas da Presidenta para a área. Apesar da definição do trio, o Planejamento ainda precisar de outras nomeações para que haja uma expectativa final sobre sua atuação. “Não creio nem que vá interferir decisivamente na política econômica, vai apenas seguir a linha da presidente, o que já é alguma coisa. Mas, e o planejamento de médio e longo prazo? E a articulação disso com o médio e o curto prazo? Vai manter a SAE [Secretaria de Assuntos Estratégicos] isolada dos demais órgãos? E o MDIC [Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior]?”

As chefias dos próximos ministérios e secretarias devem ser anunciadas até o meio de dezembro. Nomeações de pastas como o MDIC dependem da negociação com os partidos da base aliada. A expectativa é que sejam feitas alterações institucionais, por exemplo, na própria estrutura dos ministérios, por isso a dúvida quanto ao status futuro da SAE. Os nomes a serem anunciados devem ser os dos cargos palacianos: Antonio Palocci para a Casa Civil, Gilberto Carvalho na Secretaria-geral da Presidência, Paulo bernardo no Ministério da Previdência e José Eduardo Cardozo no Ministério da Justiça. Edison Lobão deve permanecer na pasta das Minas e Energia. Moreira Franco, do PMDB, também já é nome garantido no novo governo.

Grandes Desafios Econômicos de Dilma e o trio de 4

A equipe econômica de Dilma Rousseff deve ser anunciada já nos próximos dias. Depois de um sem-número de reuniões a portas fechadas com especialistas e com os nomes mais cotados, três políticos saem fortalecidos: Guido Mantega, mantido no Ministério da Fazenda, Míriam Belchior para o Ministério do Planejamento e Alexandre Tombini no Banco Central. Se esse for o trio definido para para o Conselho Monetário Nacional – CMN, Luciano Coutinho acabará ficando no BNDES, porque Dilma não quer prescindir da participação dele no primeiro time. Portanto, a escolha desses 3 acaba definindo 4 cadeiras.

Assim, são grandes as chances de Paulo Bernardo ir para a Casa Civil, e Antonio Palocci se tornar uma espécie de secretário especial no Palácio do Planalto.

Luciano Coutinho é nome certo no BNDES. A grande dúvida é Nelson Barbosa, que também deverá ter um cargo no primeiro escalão.

O panorama dessas nomeações é de continuidade. Dilma parece ter reunido as sugestões de Lula para não alterar o quadro de maneira significativa e seu próprio objetivo de colocar um disciplinado executor de tarefas no planejamento para garantir o cronograma de execução do PAC.

Porém, com esse trio relativamente continuista na CMN, corre o risco de de ter uma equipe com de falta de criatividade, de capacidade analítica e coragem para questionar a chefia. Isso pode trazer problemas para a gestão econômica nos primeiros 2 anos do mandato Dilma.

Ó cenário internacional para o governo Dilma é muito mais pessimista do que foi para Lula em 2002, quando eleito, até 2008. E depois de 2008, apesar do susto inicial, o cenário continuou favorável. A crise bancária foi relativamente paralisada pela ação ágil do governo americano e copiada por quase todos os países desenvolvidos.

Para as exportações brasileiras, a leve recessão que se seguiu nos países desenvolvidos, foi compesada pela maior expansão chinesa que fomentou a demanda por commodities. E em termos do nosso balanço de pagamentos fragilizado, a super expansão de liquidez fez com que o governo não tivesse que tomar nenhuma medida macroeconômica difícil.

Certamente temos que parabenizar o governo Lula pela oportuna e bem-sucedida opção desenvolvimentista durante a crise. Porém, na gestão da política monetária, continuou evitando mexer no essencial: os juros mais altos e o câmbio mais valorizado do mundo.

Como ela manterá a meta de crescer acima de 5% com um cenário ao mesmo tempo inflacionista, com câmbio valorizado, recessão mundial e meta de redução elevada da dívida pública, sem tomar medidas difíceis e criativas?

Para piorar, o cenário internacional ficará cada vez mais díficil e se houver uma crise cambial no meio do mandato, ela não terá a mínima chance de recuperar a governabilidade e a popularidade antes de 2014. Nesse caso, o trio econômico poderá ficar mesmo de 4.

Abaixo vai um comentário econômico do César Maia que tem pontos a serem observados. Cesár Maia é oposição ao governo e seus comentários devem ser vistos a partir dessa ressalva, porém é um bom economista e fez na última edição de seu “ex-blog” alguns alertas que merecem nossa atenção.

“RAZÕES ESPERTAS PARA SAÍDA DO MEIRELLES DO BANCO CENTRAL!

1. Com a experiência acumulada do Meirelles no setor privado, onde aprende disciplina, em sua candidatura vitoriosa a deputado federal pelo PSDB de Goiás em 2002 e nesses oito anos de governo Lula, onde adquiriu até status de ministro, não se concebe uma atitude juvenil como essa, criando constrangimento à presidente pelos jornais. “Só fico com autonomia”, disse. Então por que vazou para a imprensa essa “exigência”?

2. Elementar a dedução. 2011 será um ano difícil. A inflação pelo IPCA aponta para 7% a 8%. Pelo IGP-FGV já passou disso, e com todo o câmbio valorizado, o que não é comum. A taxa de juros terá que subir. O crescimento do PIB vai cair para 3%, ou menos. Um juro maior atrai capital de curto prazo. O câmbio é pressionado para ficar como está. Mas a balança comercial -especialmente para o setor industrial- não resiste mais esse câmbio. O déficit em conta corrente vai para pelo menos 60 bilhões de dólares. Mas desvalorizar o real por intervenção empurra ainda mais a inflação para cima e afeta a expectativa do mercado no novo governo. Ou seja: se ficar o bicho pega; se correr o bicho come.

3. Meirelles quer continuar com sua imagem pessoal sem mácula e forçou sua saída para que não tenha que enfrentar 2011 como presidente do Banco Central e ser cogestor de um ano de recessão, inflação alta, juro crescente, problemas cambiais e na conta corrente do balanço de pagamentos. E assim, promoveu um golpe esperto: criou um incidente e sai sem pedir, mas por decisão do novo governo. Esse jogo só agrava a expectativa que se tem sobre 2011. Sinal mais claro não poderia ocorrer.”

Por Pedro Nogueira. Colaborou a equipe do Portal Desenvolvimentistas.

Honduras ainda tem violações de direitos e EUA são cúmplices, diz padre ativista

O padre belga François Houtart, em foto de 2007, é um dos defensores dos direitos humanos em Honduras

(Roosewelt Pinheiro/ABr )

Honduras continua se debatendo sob uma grave crise econômica, política e social originada pelo golpe de Estado que derrubou o presidente Manuel Zelaya, em junho de 2009. Apesar da imagem de “país pacificado e normalizado” que o atual governo de Porfirio Lobo tenta projetar internacionalmente, as entidades que integram a Plataforma de Direitos Humanos de Honduras continuam denunciando a constante violação de direitos humanos e instalaram uma “comissão da verdade” (órgão que investiga crimes de ditaduras, comum na América Latina) para esclarecer os abusos cometidos desde o golpe.

François Houtart, sacerdote, sociólogo, principal referência do Fórum Social Mundial e membro da Comissão da Verdade, conversou com o Opera Mundi e analisou a delicada situação vivida por Honduras. O sociólogo belga está convencido de que uma consolidação do projeto de refundação daFNRP (Frente Nacional de Resistência Popular) poderia implicar um aumento da repressão e de que o governo dos Estados Unidos não está alheio ao que ocorre no país. Na verdade, segundo ele, os EUA continuam promovendo seu projeto para se reposicionar na região latino-americana, e o golpe de Estado em Honduras foi uma peça importante dessa estratégia.

Passaram-se 17 meses desde o golpe de Estado em Honduras. Como o senhor vê a situação dos direitos humanos no país?
Não melhorou. Pelo contrário – a delicada situação política e social vivida pelo país contribuiu para um agravamento do panorama. Sabemos que o golpe foi levado a cabo pela oligarquia tradicional, que não aceita processos de mudança no país e não quer perder seus privilégios. Agora que eles detêm novamente o poder e o controle da política e da economia, não permitirão avanços sociais. Todos os que tratam de lutar para conseguir mais direitos para o povo são vistos como inimigos que é preciso eliminar. Nesse sentido, não se passa uma semana sem novas vítimas. Ainda estamos em uma situação muito tensa.

Que importância terá a Comissão da Verdade em um contexto tão complicado?
Os objetivos da Comissão da Verdade são investigar as violações dos direitos humanos a partir do golpe, investigar a história do golpe, suas consequências e quem esteve por trás desse acontecimento. E, finalmente, investigar o contexto geral do país, pois não se pode entender esses fatos sem conhecer a estrutura social, política e econômica de Honduras. Tudo isso vai esclarecer o que realmente aconteceu em Honduras e apontar os verdadeiros responsáveis.

Recentemente, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Philip J. Crowley, declarou que “o tema dos direitos humanos não é condição prévia para o retorno de Honduras à OEA”. Que leitura podemos dar a esta declaração?
É parte da lógica política dos Estados Unidos. Eles condenaram o golpe, mas não pela essência de seu significado – a detenção dos processos de mudança que ocorriam no país -, e sim pelo método utilizado. Agora querem legitimar o atual governo para continuar com suas políticas e aparentar uma normalização na região.

Que papel o golpe em Honduras teve para a região latino-americana?
Honduras era o elemento mais frágil do conjunto de países que promoveram ensaios de transformação na América Latina. É uma advertência para todo o continente, e já vimos isso em vários países. Por não nos alinhar às políticas norte-americanas e oligarquias locais, sofreremos intervenções – não mais militares, como no passado, e sim por meio de novos métodos e instrumentos.

Discute-se intensamente se o presidente Obama teve ou não algo a ver com o golpe em Honduras. Qual é sua opinião?
Quando observamos a política externa de Obama, não restam dúvidas de que o presidente norte-americano continua com a mesma política de sempre dos Estados Unidos. Pode haver um estilo diferente, mas a substância não mudou e o caso de Honduras é um exemplo claro disso.

Também se afirma que os Estados Unidos já têm problemas demais no Oriente Médio e, no momento, a América Latina não é sua prioridade.
O continente latino-americano sempre terá uma grande importância para os Estados Unidos, que precisam manter o controle. É evidente que os processos de unidade latino-americana promovidos no continente os preocupam muito. Assim como os preocupa o início de uma lógica de organizar e entender a economia e a política que contradiz o sistema capitalista e a economia de mercado. Os Estados Unidos vêem isso como um perigo a longo prazo para a lógica do sistema do qual são parte essencial, e que consideram fundamental para a continuidade de seus interesses no mundo.

O senhor acredita que, no caso de Honduras, o que preocupava os EUA era o início de uma mudança dessa lógica de sistema?
Por um lado é justamente isso, mas, por outro, eles temiam que Honduras aderisse à Alba. Isso poderia ser uma tentação para outros países da região centro-americana e eles decidiram pôr fim a essa situação.

O processo de formação da FNRP em Honduras é algo novo para a região. O senhor acredita que ela pode atingir o objetivo de refundar o país?
Trata-se de uma resistência organizada pelos movimentos de base e é algo muito inovador. Acredito que pode atingir seus objetivos sempre que mantiver a unidade de todos os setores que a compõem e, cedo ou tarde, terá uma tradução no campo político, para promover as reformas fundamentais do Estado.

Uma maior força da FNRP poderia implicar mais repressão?
Sem dúvida. O governo atual acredita que as pessoas vão se cansar e que a resistência se enfraquecerá aos poucos, até desaparecer. Se isso, como acredito, não ocorrer, será criado um cenário de violência muito preocupante.

Nesse contexto, ganha ainda mais importância a presença de uma Comissão da Verdade…
Os trabalhos já começaram e, nos próximos dias, todos os integrantes percorrerão o país para recolher testemunhos e analisar os avanços do processo.

Evento: Conferência de Desenvolvimento do IPEA

Por Saionara Reis, do Brasil e Desenvolvimento

Entre os dias 24 e 26 de novembro estará acontecendo a 1a Conferência de Desenvolvimento do IPEA, das 8h às 20h, no gramado central da Esplanada dos Ministérios.

“O objetivo é criar um espaço nacional de debates, no coração do Brasil (Brasília), sobre o desenvolvimento, com base na produção aplicada do Ipea, mas fazê-lo de forma aberta a estudantes, profissionais, agentes públicos, estudiosos, pesquisadores, especialistas, professores, legisladores, entre outros.

O debate sobre o desenvolvimento e suas implicações é fundamental no processo de conhecimento e reconhecimento de um país. No caso brasileiro, após anos de estagnação, esse objetivo se faz mais importante ainda.”

O B&D, juntamente com o Diretório Central dos Estudantes da UnB, participará ativamente da Conferência por meio da promoção de debates e oficinas nos três dias do evento. Para entrar no clima das atividades, participe da Pré-Conferência de Desenvolvimento amanhã, na UnB.

Para inscrever-se nas atividades acesso o site www.ipea.gov.br/code .

Programação do B&D e DCE:

TERÇA, 23/11, Anfiteatro 12, UnB

9h – Abertura

- José Geraldo de Sousa Junior, Reitor da UnB

- Maria Paula Dallari Bucci, Secretária da Educação Superior do MEC

- Diretório Central dos Estudantes da UnB (DCE)

9h30-12h – Painel I: A Importância Estratégica da Educação para o Brasil

- Pedro Demo, Conselheiro de Orientação do Ipea, professor com pós-doutorado em Educação pela UCLA, de Los Angeles (EUA)

- Maria Paula Dallari Bucci, Secretária da Educação Superior do MEC

- Paulo Corbucci, Coordenador de Educação do Ipea e doutor em Sociologia pela UnB

14h – Painel II: A Juventude no Brasil Hoje

- Marcio Pochmann, Presidente do Ipea

- Beto Cury, Secretário Nacional de Juventude

Atividade Cultural

17h – Apresentação de 20 filmes de curta-metragem Afro Brasilienses, premiados pela Fundação Palmares (Anfiteatro 12)

18h – Sistema Criolina (Centro Comunitário)

QUARTA, 24/11, Gramado Central da Esplanada

14:00 – A mobilização da juventude na construção de alternativas de desenvolvimento do país

Marcelo Pomar – Movimento Passe Livre de Florianópolis

Neto – Coordenador de Juventude do MST

Raul Cardoso – Participante da ocupação da reitoria da UnB 2008

Artur Sinimbu – Participante da ocupação da Camara Legislativa do DF 2009

QUINTA, 25/11, Gramado Central da Esplanada

14:00 – Cultura como espaço de criatividade política

Paulo Dagomé – Líder comunitário de São Sebastião (DF)

Daniel Vargas – Ex-ministro interino da SAE, Doutorando por Havard.

Gustavo Anitelli – Produtor da banda O Teatro Mágico e militante da cultura livre

SEXTA, 25/11, Gramado Central da Esplanada

14:00 – Oficina de Criatividade Política

- Membros do Grupo B&D e do DCE UnB

A crise do capitalismo e a importância atual de Marx

Por Marcelo Musto para a Carta Maior
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.

Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.

Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).

Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.

Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.

Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?

Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.

Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.

A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.

Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.

Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?

Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.

As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.

Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?

Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista.

Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.
cccccccccc
No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso.

Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?

Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os “Grundrisse” provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).

Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?

Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.

Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.
Samir Amin e os modelos de desenvolvimento

Samir Amin e os modelos de desenvolvimento

Do Blog do Altamiro Borges

Em recente entrevista ao jornal italiano Il Manifesto, o economista egípcio Samir Amin, um dos maiores intelectuais da atualidade, falou do seu novo livro “A life looking forward” – ainda não traduzido no Brasil. A entrevista é instigante e polêmica. Reproduzo-a abaixo:

Com a crise econômico-financeira, interrogamo-nos novamente sobre os limites da globalização neoliberal e, mais em geral, sobre os limites do capitalismo. Pode nos explicar em que sentido, como o senhor escreve em “The World We Wish to See”, “o desenvolvimento mundial do capitalismo sempre foi polarizante”, e o imperialismo representa não “uma fase do capitalismo, mas sim a característica permanente da sua expansão global”?

No início, adotei a tese de Lenin, segundo a qual o capitalismo dos monopólios constitui uma nova fase na história do capitalismo, anunciada no fim do século XIX, e o capitalismo se tornou uma forma de imperialismo apenas a partir daquela data. Em seguida, porém, acabei elaborando a ideia do caráter originariamente polarizante – portanto, de algum modo imperialista – do capitalismo desde as suas origens.

Considero, de fato, que a acumulação em escala mundial sempre existiu, de modo não exclusivo, mas prevalente, uma acumulação por expropriação. Uma expropriação que não se refere apenas à “acumulação primitiva” analisada por Marx e referida nas origens do capitalismo, mas que é sim um traço permanente na história do capitalismo realmente existente, a partir da época mercantilista. Aquele longo período de transição em que o papel central na mundialização, organizada em torno à conquista das Américas e à obtenção de escravos, assume a forma evidente e indiscutível da acumulação por expropriação. Essa acumulação se estende depois ao longo de todo o século XIX e se radicaliza com a formação dos monopólios, que favorecem a exportação de capital em uma escala muito mais ampla, “instalando” segmentos do sistema capitalista mundializado nas colônias “de além mar”, nas semicolônias, nas colônias da América Latina.

De outro lado, o fato de a polarização ser imanente ao desenvolvimento mundializado do capitalismo, acompanhando-o desde as origens, é demonstrado por um simples dado: até aproximadamente 1820, o PIB per capita da China era superior ao PIB médio da Europa avançada. Entre 1820 e 1900, passa-se ao invés de uma relação 1-1 a uma relação 1-20, e, de 1900 ao ano 2000, de 1-20 a 1-50.

Ainda em “Oltre il capitalismo senile”, o senhor escrevia que, justamente por causa do seu “calcanhar de Aquiles” – a dimensão financeira –, o sistema capitalista estaria preparando “uma iminente catástrofe financeira”. Ora, a iminência é realidade: o que o senhor entende quando defende que a crise atual é “a crise do capitalismo imperialista dos oligopólios”, organicamente ligados à financeirização do sistema?

Prosseguindo na direção da pesquisa inaugurada pelo livro de Sweezy e Baran de 1966, “Monopoly Capital” – a primeira formulação coerente da transformação qualitativa do capitalismo ocorrida no final do século XIX com a instituição dos monopólios – localizei o impacto de duas grandes ondas no processo de monopolização: a primeira, tem início no final do século XIX e se estende até 1945, a segunda começa nos anos 60 do século passado e, portanto, não coincide de fato com a crise financeira de 2008.

Nessa segunda onda, o grau de monopolização assume um relevo sem comparações, o que me leva a considerar que o capitalismo contemporâneo é um capitalismo dos oligopólios generalizados, mundializados e financeirizados. Oligopólios generalizados porque controlam a economia no seu conjunto (além do âmbito político e cultural), até aqueles setores não diretamente monopolizados. E mundializados também por efeito das políticas liberais e neoliberais dos anos 80, 90 e 2000.

Agora, no que se refere à financeirização, também da “esquerda”, boa parte das análises sobre o sistema financeiro tendem a separar a financeirização, artificial e negativa, do bom capitalismo produtivo. Não é assim: os dois aspectos vão lado a lado. Os oligopólios são financeirizados justamente no sentido de que não há de um lado um setor financeirizado, o dos bancos, dos seguros, dos fundos de pensão, e de outro um setor produtivo sadio. Pelo contrário, são os próprios oligopólios que são proprietários das grandes empresas produtivas e, ao mesmo tempo, das grandes instituições financeiras. E, por sua vez, esses oligopólios têm necessidade da expansão financeira para assegurarem o domínio sobre a economia e sobre a sociedade inteira.

A “sobreposição”, como Baran já defendia, é total. E tem razíes em um sistema que leva por si mesmo à estagnação relativa, particularmente marcada a partir de 1970, quando nos países da Tríade imperialista (EUA, Europa e Japão) verificou-se uma drástica redução das taxas de lucro, de crescimento e de investimento. É essa estagnação – um excesso de superávit com relação à possibilidade de expansão do capital para ampliar e incrementar os investimentos produtivos – que alimenta as bolhas financeiras, que não são o produto de derivações ou desregulamentações, mas sim uma exigência imanente do sistema capitalista contemporâneo: a financeirização é a única maneira à disposição dos capitalistas dos oligopólios generalizados e mundializados para superar a tendência profunda e intrínseca à estagnação.

Por isso, estou convencido de que só nos resta, como alternativa, sair desse capitalismo em crise. Ou, mais modestamente, começar a se dirigir à saída, rumo a outro modelo de desenvolvimento, cuja fisionomia ainda não está clara e para cuja definição serão necessários 50, 100 anos.

Em um recente artigo, o senhor afirma que uma mundialização negociada passa pelo “desengajamento” para a construção de uma economia nacional autocentrada, mas não autárquica. Uma economia que – o senhor escreve em “A Life Looking Forward” – “encontraria sérios obstáculos se não fosse reforçada por formas de integração regional capazes de aumentar seu efeito positivo”. Como combinar estratégias de desengajamento do sistema global com a construção de blocos regionais?

Não existem alternativas praticáveis ao desenvolvimento autocentrado, que subordinem as relações externas às exigências de transformação interna, as mais progressistas possíveis. Não se trata de simples autarquia, mas da subversão da lógica atual: em vez de se adequar, em vez de se curvar às tendências dominantes em escala mundial, é preciso agir para que sejam essas tendências se adequem às exigências internas. Esse é o sentido que eu atribuo às iniciativas independentes por parte dos países do Sul do mundo. As razões para fazer isso são evidentes na maior parte dos casos. Talvez não para os três novos gigantes econômicos: China, Índia e Brasil, que, cada um por si, podem contar com um peso equivalente ao de uma grande região, e que por isso pareceria que não têm necessidade de se confiar a acordos sub-regionais e inter-regionais.

Porém, esses países também acusam déficits, basta pensar na escassez dos recursos naturais, energéticos em primeiro lugar, dos quais têm necessidade. E isso vale com maior razão para as outras regiões, para os países do sudeste asiático, do mundo árabe, da África subsaariana, da América Latina espanhola. Em todos esses casos, os acordos sub-regionais servem para instituir, por via negociada, formas de complementariedade, que se articulem em mais planos.

Por exemplo, o das tecnologias: hoje, os países do Sul são capazes – nem todos da mesma forma – de desenvolver capacidade tecnológica sem ter que necessariamente submeter-se ao protecionismo do direito industrial promovido pela Organização Mundial do Comércio. O mesmo deveria ocorrer com as infraestruturas, para a localização de estratégias de complementariedade industrial, a partir das indústrias de base, obviamente, mas também para as indústrias do grande consumo, para o acesso aos recursos naturais.

A propósito dos recursos naturais: o senhor defende que, “longe de estar resolvida, a ‘questão agrária’ está mais do que nunca no centro dos desafios que a humanidade deverá enfrentar no século XX”. Por que o senhor considera que o capitalismo, “pela sua própria natureza, é incapaz de resolvê-la” e por que acredita que ele sabe apenas oferecer a perspectiva de um planeta de favelas?

A acumulação por expropriação que caracteriza o capitalismo histórico, o que, no início do século XIX foi se cristalizando em torno ao triângulo Londres-Amsterdã-Paris, não se refere apenas aos povos das Américas, mas também aos agricultores europeus. O modelo é o das “enclosures” da Grã-Bretanha, a expropriação dos agricultores ingleses e irlandeses, que sofreram, os primeiros da Europa, uma forma de apropriação privada da terra, depois generalizada ao continente europeu.

Esse modelo histórico teria tido consequências explosivas se não fosse acompanhado por aquele enorme “aparato de segurança” e “válvula de escape” constituída pelo sistema das migrações às Américas: os processos migratórios permitiram que a Europa construísse em outro lugar uma outra Europa, senão mais importante em termos de população do que a do continente.

Mas se considerarmos os outros continentes, a Ásia, a África, a América Latina, onde hoje vivem 75% da população mundial, da qual metade é agrícola, nos damos conta de que esse sistema é inaceitável e ineficaz. Como demonstra o recente nascimento de um planeta de favelas: os agricultores expulsos das terras não podem ser “absorvidos” pelos mecanismos da moderna industrialização e não podem recorrer de modo maciço às migrações. A solução à questão agrária proposta pelo modelo capitalista requereria que se concedesse à Ásia, à África e à América Latina pelo menos outras quatro Américas.

Novos investimentos na indústria naval superam R$ 12 bilhões

Em dezembro, 165 projetos serão avaliados pelo Fundo da Marinha Mercante
Por Sabrina Lorenzi, no iG Rio de Janeiro

O Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (FMM) analisa no dia 17 de dezembro 165 projetos que concorrem a recursos da instituição para a indústria naval. Estimadas entre R$ 12 bihões e R$ 13 bilhões, são propostas de expansão de estaleiros, construção de novas unidades, fabricação de navios, entre outros negócios que deslancharam a partir 2003 com as encomendas de plataformas e navios para a Petrobras.
A corrida das empresas pelo financiamento do governo surpreendeu Amaury Neto, diretor do FMM, que comparou a demanda atual com o volume praticado no início da década. “Para se ter uma ideia da expansão do setor, no ano 2000 não chegamos a analisar nem R$ 1 bilhão em projetos”, afirmou. “A demanda anual era da ordem de R$ 800 milhões naquela época”, acrescentou. Sérgio Machado, presidente da Transpetro, lembra que os recursos do FMM acabavam caindo nos cofres o Tesouro por falta de demanda.
A análise de crédito pelo FMM funciona como um termômetro do setor. Após a primeira aprovação , o projeto ainda passa por mais nove fases, até contar efetivamente com o recurso liberado.
No ano passado, foram contratados – passaram pela primeira fase de avaliação – 196 projetos com recursos de mais da ordem de R$ 8 bilhões, quase metade de tudo o que fora incluído na carteira do FMM nos sete anos anteriores.
Nos últimos oito anos, foram contratados R$ 17 bilhões, distribuídos em 406 projetos. Para os próximos quatro anos, Neto avalia que R$ 13 bilhões serão contratados – num total de R$ 30 bilhões em projetos da indústria naval com aval do FMM durante os governos de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff.
“Foi uma iniciativa muito interessante e eficiente promover, nas duas pontas, o renascimento da indústria naval. Criou-se demanda e oferta. Em 2000 o setor empregou menos de dois mil trabalhadores. Hoje são 50 mil empregos. Um salto gigantesco, fantástico, coisa única no mundo”, afirmou.
Amaury participou de entrevista coletiva na sede da Transpetro. A subsidiária da Petrobras antecipou informações sobre o terceiro navio do Programa e Modernização e Ampliação da Frota da Petrobras (Promef), batizado de Sérgio Buarque de Holanda. O petroleiro será lançado em solenidade que contará com a presença do presidente Lula.
Machado lembra que a “indústria naval no inicio do governo não existia”. “Com isso outras empresas passaram a acreditar, a partir das encomendas da Petrobras.” Fizemos um choque tecnológico na indústria naval”, acrescentou.

Novos investimentos na indústria naval superam R$ 12 bilhões

Em dezembro, 165 projetos serão avaliados pelo Fundo da Marinha Mercante

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro | 18/11/2010

O Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (FMM) analisa no dia 17 de dezembro 165 projetos que concorrem a recursos da instituição para a indústria naval. Estimadas entre R$ 12 bihões e R$ 13 bilhões, são propostas de expansão de estaleiros, construção de novas unidades, fabricação de navios, entre outros negócios que deslancharam a partir 2003 com as encomendas de plataformas e navios para a Petrobras.
A corrida das empresas pelo financiamento do governo surpreendeu Amaury Neto, diretor do FMM, que comparou a demanda atual com o volume praticado no início da década. “Para se ter uma ideia da expansão do setor, no ano 2000 não chegamos a analisar nem R$ 1 bilhão em projetos”, afirmou. “A demanda anual era da ordem de R$ 800 milhões naquela época”, acrescentou. Sérgio Machado, presidente da Transpetro, lembra que os recursos do FMM acabavam caindo nos cofres o Tesouro por falta de demanda.
A análise de crédito pelo FMM funciona como um termômetro do setor. Após a primeira aprovação , o projeto ainda passa por mais nove fases, até contar efetivamente com o recurso liberado.
No ano passado, foram contratados – passaram pela primeira fase de avaliação – 196 projetos com recursos de mais da ordem de R$ 8 bilhões, quase metade de tudo o que fora incluído na carteira do FMM nos sete anos anteriores.
Nos últimos oito anos, foram contratados R$ 17 bilhões, distribuídos em 406 projetos. Para os próximos quatro anos, Neto avalia que R$ 13 bilhões serão contratados – num total de R$ 30 bilhões em projetos da indústria naval com aval do FMM durante os governos de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff.
“Foi uma iniciativa muito interessante e eficiente promover, nas duas pontas, o renascimento da indústria naval. Criou-se demanda e oferta. Em 2000 o setor empregou menos de dois mil trabalhadores. Hoje são 50 mil empregos. Um salto gigantesco, fantástico, coisa única no mundo”, afirmou.
Amaury participou de entrevista coletiva na sede da Transpetro. A subsidiária da Petrobras antecipou informações sobre o terceiro navio do Programa e Modernização e Ampliação da Frota da Petrobras (Promef), batizado de Sérgio Buarque de Holanda. O petroleiro será lançado em solenidade que contará com a presença do presidente Lula.
Machado lembra que a “indústria naval no inicio do governo não existia”. “Com isso outras empresas passaram a acreditar, a partir das encomendas da Petrobras.” Fizemos um choque tecnológico na indústria naval”, acrescentou.