Sobre Rennan Martins

Jornalista e analista político. Duvida da tese da narrativa isenta. Contato: rennan.m.martins@gmail.com

Brasil. Como sobreviver?

Por Adriano Benayon | Brasília, 01/09/2014

 

As TVs e a grande mídia promovem intensamente a candidata que surgiu com a morte do desaparecido na explosão. Marina da Silva costuma ser apresentada como defensora do meio-ambiente e como diferente de políticos que têm levado o País à ruína financeira e estrutural, como foram os casos, em especial, de Collor e de FHC.

2. Mas Marina não representa ambientalismo algum honesto, nem qualquer outra coisa honesta. O que tem feito é, a serviço do poder imperial angloamericano, usar a preservação do meio ambiente como pretexto para impedir – ou retardar e tornar absurdamente caras – muitas obras de infra-estrutura essenciais ao desenvolvimento do País.

3. Pior ainda, a tirania do poder mundial, com a colaboração de seus agentes locais, já ocupa enormes áreas, notadamente na região amazônica, para explorar não só a biodiversidade, mas os fabulosos recursos do subsolo, verdadeiro delírio mineral, na expressão do falecido Almirante Gama e Silva, profundo conhecedor da região e, durante muitos anos, diretor do projeto RADAM.

4. Além da pregação enganosa sobre o meio ambiente, o império vale-se de hipocrisia semelhante em relação à pretensa proteção aos direitos dos indígenas, a fim de apropriar-se de imensas áreas, que os três poderes do governo têm permitido segregar do território nacional, pois brasileiro não entra mais nelas.

5. As ONGs ditas ambientalistas, locais e estrangeiras, financiadas pela oligarquia financeira britânica, como a Greenpeace e o WWF (Worldwide Fund for Nature) trabalham para quem as sustenta, não estando nem aí para o meio-ambiente.

6. Isso é fácil de notar, pois não dão sequer um pio contra a poluição dos mares, produzida pelo cartel anglo-americano do petróleo: a mais terrível poluição que sofre o planeta, pois os oceanos são a fonte principal do oxigênio e do equilíbrio da Terra.

7. Marina foi designada ministra do meio ambiente, em Nova York, quando Lula, antes de sua posse, em janeiro de 2003, foi peitado por superbanqueiros, em reunião após a qual anunciou suas duas primeiras nomeações: Meirelles para o BACEN e Marina Silva para o MMA.

8. Empossada no MMA, Marina, nomeou imediatamente secretário-geral do ministério o presidente da Greenpeace, no Brasil.

9. Marina foi dos poucos brasileiros presentes, quando o príncipe Charles reuniu, na Amazônia, outros chefes de Estado da OTAN e caciques das terras que ele e outros membros e colaboradores da oligarquia mundial já estão controlando por meio de suas ONGs e organizações “religiosas”, como igreja anglicana, Conselho Mundial das Igrejas etc.

10. Todos deveriam saber que os carteis britânicos da mineração praticamente monopolizam a extração dos minerais preciosos, e a maioria dos estratégicos, notadamente no Brasil, na África, na Austrália e no Canadá.

11. Os menos desavisados entenderam por que Marina desfilou em Londres, nas Olimpíadas de 2012, única brasileira a carregar a bandeira olímpica.

12. É difícil inferir que o investimento da oligarquia do poder mundial em Marina da Silva visa a assegurar o controle absoluto pelo império angloamericano das riquezas naturais do País?

13. Algo mais notório: a mentora ostensiva da candidatura de Marina é a Sra. Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú, o que tem maiores lucros no Brasil, beneficiário, como os demais, das absurdas taxas de juros de que eles se cevam desde os tempos de FHC, insuficientemente reduzidas nos governos do PT.

14. Não há como tampouco ignorar as conexões do Itaú e de outros bancos locais com os do eixo City de Londres e Wall Street de Nova York.

15. D. Marina nem esconde desejar que o Banco Central fique ainda mais à vontade para privilegiar os bancos a expensas do País, que já gasta 40% de suas receitas com a dívida pública, sacrificando os investimentos em infra-estrutura, saúde, educação etc.

16. Contados os juros e amortizações pagos em dinheiro e os liquidados com a emissão de novos títulos, essa é despesa anual com a dívida pública, a qual, desse modo, cresce sem parar (já passa de quatro trilhões de reais).

17. Ninguém notou que Marina – além de regida pelo Itaú – já tem, para comandar sua política uma equipe de economistas tão alinhada com a política pró-imperial como a que teve o mega-entreguista FHC, e como a de que se cercou Aécio Neves?

18. Como assinalou Jânio de Freitas, Marina e Aécio se apresentam com programas idênticos. Na realidade, é um só programa, o do alinhamento com tudo que tem sido reclamado pela mídia imperial, tanto pela do exterior, como pela doméstica.

19. Da proposta de desativar o pré-sal – a qual fere mortalmente a Petrobrás, que ali já investiu dezenas de bilhões de reais, e beneficia as empresas estrangeiras, as únicas, no caso, a explorá-lo – até à substituição do MERCOSUL por acordos bilaterais – como exige o governo dos EUA – Marina e o candidato do PSDB estão numa corrida montando cavalos do mesmo proprietário, com blusas idênticas, diferenciadas só por uma faixa.

20. Por tudo, a figura de Marina antagoniza o pensamento do patrono do PSB, João Mangabeira, e o de seu fundador, Miguel Arraes, cujas memórias estão sendo rigorosamente afrontadas.

21. Não há, portanto, como admitir que os militantes do PSB fiquem inertes vendo a sigla tornar-se instrumento de interesses rapinadores das riquezas nacionais e prestando-se a que oligarcas internos e externos se aproveitem do crédito que os grandes nomes do Partido granjearam no coração de milhões de brasileiros de todos os Estados.

22. Há, sim, que recorrer a medidas apropriadas, previstas ou não, nos Estatutos do Partido, para que este sobreviva e ajude o Brasil a sobreviver.

23. De fato, estamos diante de um golpe de Estado perpetrado por meios aparentemente legais, incluindo as eleições. Parafraseando o Barão de Itararé, há mais coisas no ar, além da explosão de avião contratado por um candidato em campanha.

24. A coisa começou quando políticos e parlamentares notoriamente alinhados com os interesses da alta finança, e outros enrustidos, articularam a entrada de Marina na chapa do PSB, acenando a Eduardo Campos com o potencial de votos e de grana que ela traria.

25. Fazendo luzir a mosca azul, a Rede o pegou como peixes de arrastão.

26. Alguém viu a foto de Marina sorrindo no funeral do homem? Alguém notou que, imediatamente após a notícia da morte dele, a grande mídia, em peso, dedicou incessantemente o grosso de seus espaços à tarefa de exaltar D. Marina?

27. Os golpes, intervenções armadas e n outras interferências, por meio de corrupção, praticadas a serviço da oligarquia financeira angloamericana, em numerosos países, inclusive o nosso, desde o Século XIX, deveriam alertar-nos para dar mais importância a contar com bons serviços de informação e de defesa.

28. Golpes de Estado podem ser dados através de parlamentos, poderes judiciários, além de lances como os que estão em andamento. Agora, a moda adotada pelo império angloamericano, como se viu em Honduras e no Paraguai, na suposta primavera árabe, na Ucrânia etc., é promover golpes de Estado, sem recorrer às forças armadas, as quais, de resto, no Brasil, têm sido esvaziadas e enfraquecidas, a partir dos governos dirigidos por Collor e FHC.

* – Adriano Benayon é doutor em economia, autor do livro Globalização versus Desenvolvimento e ainda filiado ao PSB.

Marina Silva faz o jogo da oligarquia financeira

Por Adriano Benayon | Brasília, 30/08/2014

 

A questão objetiva é a seguinte: Marina não representa ambientalismo algum honesto. Ademais, não representa coisa alguma honesta. O que faz nessa área é o jogo da oligarquia financeira, cujos braços na indústria do petróleo, por exemplo, estão entre os maiores poluidores do planeta, contaminando, entre n outras coisas, os oceanos, a fonte principal e fundamental do oxigênio e do equilíbrio da Terra.

Se vocês pesquisarem as coisas relacionadas com o jogo do poder mundial, entenderia por que Marina é financiada por grandes banqueiros, obviamente ligados à oligarquia financeira angloamericana, e promovida, em toda a grande mídia e nos demais instrumentos dessa oligarquia concentradora, a qual aprofunda, cada vez mais, seu poder tirânico em quase todos os países, com especial intensidade no Brasil, presa por demais apetitosa por sua dimensão e por seus excepcionais recursos naturais.

Teria observado, entre outras gracinhas, que Marina foi designada ministra do meio ambiente por Lula, exatamente em Nova York, quando Lula, ainda antes de sua posse, foi peitado pelos superbanqueiros, em reunião que lá teve, daí anunciando suas duas primeiras nomeações: Meirelles para o BACEN e Marina Silva para o MMA.

Teria notado que Marina, no MMA, nomeou secretário-geral o presidente da ONG Greenpeace, no Brasil.

Teria sacado por que Marina foi dos poucos brasileiros presentes, quando o príncipe Charles se reuniu na Amazônia, com outros chefes de Estado da OTAN e caciques das terras que ele e outros membros da oligarquia mundial e de seus prepostos – chefes de governo e de Estado dos EUA, RU e satélites ?

O resultado de reuniões como essa e de pressões sobre os “governos” brasileiros têm sido transformar essas terras em gigantescas reservas indígenas, já sob controle de suas ONGs e organizações “religiosas”, como igreja anglicana, Conselho Mundial das Igrejas etc.

São terras de recursos minerais estupendos, verdadeiros delírios minerais, na expressão do falecido Almirante Gama e Silva, amazônida e profundo conhecedor da região, inclusive por ter sido, durante muitos anos, diretor do projeto RADAM. São áreas que os governos brasileiros de araque permitiram separar virtualmente do território nacional, pois brasileiro não entra mais nelas.

Entenderia também por que Marina desfilou em Londres, nas Olimpíadas, como a única brasileira a carregar a bandeira olímpica.

Já deu para inferir que o investimento da oligarquia do poder mundial na Sra. Marina visa a assegurar o controle das riquezas naturais fabulosas, principalmente da Amazônia, ainda não exploradas?

Vocês certamente sabem (os que não sabem, deveriam saber), que os carteis britânicos da mineração já monopolizam praticamente a extração dos minerais preciosos, e muitos dos estratégicos, no Brasil, na África, na Austrália e no Canadá.

Outra coisa: não deram a menor bola ao fato de Marina – além de regida pelo Itaú – já ter, comandando-a, uma equipe de economistas tão alinhada com a política pro-imperial como a que executou essa política no “governo” do mega-entreguista FHC e como a de que já se cercou o Aécio Neves?

Depois disso tudo, vocês ainda vão querer que eu explique por que o que está havendo, na realidade, é um golpe de Estado para pôr Marina no Planalto, a partir do momento em que operadores a serviço do poder mundial, através de políticos e parlamentares manjados e outros menos manjados, articularam a entrada dessa senhora na chapa do PSB, acenando a Eduardo Campos com o potencial de votos e de grana para obtê-los, aportado por ela? A rede, fazendo luzir a mosca azul, o pegou como peixes de arrastão.

Alguém viu a foto de Marina sorrindo no funeral do homem?

Alguém notou que, imediatamente após a notícia da morte dele, a grande mídia em peso dedicou incessantemente o grosso de seus espaços à tarefa de encher a bola de D. Marina?

O PSB e a eleição presidencial

Marina Silva e a banqueira Neca Setúbal. Grandes aliadas. Pragmatismo Político/Reprodução

Por Adriano Benayon

Há alguns anos, sou filiado ao PSB, em que ingressei, tendo tido a honra de ter tido minha ficha assinada pelo competente e digno Carlos Siqueira.

Sem solidariedade social e sem aspiração de independência nacional, socialismo é apenas uma palavra falsa.

Assim, diante do fato de que o PSB adotou a candidatura da Sra. Marina Silva à presidência da República, declaro que não votarei na candidata do partido.

Não estamos, senão formalmente, em regime democrático, haja vista a urna eletrônica absolutamente inconfiável, e a influência nas eleições do poder econômico concentrado e da desinformação em massa, a cargo da grande mídia, a serviço dos interesses imperiais. Meu voto, pois, tem peso ínfimo.

Mas para mim é importante declará-lo.

Para presidente, entre Dilma e Marina, sua provável concorrente, já que Aécio é fraco eleitoralmente e deverá ser preterido pelos imperiais, GAFE, PIG etc., penso que o PSB deveria apoiar a atual presidente, mediante compromissos de eliminação das políticas de juros altos, subsídios às montadoras estrangeiras e a outros concentradores, abandonar o tripé do FMI, intensificar as relações com os BRICS e com o Mercosul.

Devo concitar outros membros do PSB a pedir às lideranças do partido não persistirem no grave erro de se terem associado a uma certa rede ou teia, comprometida com interesses contrários aos de nosso País.

Errou o falecido Eduardo Campos ao entrar nessa associação, como erraram os que o acompanharam nesse passo.

Pior ainda foi, após a morte dele, apoiar a candidatura da Sra. Marina, sob pressão dos elementos mais entreguistas da coligação, como os Srs. Roberto Freire, Jarbas Vasconcellos et alli.

Mas o importante e recomendável é reconhecer os erros e fazer o possível para desfazê-los e/ou reduzir-lhes as consequências.

A prioridade então é dissociar-se da Rede e de D. Marina, pois essa aliança significa o fim do PSB como partido e sua identificação como mais uma sigla de aluguel.

Muitos estão ironizando, ao dizerem em relação a D. Marina: “Basta de intermediários. Neca Setúbal para presidente”.

Esses estão alienados da dura realidade, que é pior, pois a oligarquia dos grandes bancos locais é apenas subalterna dos interesses imperiais, tal como seus economistas, da mesma laia que os dos tucanos e ligados ao mega-entreguista FHC. Os críticos, se mais inteirados dos fatos e mais corajosos, deveriam dizer:

“Basta de intermediários. George Soros (ou o príncipe Charles, da família real britânica, Reino Unido) para Pró-Cônsul do império.”

*- Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

Benayon: Getúlio Vargas e a independência

 Por Adriano Benayon | Brasília, 12/08/2014

Aproxima-se o 60º aniversário do golpe de Estado com o qual a oligarquia angloamericana derrubou o presidente Vargas, em 24 de agosto de 1954.

2. Esse acontecimento teve efeitos tão desastrosos como importantes. Trata-se, nada menos, que da cassação da independência do Brasil.

3. A soberania do País nunca foi plenamente exercida, mas, se houve governante que tomou iniciativas para alcançá-la, esse foi Getúlio Vargas.

4. Exatamente por isso, a oligarquia imperial angloamericana sempre conspirou contra ele, com a ajuda de pseudo-elites e de agentes locais da política e da mídia, em geral recrutados por meio de corrupção.

5. Em 1932, a oligarquia paulista promovera o fracassado movimento de 9 de julho, movida pelos interesses britânicos. Intitularam-no constitucionalista, conquanto Getúlio organizara as eleições para a Constituinte que votou a Constituição de 1934, a qual instituiu significativos avanços econômicos e sociais.

6. Tão profunda como a estima dos verdadeiros industriais e a veneração dos trabalhadores brasileiros a Getúlio, foi a ojeriza da minoria desorientada pelos preconceitos da “democracia” liberal e dos contrários à industrialização, alimentada pela hostilidade da mídia, caluniosa e falsificadora dos fatos.

7. Vargas fora forçado, durante a Segunda Guerra Mundial, a ceder bases militares no Nordeste aos EUA, e cometeu o erro de insistir em enviar a Força Expedicionária Brasileira à Itália. A FEB foi equipada e armada pelos EUA e combateu sob comando norte-americano.

8. Daí se criaram laços entre os comandantes e oficiais de ligação estadunidenses e os oficiais brasileiros que conspiraram nos quatro golpes pró-EUA (1945, 1954, 1961 e 1964.

9. Em outubro de 1945, o pretexto foi derrubar um ditador, o que não tinha sentido, pois o presidente viabilizara eleições, já marcadas para o início de dezembro, e não era candidato. Após o golpe, recomendou votar no marechal Dutra, pois o brigadeiro Eduardo Gomes representava os que sempre se haviam oposto a Vargas.

10. Quando Vargas, eleito em 1950, voltou à presidência, nos braços do povo, já estava em marcha a desestabilização de seu governo, a qual culminou com o crime da rua Toneleros, já em agosto de 1954.

11. O crime foi dirigido pelo chefe da delegacia de ordem política e social (DOPS), famosa por seus métodos desumanos de repressão aos comunistas, desde a época do Estado Novo, instituído por golpe militar, em 1937.

12. Esse golpe proveio de oficiais do exército, que colocaram Felinto Muller na chefia da polícia. Vargas, presidente constitucional desde 1934, permaneceu à frente do governo, mas não teve poder e/ou vontade suficiente para limitar significativamente as violências.

13. Ele sempre foi contemporizador, negociava com pessoas de diferentes tendências e, por vezes, as colocava ou mantinha no governo. Ao voltar Vargas, em 1951, continuou na DOPS o filonazista Cecil Borer, que vinha da administração do marechal Dutra. Como tantos pró-nazistas, mundo afora, movido pelo anticomunismo, Dutra subordinou-se aos interesses dos EUA.

14. Apesar de seus erros, Vargas merece lugar de honra na história do Brasil, por ter dado o indispensável apoio do Estado ao desenvolvimento industrial, que despontava desde o início do século XX e ganhou força, de 1914 a 1945, graças também à redução dos vínculos comerciais e financeiros com os centros mundiais, propiciada pelas duas guerras e a longa depressão dos anos 30.

15. Antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o império já planejava fazer abortar esse processo. Mais tarde, diria o notório Henry Kissinger: “para os EUA seria intolerável o surgimento de uma nova potência industrial no hemisfério sul.”

16. Os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido vinham, de há muito, operando na desestabilização do presidente. Em 1954, Borer envolveu informantes da polícia e pistoleiros no crime da Toneleros, que matou o major Vaz, da aeronáutica, simulando que o alvo seria o virulento adversário de Vargas, Carlos Lacerda.

17. Na armação policial-jornalistica-militar, Vaz, casado e pai de filhos pequenos, substituiu, na ocasião, o solteiro major Gustavo Borges. Lacerda engessou o pé dizendo ter tomado um tiro de revólver, mas, se isso fosse verdade, o pé teria sido destroçado. Nunca se encontrou um prontuário de atendimento em hospital.

18. A conspiração enredou a guarda pessoal do presidente e o fiel guarda-costas Gregório Fortunato, que foi torturado e ameaçado para confessar o que não fez. Condenado a 15 anos de detenção, foi assassinado na prisão, em operação de queima de arquivo.

19. O golpe de 1954 é o maior marco negativo da história do Brasil, pois o governo udenista-militar, dele egresso, criou vantagens incríveis para as empresas transnacionais dominarem por completo a produção industrial do País. Fez os brasileiros pagar caríssimo para serem explorados.

20. Foi, assim, inviabilizado o desenvolvimento de tecnologias nacionais, a não ser por grandes empresas estatais ou apenas em nichos menores, no caso de indústrias privadas nacionais, ainda assim, fadadas a ser desnacionalizadas.

21. Tanto o golpe de 1964, que instituiu os governos militares, como a falsa democratização, a partir de 1985, intensificaram as políticas pró-capital estrangeiro em detrimento do País.

22. Os governos de 1954-1955 e 1956-1960 (JK) foram motores da desnacionalização da economia. Os de Collor e FHC os mais monoliticamente entreguistas. Nenhum operou reversões nessa marcha infeliz.

23. A herança hoje é a desindustrialização e a colossal dívida pública, tendo a União já gastado nela, desde 1988, quase 20 trilhões de reais. Além disso, recorrentes crises devidas aos déficits de comércio exterior.

24. As realizações do presidente Vargas fazem dele o principal heroi nacional e exemplo para futuros líderes. Mas não sem reservas, porque lhe faltou combatividade e espírito revolucionário.

25. Não me parece verdade que o nobre sacrifício de sua vida tenha frustrado os objetivos dos imperialistas. Preservaram-se as estatais, mas a própria Petrobrás – que já nascera sem o monopólio na distribuição, o segmento mais lucrativo – acabou, em parte, arrancada da propriedade estatal. Além disso, nos anos 90, ocorreram as doações-privatizações de dezenas de fabulosas estatais, algumas criadas durante governos militares.

26. A grande derrota estratégica deu-se com a entrega dos mercados e da produção industrial privada às transnacionais. Sem isso, a dívida externa não teria explodido em 1982, nem sido torradas as estatais, a pretexto de liquidar dívidas públicas, as quais, depois disso, ao contrário, se avolumaram como nunca.

27. O momento para evitar esse lastimável destino, era com Vargas, amado pelo povo, que foi às ruas, em massa nunca vista, pronto a tudo, quando de sua morte. Aí não havia liderança, nem plano.

28. Getúlio precisava ter cortado, no nascedouro, os lances que minaram suas bases de poder. Entre estes, o acordo militar Brasil-Estados Unidos, de 1952, negociado por Neves da Fontoura, ministro das Relações Exteriores, e por Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior das FFAA, sem o conhecimento do ministro do Exército, Estillac Leal.

28. Este se demitiu, pois Vargas assinou o acordo, e, com isso, cedeu aos que, mais uma vez, o traíam, e perdeu seu ministro nacionalista.

29. Fraquejou novamente em 1953, quando, embora mantendo o correto reajuste do salário mínimo, demitiu João Goulart do ministério do Trabalho, medida exigida em memorial assinado por 82 coroneis do Exército. Nesse episódio, caiu o ministro do Exército, Cyro do Espírito Santo Cardoso.

30. Não era tarefa simples sustentar-se sob constante e intensa pressão contrária da alta finança angloamericana, a qual não economiza recursos nem hesita em recorrer à corrupção e a práticas celeradas. Entretanto, a pior maneira de reagir a essa pressão é fazer concessões, em vez de cortar a crista dos golpistas.

31. Deixando de coibir aquelas práticas, Vargas facilitou o caminho dos inimigos. Sobraram-lhe escrúpulos, ao exagerar em sua tolerância, para não ser acoimado de ditador. Faltaram bons serviços de inteligência e a compreensão de que seria derrotado, se não mobilizasse o povo e a oficialidade nacionalista.

*- Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

A Argentina, a nova Guerra Fria e o Império

Por Adriano Benayon

A situação da Argentina e a investida dos abutres deve ser encarada no contexto da atual guerra fria do império com a Rússia. Também a violência, sustentada pelo império, através do Estado sionista na faixa de Gaza, deve ter interconexão com a guerra anti-Rússia e com o caso da Argentina.

Corro o risco calculado de, novamente, despertar reações de desagrado dos que, em vez de discutir o objeto de que se trata, se manifestam contrariados por ter sua sensibilidade afetada por afirmações julgadas peremptórias e com as quais não concordam.

Não deveria ser necessário, para poder expor nossos pontos de vista, que os embalássemos em escusas ou ressalvas do tipo: salvo melhor juízo: acho. Etc. Compreendo, porém, que, tal o esquema tirânico (algo muito pior que ditatorial) da mídia dominante no Ocidente, que as pessoas estranhem muito o que alguns de nós têm a dizer, especialmente os que recebemos matérias de fontes independentes dessa mídia e até as procuramos.

Primeiramente, a Argentina é o único país latinoamericano que, graças à mobilização popular, conseguiu, há pouco mais de dez anos, derrubar o governo (nos outros, os governos só têm sido apeados por golpes militares, ou agora pelos da moda, via Parlamento, sempre regidos pelo império).

Além disso, entre os latinoamericanos de maior dimensão econômica, é o único que levou a efeito auditoria da dívida e a renegociou, logrando reduzi-la substancialmente, de sorte que é o único cujas possibilidades de investimento público não estão manietadas pelo serviço da dívida.

Não bastasse, seu governo está entre os tachados de esquerda, aplica uma lei de meios de comunicação, tem feito algumas reestatizações etc. Não bastassem essas coisas, estaria conversando para entrar nos BRICS e ampliando suas relações com a Rússia.

Ao mesmo tempo, temos, em 2014, entrado num período de relações mundiais, em que os EUA e seus satélites passaram da fase de atacar e destruir países de menor porte, e estão intensificando sua escalada de ataques e provocações contra uma grande potência, não do mesmo porte, mas ainda assim uma grande potência, a Rússia.

Não só impondo sanções e forçando a UE a aplicá-las, mas usando a Ucrânia para ataques diretos, após ter promovido ali um golpe de Estado, com forte participação de elementos nazistas.

Ou seja, estão fazendo tudo que podem para causar uma 3ª Guerra Mundial, em que planejam – a risco de destruir completamente o Planeta – dar solução de continuidade ao processo de surgimento de uma multipolaridade do poder mundial, adveniente basicamente da aproximação e intensificação das relações econômicas entre a Rússia e a China, incorporando países da Ásia Central, Irã e outros. Mormente, com o reimimbi perfilando-se como muito mais confiável que o dólar para ser a principal moeda de reserva, além do início de operações de comércio internacional de certo vulto não sendo liquidadas em dólar ou euro.

Com as informações que acompanho sobre fatos bem anteriores, tais como a origem da 2ª Guerra Mundial, não constitui novidade alguma que oligarquia financeira angloamericana utilize nazistas para seus objetivos, inclusive porque ela foi decisiva para a entrega da Chancelaria a Hitler em janeiro de 1933, um instrumento dela com que contou para desencadear aquele tão longo e inusitadamente letal e genocida conflito.

Também conheço a utilização de elementos fascistas e nazistas por parte da CIA e do MI-6 no golpe que derrubou Getúlio Vargas em 1954, golpe de tão fatídicas consequências para a indústria nacional e para a própria independência de nosso País.

A agressão à economia argentina, com a decisão judicial em favor dos fundos abutres, equivale às sanções econômico-financeiras que os EUA, há tempos, aplicam contra o Irã e, mais recentemente, à Rússia. Pode sinalizar este recado: agora está começando a guerra mundial, e os países menores, notadamente os latinoamericanos, nosso velho quintal, têm que se alinhar, têm de compreender onde está a força, e inclinar-se diante dela.

A Argentina deveria significar que não tem por que submeter-se ao judiciário dos EUA, inclusive porque não a obriga a isso o direito internacional. E precisará de muita decisão e coragem para isso, pois sofre, há tempos, intervenção para desestabilizar o governo de Cristina Fernandez.

Ao enfrentar o presente desafio dos abutres e dos EUA, terá ainda mais trabalho, pois essa intervenção será intensificada, conforme os métodos tradicionais, e alimentada por vultosa corrupção através dos inesgotáveis dólares emitidos com meros clics nos computadores dos bancos do eixo Wall Street / City de Londres e de seus incontáveis braços nas bases offshore.

O sistema pró-oligarquia

Por Adriano Benayon*, 15.07.2014

É pró-oligárquia o sistema político-econômico prevalecente nos países “desenvolvidos”, que, erroneamente, dizem ser democracias. O mesmo sistema é ainda mais radical nas periferias sob seu comando, como o Brasil, cujos mercados e base produtiva foram entregues às transnacionais, desde os anos 50, para ser explorados de forma neocolonial.

2. Temos exemplos significativos de que a política econômica no Brasil é intervencionista, e não, liberal. Ela não opera em prol do equilíbrio social, mas, sim, favorece os concentradores, em geral, e o capital estrangeiro, em especial.

3. Na moeda e no crédito, a intervenção contra a sociedade e em favor do oligopólio dos grandes bancos privados tem seu pilar básico na própria Constituição Federal (cidadã de onde?), em seu art. 164.

4. Este atribui exclusivamente ao Banco Central – cuja política, na prática, é determinada por aqueles bancos – a competência da União de emitir moeda e, ademais, proíbe ao Banco Central financiar entidades do Estado, inclusive o Tesouro Nacional – ao qual deveria caber o poder de emitir.

5. Ou seja: o BACEN só pode financiar os bancos privados, os quais se locupletam com os juros dos títulos do Tesouro, a taxas brutais, que, de nenhum modo, decorrem de um mercado financeiro livre.

6. Em um mercado livre não haveria, como há, a concentração de oferta de dinheiro nas mãos de um oligopólio liderado por pouquíssimos e gigantescos bancos, nem a promoção de enorme demanda forçada, constituída pelas necessidades de financiamento do Tesouro (consequência do art. 164 da CF).

7. Ironicamente, a maior das fontes de demanda por crédito provém do próprio serviço da dívida pública, a qual atingiu cifras assustadoras, através da composição de juros a taxas elevadíssimas, impostas pelo cartel dos bancos, que a grande mídia chama de o “mercado”.

8. Além das somas colossais que o cartel aufere com os juros dos títulos públicos, os lucros dele crescem também em função dos depósitos voluntários e compulsórios que colocam no Banco Central.

9. Noticiou-se que, em maio de 2014, os depósitos compulsórios atingiram o saldo de R$ 395,7 bilhões, remunerados à taxa SELIC. A 11% aa., supondo esse saldo médio no ano, o cartel ganha, só aí, R$ 43,5 bilhões.

10. Conforme estudo do DIEESE, em 2011, mais de 60% do lucro líquido dos cinco maiores bancos do país vieram da remuneração do depósito compulsório no Banco Central. Foram R$ 33,6 bilhões, do total de R$ 50,7 bilhões de lucro.

11. Esse retorno superou em 97,4% o de 2010. Em conluio, as autoridades monetárias, o “mercado” (cartel dos bancos) e a grande mídia alegaram o objetivo de conter o crescimento do crédito ao consumo e combater a inflação. Ora, as altas taxas de juros não servem para controlar a alta dos preços, mas, sim, para fomentar os lucros do cartel e dos rentistas.

12. Novamente crescem os depósitos no BACEN dos bancos, que agora dizem estar reduzindo riscos, diante da perspectiva de aumento das inadimplências, tendo deixado de emprestar quase R$ 14 bilhões, desde que as taxas de juros começaram a voltar a subir. De março de 2013 a maio de 2014, os compulsórios cresceram R$ 49,24 bilhões (14,7%).

13. Resumindo, o cartel:

a) recebe depósitos à vista do público, com os quais “lastreia” empréstimos, criando moeda do nada, que se torna dinheiro dele, à medida que recebe os juros e as amortizações desses empréstimos. Por exemplo, com 45% de compulsório, pode emprestar 6 e até mais vezes dos 55% de recursos livres: assim, para R$ 50 bilhões de depósitos à vista, terá R$ 27,5 bilhões livres e a possibilidade de criar crédito (dinheiro) no montante de R$ 165 bilhões ou mais;

b) sobre esses empréstimos, ganha as taxas mais altas do mundo, hoje na média de 32% aa., ao financiar pessoas físicas e jurídicas,

c) aufere os juros dos depósitos compulsórios, em que o risco é zero, sobre um dinheiro ocioso, que deixa ociosos fatores de produção existentes e não é usado para gerar novos bens de capital físico;

d) recebe recursos a baixo custo do BACEN no mercado interbancário;

e) aufere juros, a taxas efetivas muito superiores à absurdamente elevada SELIC, nos títulos de Tesouro, que assim paga por recursos financeiros que ele próprio poderia e deveria criar, não fosse a política pró-oligarquia instituída através do art. 164 da CF.

14. Portanto, poder-se-ia estimar a bolsa-bancos em mais de R$ 100 bilhões/ano. Essa brutal transferência de renda, em detrimento da sociedade e da produção decorre, além de das disposições legais, de as taxas de juros serem administradas pelo Estado, sob comando do cartel dos bancos. Ora, a taxa de juros seria baixíssima, se fosse determinada pelo mercado financeiro sem tal intervenção.

15. Também os mercados dos bens de uso durável e n outros ficam sob controle dos carteis, situação que se foi agravando, desde que, nos anos 50, a política subsidiou a ocupação do mercado e da produção pelos carteis que dominam o grosso da economia mundial.

16. Se fosse liberal e pró-livre iniciativa, a política teria viabilizado a concorrência nos mercados, coibindo os oligopólios e fomentando a descentralização, sem a qual não existe a menor possibilidade de livre concorrência e de livre iniciativa.

17. Após a concentração da indústria nas mãos das transnacionais, situação já consolidada no final dos anos 60, vieram com Delfim Netto, os desbragados subsídios à exportação de manufaturados. O que é isso senão intervencionismo pró-imperial?

18. Um liberal sério e que não seja agente consciente ou inconsciente da oligarquia imperial, defenderá a privatização somente em atividades que não demandem grande escala, nem sejam monopólios naturais. Assim, não pediria privatizar as estatais, as quais, ao contrário dos oligopólios transnacionais, viabilizavam empresas de pequeno porte e, assim, concorrência e produção de tecnologia no País.

19. A fim de descentralizar a economia e assim criar condições para a livre iniciativa, deveriam recomendar nacionalizar-se as multinacionais e subdividi-las, e então privatizá-las para empreendedores, que precisariam crédito e capacitação, por, de há muito tempo, virem sendo as empresas nacionais excluídas do mercado.

20. Como observa o Eng. Hélio Silveira, a política pró-imperial entregou a grandes grupos privados e estrangeiros empresas públicas, monopólios naturais, repassados com receita garantida, dinheiro em caixa, livres de obrigações fiscais (e até com créditos fiscais) e de dívidas trabalhistas, para o que a União desembolsou vultosos recursos públicos, muito maiores que as quantias arrecadadas nos leilões, amiúde pagas com títulos podres.

21. Privatizaram-se também, nessas condições, bancos estaduais, que se juntaram ao cartel dos bancos e se cevam com a bolsa-bancos.

22. A política pró-imperial prossegue nos empréstimos dos bancos públicos – BNDES à frente – com taxas de juros subsidiadas, para transnacionais e para outros grupos concentradores.

23. Do mesmo modo, as concessões de serviços públicos, garantidos por financiamentos federais, a grupos privados assemelham-se a feudos, dada a exploração, tarifas crescentes e sem obrigação de elevar a qualidade dos serviços. Nada têm de liberalizante.

24. Esse é também o caso das parcerias público-privadas, em que o Estado financia e assegura lucros sem risco para grupos privados.

25. Apresentada como liberal, em vez de desmascarada por sua natureza pró-imperial e pró-oligarquia, a grande fraude consiste em opor-se a intervenção do Estado sem perceber que esta tanto pode beneficiar como prejudicar a sociedade. Ao mesmo tempo, ignora-se que o favorecimento à concentração da economia e das finanças nas mãos de grupos privados necessariamente prejudica a sociedade.

26. Daí que a política pró-oligarquia usa o Estado como agente da concentração e da desnacionalização, intensificadas, no Brasil, a partir do golpe de Estado de 1954, promovido pelos serviços secretos e entidades dos centros imperiais.

27. Foi, ademais, minada a qualidade da administração pública, para “justificar” as privatizações e as concessões, além de criarem-se as agências “reguladoras”, dominadas pelos grupos concentradores. Além disso, a fim de torná-la inepta para promover o desenvolvimento.

28. Até instituições supostamente criadas para representar os interesses da sociedade, como o Ministério Público, o TCU e os tribunais de contas estaduais, entraram em cena, inviabilizando investimentos estatais, com amparo em leis como as ambientais e as de proteção aos indígenas.

29. Com a Lei de licitações, os agentes públicos evitam levar adiante obras públicas, receando processos administrativos. A repressão à corrupção de varejo não afasta, porém, a mega-corrupção sistêmica.

* – Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento

Os BRICS e a necessidade de autonomia frente ao sistema financeiro global

Por Adriano Benayon

Os acordos dos BRICs, recém-assinados no Brasil – o da criação do Banco de Desenvolvimento e o referente ao mecanismo de proteção em face de crises financeiras – são passos interessantes, que representam maior potencial de cooperação entre os países membros, mas cuja realização depende substancialmente da vontade política desses países e, portanto, fundamentalmente, do grau de autonomia que eles têm vis-à-vis dos centros diretores do sistema financeiro mundial, governado por FMI, Banco Mundial e, acima de tudo, pelos principais bancos de Wall Street e da City de Londres.

É indicativa da allegiance a esse sistema, a regra desse Acordo, de subordinar ao beneplácito do FMI o socorro, na base integral do colchão de reservas.

O mais proveitoso a esperar dos BRICs seria o impulso para ampliar significativamente as operações comerciais e financeiras liquidadas nas moedas dos países membros, liberando-os gradativamente da dependência aos dólares emitidos ad libitum pelo FED.

E, esse respeito, só poderemos avançar, no que dependa do Brasil, de termos um Banco Central independente dos banqueiros e obediente a um governo que zele efetivamente pela autonomia do País. Quando me informarem de operações financeiras significativas que tenham sido aprovadas pelo BACEN, então confiarei em que o BRICs possa ser considerado instrumento decisivo para o desenvolvimento do País.

É fundamental ter presente que a remoção dos maiores empecilhos ao nosso desenvolvimento não depende de dólares e, por conseguinte, das boas graças da “comunidade financeira internacional”.

Há muito dinheiro para investir, mesmo com as amarras antinacionais do art. 164 da Constituição e outras. Este, como tenho salientado, faz que o Tesouro pague colossal serviços de dívida, que não precisaria ter existido, pois ao Tesouro deveria caber a competência de emitir moeda – e, não, ao BACEN. Esse dá o dinheiro aos banqueiros, para aplicarem nos títulos públicos, acarretando despesa inútil, no montante de mais de 40% do total.

Além disso, o BACEN remunera, na base da SELIC, os depósitos dos bancos no BACEN, livres e compulsórios.

Incrivelmente, há muito dinheiro, inclusive no BNDES e demais bancos estatais, e o que mais tem obstado os indispensáveis investimentos de infra-estrutura é a legislação de concorrências, instauradora de medo pânico nos administradores públicos, os quais preferem garantir seus empregos, não levando coisa alguma adiante. E mesmo quando o fazem, são impedidos pelo Ministério Público (instado por ONGs etc.), e pelos TCs.

Liberalismo ou imperialismo?

Por Adriano Benayon*

Ao nos ocuparmos das questões nacionais, não devemos nos precipitar, pois há pressa, e não se deve desperdiçar tempo em assuntos e discussões de importância secundária. A situação é grave demais para que se tire o foco do que interessa. Um tema que não deveria merecer gasto de nossa energia são as eleições presidenciais. Em artigo recente, “Eleições e Modelo Dependente”, escrevi: “O real sistema de poder manobra sempre para que todos os candidatos com chance de chegar ao 2º turno estejam comprometidos com a realização destes objetivos: ampliar e aprofundar a desnacionalização da economia, desindustrializá-la, servir a dívida – inflada pela composição de juros absurdos – e propiciar ganhos desmedidos às grandes empresas transnacionais.”

Portanto, com qualquer “eleito”, a vitória será do sistema imperial e de saqueio, comandado pela oligarquia financeira angloamericana, através de carteis transnacionais e coadjuvada por concentradores locais.

Sessenta anos de atraso tecnológico aumentando e crescente perda de autodeterminação política e econômica geraram condições deterioradas de vida no País.

Essa deterioração tem sido acompanhada por doses maciças de desinformação, sendo a natural revolta popular manipulada por opositores diretamente vinculados àquela oligarquia financeira e principalmente por entidades controladas por esta, que agem para desestabilizar a presente gerência petista.

Esta, na verdade, atende ao sistema de poder da oligarquia, contra o qual a revolta deveria se dirigir. É como culpar só o gerente do restaurante que manda servir alimentos estragados e que, se não o fizer, será sumariamente demitido.

De qualquer forma, não é tolerável a lesividade das políticas do atual governo, como:

1) os leilões do petróleo;

2) o agravamento da situação do setor de energia elétrica no quadro de um sistema predador, que se diz “de mercado”;

3) as parcerias público-privadas;

4) novas elevações das absurdas taxas de juros dos títulos públicos, que sangram o Tesouro, em favor dos concentradores financeiros.

Há que denunciar também a continuidade:

1) das alienações de terras usadas predatoriamente, em grandes plantations, para exportação;

2) da extrema desnacionalização da economia;

3) do favorecimento aos carteis transnacionais, praticantes de preços extorsivos e de transferência;

4) da liberdade de exportação, com baixa ou nula tributação, de inestimáveis recursos minerais, preciosos e estratégicos, inclusive o nióbio, em que o pouco caso com os interesses nacionais recebe o aval da CODEMIG, estadual de Minas Gerais.

Entre os crimes mais graves das gerências petistas estão como os decretos e medidas para liberar as sementes transgênicas e os agrotóxicos a elas associados. A urgente proibição dessas sementes tem de ser exigida nas mobilizações populares sem as quais o processo de desintegração do País não terá solução de continuidade.

Mais de 800 cientistas de 82 países assinaram carta aberta, na qual pedem a suspensão imediata das licenças ambientais para cultivos transgênicos e produtos derivados, tanto comercialmente como em testes em campo aberto, durante ao menos cinco anos.

Eles proclamam: “as patentes dos organismos vivos, dos processos, das sementes, das linhas de células e genes devem ser revogadas e proibidas.”

Apontam agrônomos e biólogos: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, nem reprodução da flora; sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.”

Isso não é pouco, e há mais que isso. Os cientistas confirmam que os cultivos transgênicos prejudicam os agricultores, inclusive por envolver o aumento do uso de herbicidas e o empobrecimento do solo. Ademais, intensificam o monopólio das grandes empresas sobre os alimentos, o que está levando os agricultores familiares à miséria e impedindo a segurança alimentar e a saúde no mundo.

Até mesmo nos EUA e no Reino Unido, fontes do próprio Estado reconhecem o perigo dos transgênicos para a biodiversidade e a saúde humana e animal. A transferência horizontal de genes acarreta a difusão de genes que tornam incuráveis as doenças infecciosas e criam vírus e bactérias causadores de doenças e mutações capazes de provocar o câncer.

Liberalismo ou imperialismo?

A oligarquia financeira mundial tem investido no Brasil – durante mais de um século, de forma crescente – na (de)formação de opiniões e na deseducação, gerando confusão mental e animosidade entre grupos sociais e indivíduos, associadas a doutrinas e ideologias.

Os saqueadores e seus adeptos – remunerados ou não – encobrem a verdadeira natureza das políticas que realizam o saqueio imperial, fazendo que até mesmo os críticos delas as qualifiquem de liberais e neoliberais.

Esses nomes não costumam causar repulsa geral e até exercem atração sobre as pessoas que os associam a termos da mesma raiz, como “livre” , libertário”, “liberdade”. Palavras bonitas e antigos ideários das revoluções francesa e norte-americana, que passaram a ser evocados por mentores das políticas de escravização através da economia.

Do mesmo modo que as oligarquias nos países centrais, os defensores, no Brasil, dos privilégios aos carteis transnacionais e de seus contatos coloniais ou semicoloniais também se dizem e são chamados de (neo)liberais.

Então, o que, na realidade, não passa de mera apropriação dos recursos naturais e dos frutos do trabalho de um país, fica sendo discutido como se fosse questão doutrinária.

O engodo é ainda maior, porque se atribui aos liberais ser contrários à intervenção do Estado, e porque a grande maioria das pessoas ignora que atualmente, na maioria dos países, o Estado é controlado pela oligarquia e que ele intervém, em favor desta, nas finanças e na economia.

Por causa disso – mas sem que o público perceba que é por isso – o Estado comporta-se como insaciável coletor de impostos e taxas, sem prestar serviços, nem investir bem, nem assegurar direitos sociais básicos.

A própria incompetência adrede instalada no Estado, serviu para fazer aumentar ainda mais a concentração predadora, através das privatizações.

Essas estão sendo desfeitas em alguns países como Rússia e França, enquanto no Brasil o Estado só aumenta de tamanho como repassador de recursos a concentradores estrangeiros e locais.

Antes, tivemos excelentes avanços tecnológicos em estatais, mas elas foram sendo minadas para “justificar” as privatizações. Tudo em nome da “livre” iniciativa, na qual carteis e monopólios sufocam a iniciativa, impedem a concorrência e apropriam-se das poucas tecnologias não impedidas de surgir.

Entretanto, nenhum país se desenvolveu sem a liderança do Estado, o único instrumento de a sociedade organizar-se para evoluir e defender-se, papel que ainda desempenha em alguns países, ainda que nem sempre a contento geral.

Sem o Estado a seu serviço, a sociedade transforma-se em massa amorfa, composta por indivíduos sem personalidade e sem liberdade alguma, como ocorre no grande número de países dominados pela oligarquia financeira mundial, inclusive em suas sedes – EUA, Reino Unido.

Assim, as instituições formalmente democráticas, mesmo quando não violadas por desestabilizações e golpes de Estado, ficam sob controle daquela oligarquia. Os “governantes” são prepostos ou acuados.

De fato, não existe democracia sob regimes que não estabelecem limite à concentração econômico-financeira. A falsa que temos aqui leva à convulsão, com chance de o que vier depois, levar à guerra civil, à desintegração e a ainda maior submissão ao império mundial.

Portanto, nossa sobrevivência depende de os brasileiros não mais se deixarem pautar pela agenda e pelos conceitos do império. Só começará a ser viabilizada, quando a consciência dos fatos deixar de ser obscurecida por ideologias, e quando os brasileiros deixarem de repelir-se entre si por divergências de opinião, inclusive esquerda ou direita.

Adriano Benayon

*-Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento

Para sobreviver, sair do dólar

Por Adriano Benayon*

O sistema monetário internacional que prevalece desde 1971, é ainda pior que o criado pelos Acordos de Bretton Woods, em 1944, meses antes de acabar a 2ª Guerra Mundial.

2. Esses acordos – que instituíram o Banco Mundial e o FMI – deram primazia ao dólar como moeda de reserva mundial, mas estabeleciam limite à tirania financeira angloamericana, porquanto os EUA se comprometiam a vender ouro em troca de dólares, à taxa fixa de US$ 35,00 por onça-troy (31 gramas).

3. Entretanto, em agosto de 1971, os EUA romperam oficialmente os acordos de Bretton Woods, que já descumpriam na prática, desde, pelo menos, 1968, ao dificultar, a entrega do ouro.

4. Não lhes foi difícil virar a mesa, a seu talante, uma vez que eram satélites dos EUA os países que acumulavam maiores saldos de transações correntes em dólares – como Japão, Alemanha e Itália, ocupados militarmente desde o final da Guerra.

5. A exceção foi a França, cujo presidente, general De Gaulle praticava política independente. Exigia a conversão em ouro dos saldos de seu país, pois colocava os interesses nacionais acima da ideologia, inclusive em seu posicionamento em face da Guerra Fria.

6. A oligarquia financeira angloamericana visa exclusivamente ao poder mundial ilimitado e tampouco acredita em ideologias. Usa qualquer uma, em qualquer lugar, que a ajude, conforme o momento, a avançar naquele objetivo.

7. Assim, os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido, juntamente com as máquinas de corrupção de instituições públicas e privadas desses países, fomentaram, na França, lideranças estudantis esquerdistas, com apoio da grande mídia e até de partidos e organizações de esquerda.

8. Assim, mobilizaram massas no movimento de maio de 1968, que espalhou a desordem e o caos pela França, e até hoje é considerado libertário pela opinião majoritária.

9. Apesar de alvo das manobras angloamericanas de desestabilização, De Gaulle manteve-se no governo até 1969, renunciando, ao ser derrotado em um referendo, pela primeira vez.

10. Esse tratamento, dado pela tirania imperial a De Gaulle, foi menos brutal que o dispensado a Saddam Hussein em 2003 e a Muamar Ghadáfi em 2011. Afinal, a França era potência nuclear e aliada, ademais de fonte das tão traídas ideias democráticas, formalmente adotadas nos EUA.

11. Pela mesma tentativa, de livrar seus países da extorsão pelo dólar, Hussein e Ghadáfi foram assassinados, com seus filhos e famílias, e seus países destruídos por agressões militares genocidas.

12. Daí se infere a importância para o império de continuar obrigando suas vítimas a custear até as armas com que são trucidadas ou chantageadas.

13. Pode-se estimar o que está em jogo pela proliferação dos ativos financeiros em dólares. Os derivativos nessa denominação passam de US$ 500 trilhões.

14. Vê-se, ainda, a inflação do dólar comparando a taxa de conversão do ouro até os anos 60, e sua ascensão posterior no mercado: de US$ 35,00 por onça-troy ele foi para os atuais US$ 1.300,00.

15. Chegou a US$ 1.800,00 em 2011, e só caiu por meio de manipulações dos grandes bancos, que fazem o que querem nos “mercados financeiros”, como vender quantidades enormes de certificados de ouro que não existe em cofre algum.

16. Esses certificados não passam de papel pintado, como o dólar foi descrito pelo general De Gaulle, nos anos 60. Hoje, nem isso, pois basta um clic nos computadores dos bancos do sistema do FED para passar o conto do paco no mundo inteiro.

17. A situação de um país em relação aos EUA é semelhante à de um particular ou de uma empresa em relação ao banco com que opera. Quando o banco faz empréstimos, cria dinheiro: abre, do nada, créditos na conta do tomador, e este fica obrigado a pagar amortizações e juros com dinheiro de seu salário ou de outra receita do trabalho individual ou empresarial.

18. Sob “governos” traidores, que começaram a entregar o mercado às empresas transnacionais após o golpe de agosto de 1954, o Brasil ficou fadado a ter déficits crônicos no comércio de bens e serviços (transações correntes) com o exterior, a origem das dívidas externa e interna.

19. O déficit de conta corrente tem crescido aceleradamente e somou US$ 81,4 bilhões em 2013. No primeiro quadrimestre, já atingiu US$ 33,5 bilhões, projetando mais de US$ 100 bilhões em 2014 (quase 5% do PIB).

20. De 2008 a 2012, totalizou US$ 204,1 bilhões, devendo, pois, ao final de 2014, acumular mais de US$ 400 bilhões, salvo se a crise econômica desabar sobre o País antes de o ano terminar.

21. O rombo é mal tapado pela entrada de investimentos estrangeiros, porquanto estes implicam intensificar a causa do mal, pois o grosso dos déficits externos decorreu dos lucros, inclusive disfarçados em despesas, remetidos ao exterior, relacionados também com o desequilíbrio inerente ao comércio entre países que se desenvolveram e os que patinam no atraso tecnológico, proveniente da desnacionalização da economia.

22. A moral, ou antes, a imoralidade da história é que para “investir” as transnacionais só precisam de dólares que seus bancos criam à vontade, enquanto as dívidas que o Brasil acumula, têm de ser pagas com bens, patrimônios e trabalho nacionais.

23. Com efeito, valendo-se do privilégio dado ao dólar como divisa internacional, os emissores dessa moeda e as empresas a eles ligadas não têm dificuldade alguma para comprar patrimônios, empresas e consciências em qualquer país que não restrinja essas aquisições.

24. Instituído no final de 1913, em trama na qual o Congresso cedeu seus poderes à oligarquia, o FED, banco central dos EUA, cria dólares e os fornece aos bancos angloamericanos que formam o cartel controlador do próprio FED.

25. Sair do dólar gerará represálias das potências angloamericanas e satélites, também dominadas pelos manipuladores dos mercados financeiros. Entretanto, é medida de sobrevivência para quem não quiser continuar sendo satélite ou colônia da oligarquia mundial.

26. A alternativa é ser subjugado através da ilimitada criação de moeda, que permite a essa oligarquia adquirir praticamente tudo, em qualquer lugar do mundo, além de financiar sua máquina de guerra.

27. Os EUA, de há muito, investem em armas mais que o dobro que o resto do mundo, e são as armas que, por exemplo, obrigam países exportadores de petróleo e a vendê-lo por dólares.

28. A questão está na ordem do dia. Haverá reunião em julho deste ano, em Fortaleza, na qual se espera que os chefes de Estado dos BRICS formalizem a criação de Banco de Desenvolvimento e assinem Acordo Contingente de Reservas.

29. Mais promissora, por ora, é a realização, nas moedas da Rússia e da China, dos pagamentos referentes ao novo e expressivo acordo de fornecimentos de gás russo e às exportações chinesas relacionadas.

30. Essas potências já realizam, em suas moedas, algumas transações com terceiros países, principalmente asiáticos, e a amplificação disso é fundamental para o ainda distante fim do domínio mundial do dólar.

31. Para contribuir nessa direção, o Brasil precisa, desde logo, revogar o art. 164 da Constituição e nacionalizar o Banco Central.

32. De fato, entre outros atos lesivos aos interesses nacionais, o BACEN, rejeita operações pelo Convênio de Créditos Recíprocos, firmado, em 1968, com países latino-americanos, e através do qual as operações de comércio exterior podem ser liquidadas nas moedas dos países membros, e os saldos, financiados pelas autoridades financeiras respectivas.

*- Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento

Getúlio Vargas e a luta pela independência do País

Garoeiro

Por Adriano Benayon

Nos anos 50, apesar do retrocesso na política econômica verificado após a primeira deposição de Vargas em 1945, o Brasil ainda progredia, graças ao excelente potencial do País e ao fato de ainda não ser intensa a transferência de recursos ao exterior. Esta se intensificou desde 1954, à medida que os investimentos diretos estrangeiros se foram apossando do essencial da indústria e, depois, dos demais setores da economia.

O projeto de Vargas para seu mandato iniciado em 1951 e abortado em 1954, foi completar os passos fundamentais, dados na direção do progresso e da independência do Brasil, de 1930 a 1945. Estes são alguns deles:

1) O País assegurou o controle da União sobre o subsolo e as águas. 2) Recuperou a propriedade de grandes jazidas minerais, como o fabuloso patrimônio da Companhia Vale do Rio Doce. 3) Instalou a primeira siderurgia integrada, a Cia. Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda; 4) Fundou a Fábrica Nacional de Motores. 5) Instituiu a previdência social e a legislação trabalhista, com garantias aos empregados, horário de trabalho, salário mínimo e aposentadoria. 6) Criou o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), passando a admitir os servidores do Estado por meio de concurso, e não pelo apadrinhamento, e a formar e aperfeiçoar os funcionários. 7) Fundou o Instituto de Resseguros do Brasil e criou reserva de mercado nos seguros. 8) Promoveu a nacionalização da grande maioria dos bancos comerciais (até 1932 a maior parte dos depósitos e o mercado de câmbio estavam em mãos de bancos estrangeiros). 9) Liquidou, em 1943, a dívida pública externa, ao resgatar títulos no mercado secundário de Nova York, com reservas acumuladas por exportações, durante a Segunda Guerra Mundial. 10) Fez prosseguir a industrialização, por meio do capital privado nacional, apoiado por crédito e por investimentos públicos. 11) Promulgou uma lei antitruste.

Certamente houve mais que esses onze feitos libertadores. Mas só um ou dois deles seria o suficiente para fazer com que as potências imperiais anglo-americanas atuassem, sem cessar, aberta e secretamente, para derrubar Vargas em outubro de 1945 e, de novo, em agosto de 1954.

O Presidente tinha plena consciência de que a dependência financeira torna inviável a autodeterminação. Por isso era céptico em relação a projetos e programas financiados por empréstimos externos. Percebera também a desproporção entre as remessas de lucros dos investimentos diretos estrangeiros e a efetiva entrada de recursos no País a esse título. Sabia também, com clareza, o que esperar das potências imperiais. Nas suas palavras, em entrevista à Folha da Noite, de julho de 1950, citadas por Mauro Santayana, em artigo recente:

“Quero, ao morrer, deixar um nome digno e respeitado. Não me interessa levar para o túmulo uma renegada memória. Procurarei, por isso mesmo, desmanchar alguns erros de minha administração e empenhar-me-ei, a fundo, a fazer um governo eminentemente nacionalista. O Brasil ainda não conquistou a sua independência econômica e farei tudo para consegui-la. Cuidarei de valorizar o café, de resolver o problema da eletricidade e, sobretudo, de atacar a exploração das forças internacionais. Elas poderão, ainda, arrancar-nos alguma coisa, mas com muita dificuldade. Por isso mesmo, serei combatido sem tréguas. Eles, os grupos internacionais, não me atacarão de frente, porque não se arriscam a ferir os sentimentos de honra e civismo de nosso povo. Usarão outra tática, mais eficaz. Unir-se-ão com os descontentes daqui de dentro, os eternos inimigos do povo humilde, os que não desejam a valorização dos assalariados, nem as leis trabalhistas, menos ainda a legislação sobre os lucros extraordinários. Subvencionarão brasileiros inescrupulosos, seduzirão ingênuos inocentes. E, em nome de um falso idealismo e de uma falsa moralização, dizendo atacar sórdido ambiente corrupto que eles mesmos, de longa data, vêm criando, procurarão, atingindo minha pessoa e o meu governo, evitar a libertação nacional. Terei de lutar, se não me matarem”.

Apesar de seu poder financeiro e de quase toda a imprensa denegrindo o “ditador”, a oligarquia anglo-americana não conseguiu impedir a eleição de Vargas. Então, comandou a conspiração concluída em agosto de 1954. Vargas havia, criado o BNDES e a Petrobrás, esta em 3 de outubro de 1953, ao sancionar a lei do monopólio estatal do petróleo. Estavam em curso providências para criar a Eletrobrás. Ademais, meses antes da conclusão do golpe, o Presidente assinou decreto que limitava a 10% do capital, por ano, a remessa de lucros para o exterior (5 de janeiro de 1954).

No 50º aniversário do golpe de Estado, muito se tem escrito sobre ele. Mas os comentários são, em geral, superficiais. A tônica, em uníssono, é que o presidente foi deposto por uma crise político-militar, que se seguiu ao atentado da rua Tonelero. Não se fala da conspiração comandada do exterior para recolocar o Brasil como satélite das potências imperiais. Essa conspiração teve diversos lances, como, em 1953, a mobilização de coronéis, e de outros segmentos da classe média, para se insurgirem contra o reajuste do salário mínimo em 100%, o qual apenas corrigia e, ainda assim, não de todo, o desgaste de seu valor real pela inflação.

O atentado da rua Tonelero foi apenas um dos últimos movimentos do cheque-mate. Nele foi ferido Carlos Lacerda, e, morto o Major Rubens Vaz, da Aeronáutica, o qual, fora de suas obrigações militares, prestava segurança ao político e jornalista. Lacerda não só criticava o presidente de modo sistemático e virulento, como o caluniava e à sua família. Nada mais interessante, pois, para os objetivos da oligarquia estrangeira que um atentado contra o ruidoso detrator de Vargas, culpando-se gente próxima a este pelo ato criminoso.

Atentemos para alguns detalhes do crime. 1) A arma que teria ferido um dos pés de Carlos Lacerda era um revólver calibre 38. 2) A distância entre o atirador que o portava e os possíveis alvos era de poucos metros. 3) Um pistoleiro profissional, como o recrutado, não teria como errar seu alvo verdadeiro, a saber, o próprio Major Vaz. 4) Se uma bala daquela arma tivesse realmente atingido o jornalista, o pé da pretensa vítima teria sido estraçalhado e não teria sido engessado, nem a “vítima” ter-se-ia recuperado em pouco tempo. 5) O prontuário desapareceu dos registros do hospital. 6) Na proteção a Lacerda revezavam-se oficiais da Aeronáutica, e, no dia do atentado, a escala foi mudada, para que Gustavo Borges, solteiro, fosse substituído por Rubens Vaz, cuja morte suscitaria maior comoção na opinião pública, por ser ele casado e pai de filhos pequenos. 7) O inquérito ficou sob a direção de oficiais da Aeronáutica hostis ao Presidente, os quais formaram rebelião incorretamente consentida pelo governo, instalando a notória “república do Galeão”. 8) Os implicados foram interrogados sob coação e possível administração de droga. 9) Gregório, chefe da guarda pessoal do Presidente, indiciado como mandante, foi assassinado antes do término da pena cominada, com o que deixou de apresentar qualquer versão que não a prestada sob constrangimento. 10) Entre os marginais atuantes no atentado estavam informantes da polícia política (DOPS), dirigida pelo delegado Cecil Bohrer, adepto do nazismo, cooptado, como muitos outros dessa afiliação, por serviços secretos estadunidenses e por companhia transnacional de petróleo.

A literatura costuma omitir isso tudo. Em seu livro “Getúlio Vargas – A Revolução Inacabada”, Bloch Editores 1988, o filho do presidente, Luthero Vargas, anota elementos factuais relevantes, além de incluir depoimentos substanciosos de observadores militares e civis próximos aos eventos. Afora esse, apenas o de Carlos Heitor Cony (“Quem Matou Vargas? – 1954 Uma Tragédia Brasileira”, Bloch Editores 1974) faz aflorar dúvidas quanto aos lugares comuns aceitos, quase sempre, sem questionamento, pela imprensa e pela mídia, e por historiadores, biógrafos e professores universitários.

De 1900 a 1958, período em que a entrada de investimentos estrangeiros no País foi insignificante, o produto interno bruto (PIB) cresceu 5% ao ano em média, tendo chegado a US$ 19 bilhões, o que equivale, em valor de 2004, a US$ 152 bilhões. Se se tivesse, então, implantado o modelo autônomo de desenvolvimento, aplicando em investimentos a poupança nacional, sem deixar vazá-la para o exterior, teria sido fácil fazer crescer o produto a 10% aa., taxa conseguida, durante vários decênios, por países que nem de longe contam com recursos naturais comparáveis aos do Brasil, tais como Japão, Coréia do Sul, Taiwan e China. Isso faria chegar o PIB a US$ 11,1 trilhões, quantia igual ao PIB dos EUA. Melhor, a US$ 16,7 trilhões, computando 50% de elevação do PIB oficial resultantes de alterações no método de cálculo. Esta cifra seria, de longe, a mais alta do Mundo.

Mesmo que apenas se tivesse mantido, nos últimos 45 anos, o ritmo (5% aa.) da 1ª metade do Século XX, o PIB alcançaria US$ 1,37 trilhão. Antes, com aquela correção, seria de 2 trilhões, ou seja, quatro vezes maior do que o PIB atual. Levando-se em conta o crescimento da população, a triplicação do uso do território, em função das exportações agrícolas, bem como o crescimento fantástico da exploração de recursos minerais, o pífio PIB atual deve ser visto como a radiografia de um País cujos recursos lhe são extraídos de forma desbragada.

Quem consentiu nisso, quem até contribuiu para que isso acontecesse? A quase totalidade dos presidentes após G. Vargas, o último a tentar efetivamente defender o País. Eles foram coniventes. Uns, buscando atenuar um pouco a sangria, temerosos, porém, de ser derrubados. Outros, ativamente oferecendo as riquezas do País a troco de nada para este, e certamente em troca de algo para si próprios.

J. Kubitschek costuma ser louvado em prosa e verso, e mesmo observadores, em geral argutos, iludem-se com as elevadas taxas de crescimento do PIB em seu qüinqüênio. Essas taxas decorrem, em grande parte, do estoque de capital social e privado formado nos 20 a 40 anos anteriores, e só significam progresso, se, a cada ano, se estiver melhorando aquele estoque e, portanto, assegurando a continuidade de taxas altas. Para isso, o que importa é não só a quantidade, mas a qualidade da infra-estrutura e dos demais investimentos produtivos. Importa muito, também, que esses fiquem sob controle nacional. Do contrário, a transferência de renda para o exterior faz, no futuro, encolher o investimento e o consumo e, assim, causar baixo crescimento e até o declínio da economia.

Kubitschek, ao contrário de Vargas, era adepto dos investimentos diretos estrangeiros, pois, presidente-eleito, antes da posse, visitou vários países centrais, fazendo propaganda das vantagens que o País oferecia aos investidores estrangeiros. Deu incentivos e subsídios desmedidos, para que montadoras transnacionais de veículos ganhassem a reserva do mercado brasileiro. Inviabilizou, assim, a médio prazo, as indústrias automotivas de capital nacional, ou misto, que já iniciavam sua produção, e, fez liquidar, a longo prazo, as indústrias nacionais de autopeças. Estas detinham quase 100% do mercado e hoje, um quarto dele. Também a indústria naval de capital estrangeiro foi favorecida pelos grupos executivos criados por JK.

Além disso, este adotou como principal bandeira de política externa a “Operação Pan-americana”, uma aposta, totalmente irrealista, de que investimentos públicos e privados norte-americanos dessem vigoroso impulso ao desenvolvimento do Brasil e de outros países do continente. Ora, por um lado, os que dominam a política dos EUA não têm qualquer interesse nisso – e levaram a “Operação” em banho-maria – e, por outro, se tivessem atendido as expectativas de Augusto F. Schmidt e de JK, não teriam ajudado a América Latina a desenvolver-se. Os países que o conseguiram foram exatamente os menos “beneficiados” pela ajuda estrangeira. No Plano Marshall, o Reino Unido e a França receberam 60% do total dos financiamentos. A Itália e a Alemanha Ocidental, 30%, e tiveram crescimento econômico bem superior ao daqueles países.

*-Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”